“Os velhos estão morrendo e os novos não querem participar da brincadeira”

Share Button

(Savya Alana)

“Os velhos estão morrendo e os novos não querem participar da brincadeira” assim dizia Antônio Rosa, mestre de congo no município da Serra (ES), lamentando o desinteresse pela preservação do congo na região. Foi essa a frase que mudou a vida de Fábio Carvalho, de tanto ouvir o amigo e mestre Antônio Rosa repeti-la “a ficha caiu, me toquei que não tinha estudado nada da minha cultura na escola, estudei a cultura do mundo inteiro menos a minha”.

Devoto de São Benedito e músico de cultura popular  Fábio esteve sempre com os pés firmados em suas raízes afro e no congo, depois de sua trajetória na Banda Manimal, resolveu contribuir para a continuidade dessa tradição de tocar, dançar e cantar o congo, inscreveu o projeto Congo na Escola na Lei Rubem Braga e daí não parou mais, atualmente o projeto tem 14 anos, e as crianças que foram beneficiadas na época hoje são multiplicadores do projeto.

O projeto cresceu e virou o Centro Cultural Caieiras (CECAES) em agosto de 2000  tornando-se uma Organização da Sociedade Civil de Direito Privado e Interesse Público (OSCIP), sob a gestão do Fábio Carvalho e da Alcione Dias. A instituição atua na Ilha das Caieiras e Grande São Pedro, bairros periféricos da cidade de Vitória – ES.  Sua missão é criar alternativas para as situações de risco que envolve, principalmente, os jovens das comunidades onde está instalada, promovendo os direitos e o desenvolvimento humanos, através do incremento e da difusão da cultura local, estabelecendo ações que melhorem a autoestima, estabeleçam a dignidade e promovam a geração de renda. Os projetos Congo na Escola e Ponto de Cultura Manguerê são realizados pelo CECAES.

A pluralidade das atividades dos projetos tem como objetivo a formação cultural e profissional desses jovens “o mais legal do nosso projeto é estimular o protagonismo e a autonomia desses jovens através da arte, livrando-os da violência. A ideia é capacitá-los para possibilitar geração de renda. Alguns meninos já tocam fora e recebem por isso” ressalta Fábio Carvalho.

O ponto de cultura Manguerê visa aprofundar o trabalho de sensibilização para as artes e a formação técnica voltada para os jovens. O ponto de cultura conta com três núcleos de atividade: o Núcleo de Música, o de Artes Cênicas e o de Memória Audiovisual. As atividades são realizadas com jovens e adolescentes, com idade entre 08 e 21 anos, moradores da região da Grande São Pedro e Ilha das Caieiras l.

Além disso, são atividades do projeto o Reforço Escolar, as Artes plásticas e o Grupo Congo Menino da Ilha, que, de acordo com o Fábio, é um grupo parafolclórico, já que na Ilha das Caieiras o congo não era uma tradição e foi inserida graças ao trabalho realizado pelo projeto junto a comunidade.

grupo_manguere-579248-4f10a29c875f9
Fábio Carvalho com a galera do Manguerê.

O ponto de cultura Manguerê tem sede na Escola Eliane Rodrigues, mas atua também na Escola Francisco Lacerda de Aguiar e na Estação Jerereu (Casa Azul), onde são realizadas as oficinas. A sede também é um dos Pontos de Leitura do Brasil e possui um acervo com mais 600 títulos. Há também o Cineclube Manguerê fruto do núcleo da produção audiovisual.

O CECAES recebeu o  Prêmio ASAS  do Ministério da Cultura de Melhores Práticas em Gestão de Recursos Públicos.  Participou do Ponto de Contato e foi para Londres levar sua tecnologia social. Três jovens do projeto Manguerê, Viviane Barreto (multiplicadora e capitã da banda), Jaderson Valentim e David Barbosa  participaram do Alma Brasileira em homenagem aos 120 de Villa-Lobos e foram para o outro lado do mundo no Japão, tocar com o pianista Marcelo Bratke. A poetisa e atriz Elisa Lucinda também fez parte do time com o projeto o Manguerê Poético.

“Hoje as crianças que começaram no projeto são jovens multiplicadores. Eu nunca imaginava que ia trabalhar com desenvolvimento humano, e tudo tomou uma proporção inacreditável, rodei o mundo todo levando a minha cultura e tradição”

Fábio Carvalho

Conheça as atividades realizadas pelos Núcleos do Ponto de Cultura Manguerê:

Núcleo de Musica:  forma percursionistas capazes de tocar seus instrumentos com entendimento da estrutura musical e domínio da linguagem. O estudo busca, especialmente, os ritmos regionais brasileiros, além da pesquisa de instrumentos alternativos construídos a partir de objetos descartados pela sociedade, como rolamentos, tonéis, latões, entre outros, todos com grande potencial sonoro. Tendo como resultado o Grupo Cultural Manguerê já atuante. Pesquisa também a cultura Hip-Hop e a fusão destas diversas sonoridades. No repertório música popular brasileira e cancioneiro popular.

Aula de Congo com o Mestre Zé Bento
Aula de Congo com o Mestre Zé Bento.

 

Oficina de Congo - Com a Multiplicadora e Capitã Viviane Barreto
Oficina de Congo – Com a Multiplicadora e Capitã Viviane Barret

Núcleo de Artes Cênicas:  trabalha com diversas oficinas que envolvem o aprendizado do teatro e de técnicas circenses: monociclo, acrobacias e perna de pau. O objetivo é a criação e profissionalização do Grupo de Animação Circense da Companhia de Teatro Manguerê.

Espetáculo (Hoje Tem Espetáculo, Tem Sim Senhor!) - Cia. Manguerê de Artes Cênicas.
Espetáculo (Hoje Tem Espetáculo, Tem Sim Senhor!) – Cia. Manguerê de Artes Cênicas.

Núcleo de Memória Audiovisual: através de oficinas de produção de textos, fotografia e vídeo tem como objetivo manipular os conteúdos imateriais da cultura local, realizando um trabalho de levantamento e registro de fatos da vida da comunidade pelo ponto de vista da juventude e simultaneamente situá-los no debate cultural da sociedade como um todo. Conheça o blog e a TV CECAES.

Chris e Gabriel na produção do Documentário sobre a Ilha das Caieiras.
Chris e Gabriel na produção do Documentário sobre a Ilha das Caieiras.

Ponto de Cultura Manguerê

Rua Felicidade Correia dos Santos, 15, Ilha das Caieiras, Vitoria – ES. Tel: (27) 3235-7190. E-mail: pdcmanguere@uol.com.br.

 

Deixe um comentário