Número de atletas que utilizam sua voz para tecer críticas durante as entrevistas ainda é baixo, mas vem se mostrando eficaz.
Yanara Aedo e outras atletas têm utilizado o espaço de entrevistas para realizar manifestações e reclamações (Foto: Javier Salvo/Photosport)
Quando o árbitro apita o fim da partida e é chegada a hora das entrevistas com os atletas, é possível traçar padrões do que dirão: valorizar o bom jogo, melhorar o desempenho ou elogiar a equipe. Palavras simples, com conteúdo protocolar. Mas historicamente, houve jogadores que se utilizavam do espaço da entrevista para tecer críticas à organização do torneio que disputavam ou mesmo se posicionar contra o avanço da extrema-direita em seu país.
Um caso relevante ocorreu na última edição da Libertadores Sub-20, realizada no dia 7 de março de 2025, quando um jogador do Palmeiras sofreu ataques racistas durante a partida contra o Cerro Porteño. Na ocasião, Lughi, o jovem agredido, foi questionado em entrevista após o jogo sobre lances da partida, mas ignorou a pergunta do repórter e decidiu falar sobre seu caso de racismo.
Ainda que não existam pesquisas que traduzem em números a quantidade de jogadores e jogadoras que fogem das entrevistas padronizadas, é perceptível o número baixo de atletas que decidem ir na contramão. No masculino, percebe-se ainda menos.
Por outro lado, é notável o esforço existente para banalizar expressões políticas e sociais dentro do campo. Em uma matéria publicada na revista GQ da Globo, em 2018, o jornalista Tiago Leifert escreveu: “será que o evento esportivo é um local apropriado para manifestações políticas? Eu acho que não. Olhando por todos os lados, não vejo motivos para politizar o esporte […] Tem muita coisa contaminada por aí. Precisamos imunizar o pouco espaço que ainda temos de diversão. Textão é no Facebook. Deixem o esporte em paz”.
A opinião de Leifert não é impopular e parece ter tomado força a nível mundial. Durante a Copa do Mundo de 2022, a FIFA enviou cartas às 32 seleções que participariam dos jogos solicitando que não deixem o futebol ser “arrastado para todas as batalhas ideológicas ou políticas que existem”. Em comunicado oficial, a entidade apenas informa que “permanece neutra em questões políticas”
Além disso, outras competições estão tomando medidas similares, como foi o caso do Super Bowl de 2025. Desde 2021, era exibido nas zonas finais dos estádios durante o campeonato a frase “End Racism”, porém neste ano a National Football League (NFL) confirmou que a campanha contra o racismo não será mais exibida.
Campanhas contra o racismo e temas políticos tem sido barrados por entidades esportivas (foto: Reprodução/NBC News)
HISTÓRICO RECENTE
Na Copa América Feminina de 2025, ainda em curso, muitos problemas e protestos marcaram esta edição. Muitas jogadoras que participam da competição relatam problemas na estrutura e divulgação do torneio. Yanara Aedo, atacante do Chile, manifestou seu descontentamento com a ausência do Video Assistant Referee (VAR) para a revisão de jogadas e solicitou que a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) dê atenção ao feminino tal qual dão aos homens.
Antes dela, o técnico da seleção feminina do Brasil, Arthur Elias, já havia criticado a estrutura do torneio durante uma coletiva de imprensa. Na ocasião, as críticas foram ao impedimento de as jogadoras se aquecerem para o jogo dentro do campo. Segundo ele, “essa é uma condição que tem que ser determinante pela saúde das jogadoras e para o jogo, porque quando as duas seleções não aquecem no campo demoram mais para pegar. Ocorrem mais erros de passe no início do jogo, por exemplo. Eu penso que isso influencia muito”.
Alguns atletas também têm utilizado outros meios fora das entrevistas para se manifestarem. Este foi o caso da atacante brasileira Kerolin que também se mostrou irritada com a organização do evento se comparada com aquelas feitas para o torneio europeu de seleções. Ela foi contra a proibição do aquecimento dentro do campo, pois eram obrigadas a fazê-lo dentro de uma sala pequena. Ambas as manifestações ocorreram através de seu perfil no X.
Manifestações negativas da atacante brasileira Kerolin quanto à organização da Copa América Feminina de 2025. (Foto: Reprodução/X)
O protesto deu resultado: a Conmebol voltou atrás na decisão e a brasileira usou as redes para parabenizar a Confederação. “Gostaria de agradecer a @CONMEBOL pela consciência de deixar aquecer por 15 min vai ser bastante importante, ainda não é o ideal e nem chega perto, mas é um bom passo, e que possamos sempre evoluir”, escreveu ela, marcando a Confederação.
Um exemplo de jogador que percebeu o poder da sua voz é o inglês Marcus Rashford. De início, era como qualquer outro, mas viu ali e também fora dos gramados uma oportunidade de ajudar grupos minoritários e jovens negros como ele. Sua influência nos bairros periféricos da Inglaterra rendeu agradecimentos e até mesmo um mural em Withington, nos subúrbios de Manchester. Porém, seu rendimento na Eurocopa de 2020 (realizada em 2021 por causa da pandemia) causou uma revolta contra ele. Na ocasião, quando a Inglaterra disputou a final contra a Itália, Rashford perdeu um dos pênaltis na decisão. Diversos comentários ofensivos foram direcionados ao atacante. Até mesmo seu mural foi vandalizado pelos criminosos, mas foi restaurado
Novamente, utilizou as redes sociais e entrevistas para pedir que as pessoas não o critiquem por suas origens, mas sim pelo seu desempenho em campo.
Mural em homenagem à Marcus Rashford foi vandalizado com insultos, mas foram encobertos por fãs com mensagens positivas e bandeiras da Inglaterra (Foto: Reprodução/BBC).
O posicionamento político também não escapa das opiniões de jogadores. No dia 29 de julho, o Athletic Bilbao, clube espanhol, apresentou seu novo capitão: Iñaki Williams, nome consagrado no clube que nunca havia recebido a oportunidade de usar a braçadeira de capitão e se tornou o primeiro atleta negro a ganhar tal privilégio por toda a temporada. Mas ao invés de, na coletiva de imprensa, falar da “promoção”, o jogador optou por alertar sobre o avanço da extrema-direita e do racismo tanto na Espanha quanto em toda a Europa. “Parece que a extrema-direita está na moda. Então nós, que temos voz, vamos seguir trabalhando para calar bocas e derrubar barreiras”, declarou o atacante.
Iñaki Williams durante uma partida amistosa contra o PSV, o primeiro jogo que realizou como capitão do Bilbao (Foto: Reprodução/GE)
Tanto Iñaki quanto seu irmão, Nico Williams, nasceram em Bilbao, mas são filhos de ganeses que deixaram o país africano e cruzaram o deserto para chegar até a Espanha. Desde pequenos, presenciaram o racismo na pele. Hoje, Iñaki defende a seleção de Gana e seu irmão a Espanha, com ambos sendo titulares em suas respectivas equipes.
“Significa muito. Parece casualidade que meus pais me tiveram em Bilbao, há 31 anos. O destino é o destino. Se não fosse por eles, não estaria aqui, nem Nico. Temos sorte por poder representar muita gente que vem de fora para ganhar aqui o pão de cada dia, e ser uma das referências no País Basco e na Espanha, é importante para nós”, complementou Iñaki em sua entrevista.
