Histórias estampadas no corpo

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Em meio aos condomínios, casas, bares e lanchonetes que desenham o atual cenário urbano da Rua Lama, em Jardim da Penha, um estúdio busca, segundo os próprios proprietários, suprir a carência cultural do Estado, esquecida pelas autoridades locais. Longe de ser um estabelecimento comercial que busca lucrar com o trabalho, servindo bebidas e petiscos, o local, tímido na sua estrutura física, é ponto de encontro dos amigos, bate-papo entre os ‘chegados’, lazer para quem se interessa pela cultura popular, distanciamento para os desinformados, e principalmente para os donos, uma galeria de difusão da arte. Galeria? Como assim? Na Rua Lama? Por que não? Talvez o estranhamento logo de cara, mas a Tattoo na Lama é muito mais que um simples espaço de serviço ao cliente, e sim, área restrita aos amantes da arte e abertura para novos talentos.

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Galeria em meio a Lama

O que era apenas um sonho, agora, depois de encontros e desencontros, idas e vindas, após o amadurecimento pessoal de cada um, é realidade para Brunno Silva, mais conhecido pelos amigos como Nareba, e Ronaldo Gentil, o Gentil. “A ideia vem de longa data, não nasceu, e simplesmente brotou. Sempre tivemos vontade de abrir um local como esse, porém o tempo era curto e eu dedicava meu tempo às viagens. Morei em São Paulo, Rio de Janeiro e, até algum tempo fora do Brasil, na Europa. Depois de conhecer pessoas, entrar em contato com outras culturas e costumes, decidi abrir uma galeria de tatuagem, a Tatto Lama”, explicou Brunno. Ele lembra que a parceria com o sócio e amigo Gentil veio após um convite. “As coisas foram acontecendo aos poucos. Chamei Ronaldo, já que compartilhamos os mesmos ideais, para fazer parte desse projeto e nos dedicamos, exclusivamente, ao funcionamento do local. Agora, após cinco meses com as portas abertas, nosso estúdio está se firmando no que de mais legal se pode oferecer: encontros de parceiros, batalhas artísticas, exposição de obras como fotografia, shows, e todo evento que possa acrescentar nosso público culturalmente”.

Mas nem só de momento bons viveu o espaço. A galeria enfrentou sérios problemas para se consolidar. “Antes, só visitava quem nos conhecia. Tinha dias que a loja ficava o dia inteiro aberta, e ninguém aparecia. Agora, depois que nosso nome se difundiu pela Grande Vitória, o local vem sendo frequentado diariamente”, lembra Gentil. Ele frisa que ações ligadas à arte foram fundamentais para essa ascensão. “O local é uma galeria de obras. Fazemos aquilo que as pessoas têm medo de fazer: abrir mão do seu local de trabalho para expor trabalhos de grandes artistas. É por essa disponibilidade que gente de toda parte se identifica, e passa a vir à galeria, não apenas para fazer tatuagens, mas participar das atrações culturais que promovemos. Na próxima atividade, obras serão dadas de graça aos participantes. Queremos fugir daquela coisa que arte é uma coisa elitizada e para poucos. Queremos liberdade cultural, por meio de músicos e pintores”.

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Retrato das lembranças

“É tipo um álbum de retratos. Você olha e consegue perceber as ocasiões mais marcantes da sua vida”. É assim que Gentil define as tatuagens estampadas no corpo. Para ele, as imagens vão além de meros objetivos ou representações. “Somos apaixonados pela arte, nossa relação é muita ampla com a pintura, a fotografia e o cinema. Tatuagens não são apenas significados, algo fixo e pronto, como, por exemplo, homenagear o pai ou a mãe. Marcar o corpo costuma ser um processo de descoberta que estará desenhado eternamente em você. Enquanto estiver vivo, olhará no espelho e observará toda a trajetória de vida. Hoje, olho para minhas tatuagens, e vejo passagens inesquecíveis, como falava, sonhava e me comportava na época que eu as fiz. Tatuar é uma obsessão que passa pelas paredes, pelo papel e chega no corpo, uma referência eterna”.

A primeira vez ninguém esquece

tatto10Segundo Nareba, o primeiro contato com as tatuagens foi há muito tempo. “Eu devia ter uns quinze anos, quando um amigo que desenhava em skates me levou para conhecer um estúdio, em Novo México, Vila Velha. Era um beco escuro, com imagens estranhas, tinha até um capeta, e aranhas presas dentro de frascos de vidro. Eu saí assustado de lá. Depois de três anos, esse local mudou e se profissionalizou: as imagens mudaram, ficaram visualmente melhores”, relembrou. Brunno relata que a paixão pelas tatuagens teve seus primeiros indícios com desenhos feitos em camisas e capacetes. “Comecei nesse ramo por ‘pilha’ dos amigos mesmo. Arrumei o material para tatuar um ali outro aqui. No início era tudo mais difícil: não tinha muitas informações, nem material adequado. Você tinha que descobrir a prática sozinho”, informou. Com o tempo, a maturidade de ambos os tatuadores, tanto na vida profissional, quanto na pessoal, despertou. “Antes, fazia desenhos inocentes. Depois, o trabalho transformou-se, até chegar a um ponto que não precisa de referências de outros profissionais”.

 

Nunca pintei nada mais difícil como a pele humana. Você precisa ter um preparo psicológico com a dores alheias

Ronaldo Gentil

A pergunta que não quer calar: dói ou não dói?

De acordo com Gentil, além da diversidade de pele entre as pessoas, também há distinção da sensibilidade dos membros do corpo. “Tatuar o braço não é a mesma coisa que a coxa ou a costela, cada um requer um cuidado diferenciado. A coxa, por si só, é uma espaço aberto, de fácil manuseio. É uma área grande que o tatuador consegue desenhar com facilidade. Outros lugares, no entanto, os quais apresentam contato com o osso, como a canela, caso não tenha muita atenção, a chance de errar a mão é grande”, pontuou. Já Nareba diz que lugares como mão, costela e onde estão localizadas as juntas são as parte que mais doem. “Dor todo mundo sente, é inevitável. Ou chora que nem louco, ou fica calado. Normalmente, mulheres são mais fortes do que os homens. Elas têm uma resistência impressionante. Os homens, por sua vez, geralmente tatuam por partes: eles começam em uma semana, e só terminam depois de um mês”.

Dar para desistir de última hora?

Para fazer uma tatuagem é preciso pensar duas vezes, uma vez que é uma marca para vida toda. Sendo assim, uma conversa antes do procedimento e a certeza do que está fazendo são fundamentais para quem deseja fazer uma tatuagem. “Eu sou meio desleixado mesmo, falo para o cliente: pinta essa porra logo!”, brinca Gentil. Brunno pondera dizendo que não existe um discurso pronto, mas a análise do perfil do cliente ajuda na concretização do trabalho. “Não trabalhamos com desenhos prontos, feito na hora. Temos uma revista para que as pessoas vejam a diversidade e distintos formatos. Geralmente, quem nunca tatuou não tem dimensão nenhuma de tamanho. Acham que a mesma imagem da coxa pode ser desenhada no braço. Por isso, fundamentamos em hipóteses, criamos uma de tal forma que encaixe corretamente no corpo da pessoa”.

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Preconceito ou aceitação social?

Ano após ano, a tatuagem vem assumindo um papel determinante na sociedade que, muitas das vezes, pode levar ao preconceito. “Já aconteceu um e outro idoso ficar chocado com meu corpo. No meu ponto de vista, essas pessoas não saem de casa. Mas, sempre tenho uma resposta na ponta língua, falo para elas que “isso não é uma crime, e sim um direito. A sua geração conquistou um direito, e estou apenas usufruindo agora. Se tem alguma pessoa errada, essa pessoa é você. Você está infringindo minha liberdade. O que te dar liberdade de comentar sobre a decisão do outro? É a falta do que fazer!”.

Brasileiros x estrangeiros

Será que existe alguma diferença entre o modo de fazer tatuagens aqui, no Brasil, e no exterior? A resposta, segundo Gentil, é sim. “O brasileiro tem uma relação com tatuagens muito complexa. Acontece que vivemos em um país tropical. Desta forma, as tatuagens acabam se tornando um objeto estético, de exposição.”

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