“Bang Bang” : Um tiro certo no cinema capixaba

Share Button

Ludovico Persice

(Ayanne Karoline, Juliana Borges e Thaynara Lebarchi)

Natural de Alfredo Chaves (1899), já era de se esperar que o relojoeiro Ludovico Persice entrasse para a história do cinema no Espírito Santo. Apesar de humilde morador do interior, Ludovico sempre foi apaixonado por cinema. Ele foi o primeiro capixaba a fazer um filme, em 1926, chamado “Bang Bang”, conforme o “Catálogo de Filmes – 81 Anos de Cinema no Espírito Santo”, de Carla Osório.

A história de sua vida cinematográfica passa por um pequeno cinema no município de Castelo, local para onde, na década de 20, seus familiares se mudaram. Ludovico conseguiu um emprego como ajudante de operador da máquina de projeções, no “cinema do seu Rangel”, como relata Arlindo Persice em seu livro “Breve Histórico da Origem da Família Percise no Brasil. A História de Ludovico Persice, O Inventor”. E ali seria só o começo.

Em 1927, o gênio registrou um invento na Biblioteca Nacional, o chamado cinematógrafo ou Apparelho Guarany, construído com peças de gramofone, de relógios velhos e latas de manteiga, que conseguia a proeza de filmar, copiar, medir e projetar as fitas. Mas, sem recursos, não pôde desenvolvê-lo e acabou deixando de ser reconhecido na sua época.

Com a máquina, pode colocar em prática seu sonho e exibir seus filmes. Para ter onde mostrar suas obras montou uma sala de projeção, em Castelo, uma das primeiras do Brasil. Sua estratégia para atrair espectadores era simples, mas eficaz. Ele percorria a vila com uma bandinha anunciando o filme da noite.

Um sonho e uma máquina
Ludovico Persice II

Ludovico era mesmo genial. Aproveitava tudo que caía em suas mãos, tais como: máquinas de gramofones, de relógios de parede e ferro velho em geral. Fazia mil improvisações. Em fevereiro de 1927, patenteou no Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio do Rio de Janeiro, o Apparelho Guarany. Com isso, começou a fazer filmagens-relâmpago, com o auxílio de suas irmãs e irmãos. Revelava os filmes que produzia, utilizando-se do mesmo procedimento como fotógrafo.

Em 70, o cineasta, critico e historiador carioca, Alex Viany, dirigiu um curta-metragem sobre o Ludovico, chamado “O Sonho e a Máquina”. Ninguém sabe o destino dos negativos desse filme inaugural do cinema capixaba, e a última cópia que se conhece está incompleta.

O resgate de um vídeo

Uma grande descoberta para a valorização da história do cinema capixaba foi um vídeo encontrado por José Eugênio Vieira, atual Superintendente do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no Espírito Santo (Sebrae ES). Ele é um economista preocupado em resgatar e manter a as tradições, culturas e memórias do povo. Segundo ele, dos vídeos que Ludovico gravou, muitos sumiram com o tempo, mas ele conseguiu encontrar um deles na Bahia. “Tivemos a sorte de encontrar um vídeo de Ludovico, que precisou passar por um processo de recuperação, já que estava guardado de forma inadequada”, afirma.

Ainda de acordo com o economista, no dia do lançamento de seu livro, intitulado “‘Castello’. Origem, Emancipação e Desenvolvimento – 1702-2004”, no município, o vídeo foi exibido à comunidade local. “Foi uma comoção total. Todos os presentes se emocionaram e aplaudiram muito. Ludovico trabalhava no cinema mexendo na máquina dele e nos intervalos ele passava os vídeos dele. A máquina criada por Ludovico foi levada para Alemanha, de onde nunca mais se teve notícias”, conclui.

O homem que “descobriu” Ludovico não é do cinema

José Eugênio VieiraApesar de ter encontrado um vídeo de Ludovico, José Eugênio não tem nenhum trabalho específico sobre cinema, mas em seus livros relata histórias sobre a arte. “ Tenho criado um capítulo sobre o cinema dos municípios. Já relatei histórias dos cinemas de Castelo, Alfredo Chaves e Domingos Martins. A busca pela história do cinema de Castelo foi a mais completa, pois tive a oportunidade de encontrar um filho do dono do segundo cinema do município e ele tinha guardado um acervo do seu pai com histórias, fotos, cartazes e componentes usados na casa de espetáculo da época”, conta.

Mas a atenção pelo cinema não é um mero acaso. O economista entende a importância da pesquisa para a formação de um acervo cultural no Espírito Santo. “A pesquisa é fundamental para manter viva a história do cinema, além de possibilitar o acesso ao conhecimento por pessoas que não viveram aquela época. Se não houver pesquisa, a história desaparece, assim como desapareceria a história de Ludovico, uma pessoa tão importante na história do cinema nacional”, ressalta.

Mesmo com pesquisas na área e uma história tão intensa como a do gênio Ludovico, o Espírito Santo ainda carece de um impulso “cultural” e de consciência. Economista apaixonado em resgatar e manter a as tradições, culturas e memórias do povo, José Eugênio acha que não falta só dinheiro. “Falta conscientização de que preservar a cultura não é apenas um investimento financeiro. É uma necessidade para que as próximas gerações saibam como vivia a sociedade. Afinal, quando o presente é aproveitado, o passado é honrado”, alerta.

Deixe um comentário