Gustavo Macaco desponta para o anonimato

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(Leandro Reis)

Era tarde de feriado quando Gustavo Macaco saiu do carro e pisou no chão vazio da Ufes. Olhos atrás do Ray-Ban preto, esboçou um sorriso e apertou minha mão desconhecida com a firmeza de quem já passou por várias entrevistas – Macaco afeito à floresta. Enquanto caminhávamos em direção às cadeiras da cantina do Cine Metrópolis, alguns fios brancos subiam da barba ao seu cabelo, que não tentava resistir à foice da idade – Gustavo afeito ao tempo. Ali, sentados,  prestes a começar a conversa, o músico cedia o olhar cansado, fruto dos shows recentes em homenagem a Sérgio Sampaio, artista tão importante para sua formação e totem da música produzida no Espírito Santo. O cansaço dos olhos, porém, também revelava o amadurecimento de um Gustavo Macaco que entrou na floresta sem a ânsia de caçar o tempo, mas que aprendeu a usar a foice para se proteger dele.

Sem raízes – ou com as mais longas e flexíveis que se possa imaginar -, Macaco flutuou entre o punk do Ramones, o rock’n’roll tiozão de Erasmo Carlos, a psicodelia de Jimi Hendrix e a sociedade alternativa de Raul Seixas. Com família radicada no nordeste, Macaco entendeu que o rock não se faz só de guitarras barulhentas e de virtuoses, mas também de baião e de berimbau. Quando se ouve suas músicas nos fones de ouvido, o amplo leque de influências grita aos olhos, seja num dedilhado folk, seja numa batida hard.

A formação musical híbrida não fica em segundo plano quando se dá a prática, mas o que pulsa em Gustavo Macaco é a vivência errante. Ele nasceu em São Simão, Goiás, mas foi registrado às pressas em Uberaba (MG) depois que sua cidade natal foi inundada. Com três anos de idade, veio para o Espírito Santo. Nômade musical, e também andarilho de experiências, entendeu a viagem de Raul: rock não é só música. “Como é que se estuda rock? Tocando, vivendo, viajando, se metendo em situação maluca. Se experimentando. O rock te coloca em lugares que você jamais estaria”, comentou.

A Ufes, onde pisavam os pés experimentados de Macaco naquela tarde, foi parte importante desse processo de autoconhecimento. Como escola de contatos, serviu também para estudar Publicidade e Propaganda, profissão que logo foi empurrada para baixo do tapete. Já no cenário musical do Espírito Santo, Macaco fundou a banda de rock Símios, com quem lançou três discos autorais e ajudou a desenhar seu espaço frente ao público.

O trabalho solo e os outros projetos, como Xamã do Raul, Banda Superfantástica, Amigos do Rei, Bloco Bleque e BG Sessions foram os suprimentos que Macaco encontrou na floresta para continuar a jornada. Este último, plantado no Baixo Gávea, no Rio de Janeiro, foi colhido no início de 2012. Exatamente às 11:11 do dia 15 de março, a música “Cada Fernando Uma Pessoa”, em parceria com Otto, músico que conheceu durante o BG, foi liberada no Facebook. O enorme número de compartilhamentos na rede social, para Macaco, tem a ver com o horário peculiar do lançamento. Segundo ele – e algumas versões ocultistas -, às 11:11, um portal se abre e várias coisas passam por lá. Quem crava é a Ordem da Introspecção Mística, uma espécie de sociedade secreta que o músico participa.

Ocultismo

A Ordem da Introspecção Mística é assunto complexo. A relutância de Macaco em falar sobre o tema é justificável pelo próprio nome: introspecção. Em poucas palavras, é uma filosofia de vida, uma maneira de lidar com o não-material. O curioso – ou o “místico”, para ele – é que “Cada Fernando Uma Pessoa” foi lançada um mês após o aniversário de 15 anos de morte de Chico Science, líder do movimento manguebeat. E a música de Otto e Gustavo Macaco tem alta dose do ritmo carregado por Chico. Até ali, na entrevista, o músico não tinha feito a comparação.

“Místico… (risos). Mexer numa entidade como o Fernando Pessoa dá nisso… Ele também era muito ligado ao ocultismo, ao Aleister Crowley [famoso ocultista britânico]. E quando você trabalha com este tipo de coisa, você traz para a sua obra uma história que não é só sua”, comenta Macaco, que integrará a música ao novo disco, “Despontando Para o Anonimato”, com lançamento previsto para este ano.

 A cidade das ilusões

Guardadas as devidas proporções, Gustavo Macaco seguiu um caminho semelhante ao de Rodrigo Amarante. Depois de um hiato do Los Hermanos – que só foi interrompido para algumas reuniões, uma delas rendendo uma série de shows neste ano -, Amarante foi recomeçar no underground norte-americano com a fértil Little Joy. Antes, hordas gritavam seu nome; na então nova empreitada – a banda foi formada em 2007 e segue em recesso -, ele próprio era músico, roadie e vendedor de camisetas.

Macaco, já conhecido no cenário musical capixaba e com um disco solo na mochila – “Macaco, Chiquinho e Cavalo” -, adentrou a mata fechada rumo ao Rio de Janeiro, a “cidade das ilusões”, como ele mesmo define, pelo excesso de glamour e possibilidades. Lá, encontrou abrigo com o amigo Maurício Baia, com quem divide um apartamento e projetos musicais em todos os cantos do mundo. O Bloco Bleque, que Baia e Macaco integram, já excursionou pelos maiores festivais de música da Europa, incluindo o Montreux Jazz Festival, na Suíça. Apesar da segurança em solo capixaba, o músico seguiu a corrente. De acordo com ele, o que motivou sua saída do Espírito Santo, além de sua natural vivência errante, foi a vontade de estar onde as coisas aconteciam.

“Foi uma evolução natural dos acontecimentos. Eu queria trabalhar um conceito de artes integradas. Não queria fazer só som, mas vídeo, poesia. Também há a questão mercadológica. Não existe só músico de estúdio ou de show. Existe o mercado das composições. E lá eu dei a sorte de ser abraçado pelo movimento musical”, disse o músico, que aproveitou para tecer uma crítica à administração capixaba: “No Rio não tem dinheiro, como também não tem aqui. Mas onde a coisa é culturalmente levada a sério, existem mecanismos que fazem a roda girar. E aí você participa desta engrenagem”, completou.

Em solo capixaba, carioca, europeu ou introspectivo, Gustavo Macaco carrega muito mais experiência que seus 36 anos teriam memória para contar. Talvez por estar conectado com outras histórias – a Introspecção Mística explica – e versar sob vários heterônimos – Símios, Xamã do Raul, Bloco Bleque -, os cabelos brancos tenham subido da barba à cabeça antes da hora. Pois é na mente que se faz o Gustavo. O Macaco, que já estava de pé e apertava minha mão com a mesma firmeza da primeira vez, seguiu pela floresta, já trilhada e um pouco menos selvagem. De foice na mão, foi despontar para o anonimato.

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