Palestra da Ufes sobre feminismo e comunicação chama atenção por falta de representatividade

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A palestra debateu produções de mulheres na comunicação e nas artes e criticou exclusões históricas, apesar de ter mesa composta apenas por mulheres brancas. 

texto: Aline Almeida | edição e revisão: Daniel Jacobsen e Cecília Miliorelli

“É muito importante a gente perceber historicamente onde estão as mulheres para, assim, compreender o presente”, afirmou a doutora em comunicação e pós-doutora em música, Mônica Vermes, no debate que levantou questões feministas ligadas às práticas de empoderamento e protagonismo das mulheres. 

A palestra intitulada “Comunicação, Estética e Feminismo” foi realizada pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação e Territorialidades (PósCom), da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), na quinta-feira (24). O espaço faz parte do 6º Seminário do PósCom e abordava iniciativas, produções, inovações e trajetórias ao longo do tempo nas áreas de comunicação, cultura e estética.

Entre as convidadas, estava a renomada escritora Bernadette Lyra e a pós-doutora em música, Mônica Vermes, além da jornalista Carolina Oms, diretora e co-fundadora do Instituto d’AzMina. A mediação da mesa ficou por conta da pós-doutora em Comunicação e Cultura, Gabriela Alves. A mesa, apesar de ter falado sobre exclusões, era composta apenas por mulheres brancas e recebeu críticas de uma das entrevistadas e dos telespectadores. 

A graduanda finalista do curso de Comunicação Social da Ufes, Sthefany Duhz, estava assistindo a palestra e disse que, apesar de ter gostado do debate, era necessária a presença de mulheres negras na conversa. “Eu lembro de outros colegas que estavam assistindo também e comentaram que sentiram falta de mulheres negras para falar de assuntos afins e de suas pesquisas, trabalhos, temas para além da negritude. É algo que eu concordo porque isso acaba frustrando a gente, enquanto pessoas negras, a ficar limitada a explicar negritude e não dar oportunidade de nossas falas para outros assuntos”, desabafou Sthefany.

Uma das palestrantes, a jornalista Carolina Oms, destacou a importância dos brancos nessa luta antirracista e afirmou que nem sempre os brancos e brancas se lembram de olhar em volta e se perguntarem onde estão os negros e negras. “Se a gente vai criticar os homens por não incluírem as mulheres nas conversas, nós, enquanto brancas antirracistas, temos que chamar mulheres negras e homens negros para participarem dos debates também. Sem isso, a gente não está refletindo o Brasil que existe de fato”, pontuou a jornalista.

Questionada sobre a falta de diversidade no evento e critérios de seleção dos palestrantes, a Comissão Organizadora do 6º Seminário do Póscom reconheceu a falha e admitiu que esse não foi um erro relacionado apenas à mesa sobre feminismo, mas a todos os painéis do evento. Confira a nota oficial divulgada pela comissão: 

Comunicação, Estética e Feminismo

O d’AzMina é um instituto sem fins lucrativos que combate os diversos tipos de violência que atingem as mulheres brasileiras. O instituto produz uma revista digital e um aplicativo de enfrentamento à violência doméstica, além de campanhas, palestras, eventos e consultorias. A diretora do instituto, Carolina Oms, comentou sobre a importância do jornalismo enquanto ferramenta transformadora. 

“Quando a gente fundou o d’AzMina, nossa preocupação era fazer um jornalismo aprofundado que não ficasse apenas repercutindo o que estava acontecendo, mas que trouxesse vozes que foram silenciadas e questões que não eram colocadas em outros lugares. A gente tenta trazer um jornalismo que seja útil para as mulheres. A gente enxerga o jornalismo como agente transformador”, contou Carolina Oms.

Bernadette Lyra, escritora dedicada à ficção e a trabalhos em antologias, revistas e jornais no Brasil e no exterior, vencedora de prêmios literários por todo o país, abordou a diferença entre o feminino e o feminista: “A estética feminina balança na corda bamba das armaduras do gênero, ou seja, vai sempre normatizando, vai sempre tratando como se fosse questão de estereótipos. É muito comum acharem que a mulher tem que ter uma escritura meiga, doce, rendilhada, sem outras preocupações que não seja expressar sentimentos. É isso que se compreende como literatura feminina”, afirmou Bernadette.

De acordo com a escritora, existe um elo indissociável entre a vida, a arte, a experiência e a subjetividade, ou seja, pode-se falar de uma estética feminista que vai para além das identidades de gênero binárias.

Já a doutora em comunicação e pós-doutora em música, Mônica Vermes, trouxe uma discussão a respeito do lugar das mulheres na história da música no Brasil, especificamente, na Belle Époque, que corresponde ao período entre 1870 e 1922.  “Se a gente pega os anais de história da música no Brasil, percebemos que existe esse silêncio sobre as mulheres”, completou.

Evento

O 6° Seminário do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Territorialidades da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), que este ano discute o tema “Caminhos da comunicação no mundo em crise”, está acontecendo desde o dia 1º e vai até 29 de setembro, excepcionalmente de forma remota e virtual em decorrência da reprogramação de atividades na Ufes, ocasionada pela atual pandemia do novo coronavírus. O seminário é composto por painéis dos alunos e debates com convidados.

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