Integração e oportunidades: a trajetória de cerca de 50 estudantes internacionais PEC-G na UFES
Jessy Koumba
O Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G), uma iniciativa do governo brasileiro, traz para o Brasil centenas de estudantes de países da América Latina, África e Caribe a oportunidade de cursar graduação em universidades públicas no Brasil. A Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), tinha 199 estudantes estrangeiros em 2024, segundo a Secretaria de Relações Internacionais (99 na pós e 100 na graduação) que trazem diversidade cultural e enriquecem a comunidade acadêmica, mas também enfrentam desafios na adaptação à nova realidade.
O PEC-G oferece isenção total de mensalidades e a possibilidade de cursar qualquer área do conhecimento, sem a necessidade de exames de admissão. No entanto, a adaptação ao ambiente acadêmico e cultural pode ser um desafio para muitos desses alunos.
A estudante gabonesa do curso de Enfermagem na Ufes, Anne Samuelle, relembra os obstáculos enfrentados ao chegar ao Brasil. “No começo, eu não entendia nada de português. Além disso, os capixabas são mais fechados, o que tornou a socialização difícil”, conta. Para ela, o período de pandemia, logo após sua chegada em 2020, tornou a experiência ainda mais difícil. “A gente teve que superar isso longe da família.”

A barreira linguística é um dos principais desafios enfrentados pelos estudantes estrangeiros, mesmo após a aprovação no exame de proficiência exigido pelo PEC-G. “O português do dia a dia e os termos acadêmicos são muito diferentes. Precisei fazer muita pesquisa para acompanhar o curso”, explica Anne.
Outro obstáculo significativo está relacionado à questão financeira. Segundo o presidente da Liga dos Universitários Africanos da Ufes (LUA), Evrad Deutou, o suporte financeiro oferecido não é suficiente para cobrir todas as despesas dos alunos. “A Ufes não tem residências universitárias, então precisamos pagar aluguel, contas e outras despesas. Muitos de nós enfrentam dificuldades para se manter no Brasil.”
Além disso, Evrad destaca questões estruturais e sociais que impactam a vivência dos alunos estrangeiros. “Já passei por situações em que colegas me olhavam como se eu não pertencesse àquele lugar. O racismo ainda é um problema que enfrentamos”, lamenta.
Para facilitar a adaptação dos estudantes, a SRI desenvolve iniciativas como o Programa Anjos, que conecta alunos estrangeiros a membros da comunidade acadêmica voluntários. Os “anjos” auxiliam os recém-chegados em questões práticas, como moradia, transporte e familiarização com a universidade. Além disso, a SRI oferece suporte burocrático e informações sobre a vida acadêmica.
Do ponto de vista cultural, os estudantes do PEC-G também promovem iniciativas de integração, como o Dia da África, evento organizado anualmente pela LUA para divulgar a cultura africana na universidade. “Esse é um momento de troca, onde podemos compartilhar nossa cultura e nos aproximar mais da comunidade acadêmica”, afirma Evrad.
Apesar dos desafios, tanto Anne quanto Evrad enxergam o PEC-G como uma oportunidade valiosa. “O Brasil oferece grandes possibilidades. Quero aproveitar essa experiência ao máximo e levar o conhecimento adquirido aqui para contribuir com o desenvolvimento do meu país”, conclui Evrad.
Para a Ufes e o estado do Espírito Santo, o programa representa uma via de mão dupla: além de proporcionar oportunidades de formação a estudantes estrangeiros, ele contribui para um ambiente acadêmico mais diverso e enriquecedor.
O que é o PEc-G
Criado pelo governo brasileiro, o PEC-G tem como objetivos fortalecer os laços com nações parceiras, contribuir para a formação de profissionais nos países participantes e promover a internacionalização do ensino superior no Brasil. De acordo com a Secretaria de Relações Internacionais (SRI) da Ufes, entre cinco e 10 estudantes ingressam anualmente na instituição por meio do programa. A maioria dos alunos vem de países africanos, como Benin, Cabo Verde, Camarões, Gabão, Gana, Guiné, Senegal e Costa do Marfim. Além disso, há presença significativa de estudantes da América Latina, como Equador, Honduras e Peru, e do Caribe, como Haiti.