Earte prejudica oferta de disciplinas em cursos da Ufes

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Repórteres: Bethania Miranda e Pedro Cunha // Edição: Heloísa Bergami e Clara Curto

Estudantes afirmam que os colegiados não ofertaram disciplinas práticas e laboratoriais e que conclusão do curso será atrasada para além do previsto

Criticado desde sua criação, em 17 de agosto, o Ensino-Aprendizagem Remoto Temporário Emergencial (Earte), formato de ensino à distância adotado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) durante a pandemia do novo coronavírus, gerou ainda mais insatisfação da comunidade acadêmica. Isso porque diversos colegiados e departamentos decidiram não ofertar disciplinas práticas, laboratoriais e estágios obrigatórios.

É o caso do curso de Fisioterapia. No oitavo período, a estudante Natália Wandekoeken está matriculada apenas em disciplinas optativas, já que o colegiado de Fisioterapia não ofertou nenhuma das obrigatórias previstas na grade curricular. “Todas as disciplinas seriam teórico-práticas ou práticas, além do estágio obrigatório nas unidades básicas de saúde da Prefeitura de Vitória. Nenhuma delas foi ofertada e o estágio foi interrompido sem estimativa de retorno”, explica.

Se antes sua expectativa era de se formar até o primeiro semestre de 2021, agora, Natália já não sabe mais quando vai completar a graduação.

“Eu não tenho mais estimativa de nada. Não temos a mínima noção de quando a oferta de disciplinas será normalizada. Estamos vivendo uma situação imprevisível.”

Natália Wandekoeken, estudante do oitavo período de Fisioterapia

Com os impactos da pandemia na economia e a redução na oferta de empregos, ela tem medo que o atraso no término do curso dificulte ainda mais sua entrada no mercado de trabalho.

Estudante de Medicina vê acerto na decisão

Para Julia Muniz, suspender as matérias práticas foi uma decisão acertada (Créditos: acervo pessoal)

O colegiado de Medicina também não ofertou disciplinas práticas, limitando o acesso dos alunos a somente aulas teóricas. A estudante do sexto período Julia Muniz conta que tinha começado a cuidar dos pacientes ambulatoriais do Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes (Hucam) quando iniciou o período de isolamento social e as aulas presenciais foram suspensas. Para ela, a paralisação dos atendimentos por consequência do novo coronavírus foi sofrida.

Avaliando a medida de interromper a oferta das disciplinas práticas, a universitária da Medicina considera uma “decisão acertada.”

“Separar teoria da prática, principalmente nos cursos da saúde, não só na medicina, é uma perda de ensino muito grande, porque a prática ambulatorial é muito importante para a nossa formação.”

Julia Muniz, estudante do sexto período de Medicina

Ainda assim, Julia se sente prejudicada na conclusão do seu curso pela falta de possibilidade de ter um ensino híbrido, se adaptando às demandas da graduação.

Na Comunicação, laboratórios foram suspensos

Loren Carvalho não sabe se vai conseguir se graduar em quatro anos (Créditos: acervo pessoal)

Não foram só os cursos da área da saúde que tiveram prejuízo na oferta de disciplinas. O departamento de Comunicação Social, por exemplo, decidiu não oferecer a maioria das disciplinas práticas e laboratoriais. A oferta da grade completa se restringiu aos períodos finalistas.

A estudante do quarto período de Publicidade e Propaganda Loren Carvalho enxerga consequências no andamento da faculdade para grande parte dos estudantes.

“Estou na metade do curso e não tive nenhuma matéria de laboratório, então me sinto prejudicada na conclusão da graduação no período previsto, que é de quatro anos”.

Loren Carvalho, estudante do quarto período de Publicidade e Propaganda

A universitária diz que prioriza bastante a vivência da universidade na construção do conhecimento. Envolvida em diversos projetos de extensão, ela conta que se viu diante de um novo desafio ao precisar substituir sua presença física na universidade pela virtual.

Engenharia adotou aula prática à distância

Luka Simas não vê didática na aplicação das aulas práticas à distância (Créditos: acervo pessoal)

Já o departamento de Engenharia Mecânica optou por manter a oferta de grande parte das disciplinas práticas no ensino remoto. Para isso, as aulas estão acontecendo por simulação via internet ou vídeos. Porém, o estudante do terceiro período Luka Simas teme que o formato em que as aulas estão sendo aplicadas prejudique a qualidade do ensino e do aprendizado.

“Eu não vejo isso como algo didático, que vai ter aplicação prática. Estou vendo muito problemas em relação a essa oferta.”

Luka Simas, estudante do terceiro período de Engenharia Mecânica

Luka também critica a falta de vagas disponibilizadas nas disciplinas ofertadas neste semestre especial em seu curso, e revela que muitos estudantes não conseguiram se matricular. “Eu achava que seriam ofertadas mais vagas no Earte do que no ensino presencial. Mas aconteceu o contrário. Essa seria uma bela oportunidade para periodizar diversos alunos”, salienta o estudante.

Earte é excludente, opina estudante da Educação Física

Lyvia Silva relembra a importância da acessibilidade (Créditos: acervo pessoal)

No Centro de Educação Física, todas as disciplinas do curso foram ofertadas, incluindo as práticas. De acordo com a aluna do segundo período da Licenciatura em Educação Física, Lyvia Silva, todas as disciplinas foram reformuladas para o ensino remoto. Mas, em sua opinião, fazer as aulas práticas de maneira remota deixa o aprendizado defasado. “Eu me sinto prejudicada porque eu preciso ter esse contato físico, ainda mais na área que eu estudo. Eu preciso ter o aprofundamento necessário para que eu consiga dar aulas para os meus alunos futuramente”, explica a universitária.

Lyvia também chama atenção para outro ponto envolvendo o Earte: nem todos os alunos têm acesso aos equipamentos necessários, incluindo alguns colegas de sua própria turma. O Auxílio Inclusão Digital Emergencial, segundo ela, foi um ponto positivo e essencial para a adoção do ensino remoto. O Auxílio Inclusão Digital Emergencial é um programa voltado para os discentes que possuem renda familiar bruta mensal de até 1,5 salário mínimo per capita e que não dispunham de acesso a equipamento de informática ou serviço de internet. Entretanto, o ensino remoto continua sendo excludente e, por isso, Lyvia foi contra a adoção do formato. “Ainda existem pontos que precisam ser desenvolvidos pela universidade, porque há muitos alunos sendo prejudicados”, opina.

Número de disciplinas ofertadas foi bom, diz pró-reitora

A pró-reitora de Graduação da Ufes, professora Cláudia Gontijo, explica que, por decisão do Conselho Universitário, os colegiados e departamentos tiveram total autonomia para definir quais matérias seriam ofertadas durante o Earte. “O colegiado que não ofertou certas disciplinas deve ter tido razões para isso”, disse a pró-reitora.

Cláudia faz uma boa avaliação inicial do Earte, já que, para ela, foi um bom número de disciplinas ofertadas e a expectativa é de recorde de matrículas até o fim de todo o processo. Já quanto a uma avaliação qualitativa, a professora esclarece que será feita por uma comissão já prevista pela resolução número 30 do ano de 2020 do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe). O grupo está em fase final de constituição.

Estágios supervisionados foram autorizados

De acordo com a pró-reitora de Graduação, os estágios supervisionados podem ocorrer no formato presencial. “Essa foi uma decisão que não foi tomada pelo Cepe ou Pró-Reitoria de Graduação à revelia dos colegiados. Antes de incorporar esse elemento, conversamos com todos os coordenadores e também com as representações estudantis, e todos entenderam que o estágio de forma remota seria prejudicial”, explica Gontijo.

Quantos aos estágios obrigatórios da área da saúde, Cláudia afirma que foram suspensos porque seria necessário contratar um seguro saúde para os estudantes, o que não foi possível. A Ufes chegou a solicitar orçamentos para as seguradoras, mas não obteve retorno. Ela explica que outra barreira para a contratação desse serviço veio da procuradoria jurídica da universidade, que avaliou que não há amparo legal para a contratação deste seguro.

Cursos oferecerão atividades de reforço

Questionada se o Earte impacta na qualidade do ensino, a pró-reitora de Graduação afirma que não dá para mensurar se houve prejuízo sem fazer pesquisas e ouvir professores e alunos. Mas ressalta que, caso isso aconteça, os departamentos já estão se preparando para oferecer atividades paralelas de reforço.

“Vários cursos já perceberam que não é possível realizar algum aspecto da disciplina neste momento e estão planejando, como forma de aprofundamento, atividades de extensão, cursos avulsos, realização de seminários e outras atividades de ensino que possam ajudar o aluno”, completa Gontijo.

Volta total da Ufes só após a vacina

A professora estima que as atividades presenciais na Ufes devem retornar em fevereiro, porém em movimento gradativo e ensino híbrido. Isso desde que garantidas todas as medidas de biossegurança. “Facilitaria bastante a reorganização das atividades, tanto pela Administração Central quanto pelos próprios colegiados”, diz. 

O ensino presencial total, porém, só volta quando uma vacina contra o novo coronavírus for disponibilizada. “É o que está no plano de contingência. A depender das circunstâncias, pode haver alteração, mas hoje, ainda não temos a segurança necessária para voltar o formato presencial”, finaliza a pró-reitora.

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