Professora de particular prefere manter atividades online a retomada presencial

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Entrevista: Agnes Gava // Edição: Clara Curto

Uma professora de uma faculdade particular do Espírito Santo que preferiu não ser identificada, conta, com exclusividade, como tem sido a experiência de ensino à distância, e suas expectativas e preocupações para o retorno das aulas presenciais

Repórter (R): Quando a faculdade voltou às atividades virtualmente?

Entrevistada (E): A faculdade que trabalho voltou às atividades uma semana depois que parou tudo, não lembro exatamente que dia foi, mas foi ainda lá em março. A gente fez uma pausa de uma semana para se preparar, para ter treinamento dos professores, bem básico, na verdade, para usar as plataformas. 

R: É sua primeira experiência de ensino a distância? Como foi pra você esse retorno e a adaptação ao EAD?

E.: Pra mim, esse retorno, num primeiro momento, foi bem estranho. Eu já tinha uma disciplina de carga semipresencial, então eu já estava acostumada com a plataforma de ensino a distância, mas nunca tinha dado aulas síncronas no online.

A princípio foi estranho, mas acho que eu me acostumei rápido, acredito que por estar mais acostumada com o computador, por conta da idade e tal. Eu vi muitos professores mais velhos tendo muita dificuldade, pedindo demissão no meio do semestre, por não dar conta do online e também por não aceitar algumas coisas que a faculdade vem fazendo.

R: Que tipo de coisas?

E.: Decisões como flexibilizar basicamente tudo, flexibilizar faltas, avaliações. Fazer de tudo para recuperar os alunos, com medo da evasão que de fato aconteceu, em um número menor do que a faculdade esperava, mas, ainda assim, aconteceu.

R.: Você sentiu que suas aulas ou alunos foram prejudicados em algum momento?

E.: Muitos alunos trancaram a faculdade quando o curso se tornou on-line, alguns terminaram o semestre passado e não voltaram para esse semestre, esperando o retorno presencial. Outros continuam fazendo as disciplinas teóricas, mas não pegaram os estágios e vão deixar para fazer os estágios depois, alguns até atrasando a formatura porque não querem perder essa experiência do presencial.

R.: Tem alguma situação que você se lembra de ter sentido dificuldade em aplicar as aulas?

E.: Eu acho que a minha adaptação foi rápida. Deve ter levado, no máximo, um mês. E hoje eu já estou bem adaptada, eu tenho até gostado de poder trabalhar em casa. Mas sinto sim que algumas matérias foram prejudicadas de uma forma geral, pelo on-line não ter esse espaço de conversa, de troca, de comunicação, a princípio foi o que prejudicou mais. 

No início, os alunos ficavam muito acanhados de participar dessas aulas online, mas com o passar do tempo isso foi melhorando. Então hoje tem alguns alunos que abrem a câmera, o microfone ou se posicionam no chat. Hoje, a gente consegue ter um pouco mais de discussão e eu dou aula em disciplinas que dependem dessas discussões.

Para nós professores dificulta também não poder ver as reações dos nossos alunos, então a gente não sabe se eles estão acompanhando ou não, se estão fazendo cara de dúvida ou não, concordando com o que a gente está dizendo ou não. Fica difícil ter essa dinamicidade da aula, de perceber uma dúvida e voltar no assunto ou de perguntar para um aluno o que ele estava pensando quando ele está com cara de quem está discordando do que você disse.

“Por mim a gente não teria retornado nada. Por mim, continuaria no online, atrasaria as atividades práticas, faria depois.”

R.: A sua faculdade tem seguido os protocolos propostos desde o início do ensino remoto?

E.: Semestre passado, quando a gente não teve nenhuma aula presencial, a gente estava seguindo os protocolos do MEC e do Governo do Estado, então muita coisa foi flexibilizada porque o MEC permitiu que fosse. 

Lembrando que é uma faculdade particular, que é muito focada no lucro, e que foi jogando com essa flexibilização na medida do possível. Às vezes juntando várias turmas para ter uma aula só, por exemplo, mas tudo isso está permitido, tudo isso está dentro dos protocolos do MEC.

R.: E agora no retorno às aulas presenciais, a faculdade tem seguido os protocolos de biossegurança?

Com relação aos protocolos de biossegurança, também. Nesse semestre que a gente começou a ter algumas atividades presenciais, a gente tem um manual que foi desenvolvido junto com a Secretaria de Saúde, se não me engano. 

E ele é cheio de regras: a gente tem que estar sempre de máscara, mede a temperatura na entrada, tem álcool em gel espalhado para tudo quanto é canto, marcações no chão da distância que as pessoas e as cadeiras devem ficar. Janelas sempre abertas, sem ar condicionado. 

Então eu acho que a gente está seguindo os protocolos, apesar disso não me deixar necessariamente tranquila com relação ao retorno.

R.: Isso significa que você é contra o retorno presencial?

E.: Por mim a gente não teria retornado nada. Por mim, continuaria no online, atrasaria as atividades práticas, faria depois. Porque eu acho que o risco é muito grande de ter um surto dentro da faculdade. Mesmo que sejam poucos alunos que estão voltando, cumprindo todos os protocolos, eu fico imaginando que, em algum momento, vai rolar e a gente vai ter que fechar tudo de novo. 

Eu tenho ficado preocupada também com ter que me adaptar de volta, a partir do momento que a gente voltar completamente para o presencial. E já sei, como psicóloga, que algumas coisas são previsíveis, como crises de ansiedade e um aumento muito grande de fobias sociais. Então imagino que vamos ter que lidar com muitos alunos que vão apresentar dificuldades nesse sentido.

R.: E vocês professores chegaram a ser consultados pela administração da faculdade sobre o formato das aulas on-line e o retorno das aulas presenciais?

E.: Nós não fomos consultados nem no início, com relação ao formato das aulas digitais, isso foi decidido arbitrariamente mesmo, de cima para baixo, só tivemos que seguir. 

A gente foi consultado, entre aspas, no final do semestre passado, sobre o retorno [das atividades presenciais], através de um formulário que tinha algumas perguntas abertas, como “você tem alguma preocupação sobre o retorno?” e “você é do grupo de risco?”.

Mas não perguntaram necessariamente se a gente tinha alguma sugestão, e temos muitas, sobre o que mudar para fazer aula digital melhor, por exemplo. E até damos nossa opinião em alguns espaços, mas não em espaços reservados para isso. 

Quando estamos em treinamentos, por exemplo, a gente acaba trazendo sugestões e reclamações que às vezes são acatadas, às vezes não. Mas, a verdade é que não há nenhum espaço reservado para nossas colocações. 

O sindicato dos professores (SinPro) também não entrou em contato em nenhum momento, nem pra perguntar sobre as nossas condições de trabalho.

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