Grupo capixaba de teatro apresenta texto de Kafka no Chile

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(Leandro Reis)

Franz Kafka não sabia, mas uma de suas obras mais aclamadas nasceria de uma longa carta do escritor a seu pai. Publicada após sua morte, “Carta ao Pai” entrou para o grupo de textos clássicos da literatura em virtude de seus contornos pessoais, ao mesmo tempo em que se estende a um universo comum: as relações de poder entre pai e filho. Por isso, as palavras de Kafka adquirem outros significados e inserem-se em outras bocas.

Das páginas de “Carta ao Pai”, por exemplo, saiu a peça “A Culpa”, do Grupo Anônimos de Teatro, de Cachoeiro de Itapemirim, sul do Espírito Santo. A peça, encenada desde o ano passado, foi apresentada em quatro cidades do Chile, dentro da programação do IX Encontro Iberoamericano, entre o fim de janeiro e início de fevereiro deste ano.

“O texto de Kafka é tocante, vai na ferida e remexe cada fibra muscular. ‘Carta ao Pai’ nos dá a consciência de que as relações de poder nem sempre são saudáveis e que elas estão sempre perto de nós”, explicou o ator Luiz Carlos Cardoso, protagonista do espetáculo.

Dirigido por Carlos Ola, o ator se reuniu com o grupo em uma sala de academia para ensaiar a peça. Entre inserções de texto e reflexões acerca da obra, o Anônimos conseguiu montar um espetáculo simples, sem muitos recursos visuais, mas que arrancou, segundo Luiz Carlos, aplausos do chilenos. “A recepção das pessoas foi surpreendente. Recebemos outros olhares sobre nosso trabalho, coisas que nunca tínhamos imaginado. ‘A Culpa’ é um presente para a equipe”, comentou.

De volta ao Espírito Santo, o grupo se prepara para apresentações em Curitiba, no fim deste mês. Em paralelo, ocorrem os ensaios para espetáculos no Festival Espírito Mundo, evento que leva artistas do Estado para intercâmbio cultural na Europa. Em Portugal, o Anônimos encena, mais uma vez, “A Culpa”.

Teatro no Estado

Ainda que as experiências internacionais ajudem o Grupo Anônimos de Teatro, a situação do teatro no Espírito Santo carrega alguns aspectos de amadorismo, como a insuficiência de público e falta de recursos para montagem de peças. Luiz Carlos, à frente do grupo desde sua criação, em 2008, enxerga, além de problemas estruturais, inatividade do poder público.

“Editais do poder público deram margem para produção de espetáculos, mas esqueceu-se de conscientizar o público, de capacitar o artista, de abrir mais espaço para apresentações”, critica Luiz Carlos. Embora as condições não sejam as ideais, o ator destaca alguns grupos importantes para o teatro capixaba. Entre eles, Grupo Z, Repertório, Gota, Pó e Poeira e ASTECA, que, a exemplo do Anônimos, movimentam a cena cultural do Espírito Santo. “É só procurar para ver que nosso teatro é forte, profissional e feito para aplaudir de pé”.

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