Diário do Aluno: o EARTE como ele é (na prática)

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Repórter: Cássia Rocha // Edição: Clara Curto e Heloísa Bergami

Além dos desafios comuns do sistema de ensino remoto, estudantes da área da saúde também sofrem com o agravante de precisarem adiar ou reinventar as aulas práticas em tempos de pandemia

Dificuldade de absorção do conteúdo, falhas na comunicação entre instituição e estudantes e aulas práticas durante a pandemia sem seguro de vida estão entre as principais queixas de Ariane Lacerda, estudante do sétimo período de Enfermagem da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). 

“Se eu pudesse descrever minha experiência com ensino remoto em uma palavra seria: desagradável” 

Ariane Lacerda, estudante do 7º período de Enfermagem

Poucos dias antes do retorno, o computador de Ariane estragou, o que fez com que a estudante precisasse assistir às aulas pelo celular desde o início do ensino remoto. Para ela, acompanhar as atividades dessa forma não tem sido uma experiência muito confortável. “As letras utilizadas nas apresentações, que já tendem a ser pequenas, ficam ainda menores. O foco é quase sempre procurar uma posição menos desconfortável pra conseguir assistir, visualizar bem o conteúdo e fazer minhas anotações.”

Ariane enfrenta dificuldades no Earte (Créditos: arquivo pessoal)

Além disso, outro fator que dificulta a rotina da estudante – assim como relatado nos “Diários do Aluno” anteriores – é o fato de que a dinâmica de assistir aula em casa é totalmente diferente. “Quando a gente vai para a faculdade, estamos ali para estudar e as outras pessoas naquele ambiente também, então é mais propício”, pontua.

“Tenho a sensação de que, estando em casa, a absorção é menor, porque são muitas distrações. As movimentações da família e até dos vizinhos atrapalham às vezes. Essa é uma queixa minha e também de outros colegas de sala que já compartilharam que também não conseguem se manter focados”, complementa Ariane. 

Envolvimento nas decisões

A estudante explica que, graças ao Centro Acadêmico Livre de Enfermagem (CalEnf),  as matérias teórico-práticas, que contam com a maior parte da carga horária de atividades práticas, não estão sendo ofertadas neste semestre especial. Segundo Ariane, assim como a grande maioria dos alunos, ela entende isso como uma vitória, pois acredita que haveria uma perda muito grande se futuros enfermeiros precisassem aprender determinados procedimentos à distância sem dispor de um espaço ideal, materiais necessários, além da avaliação e acompanhamento dos professores. “Em muitas matérias que permeiam a formação de um enfermeiro, a gente precisa estar no campo, lidando com pacientes, com pessoas que precisarão da gente depois que formarmos”, coloca a universitária. 

Ariane está sem computador e precisa assistir às aulas pelo celular (Créditos: arquivo pessoal)

Com a redução das matérias práticas, foram ofertadas mais opções de optativa para o curso que, habitualmente, é escasso nesse sentido. “Por vezes, nós temos que fazer matérias eletivas e transformá-las em optativas. Antes, havia apenas uma optativa específica do nosso curso e agora foram ofertadas mais duas. Além disso, as obrigatórias teóricas estão sendo dadas”, diz Ariane.

Queixa comum entre muitos estudantes, a futura enfermeira também acredita que faltou organização por parte da Ufes e do Departamento do curso em relação à oferta de turmas e à organização das matérias. Com poucas opções de disciplinas, considerando que muitos alunos teriam grande parte da carga horária preenchida por aulas práticas, a escolha de pegar as matérias teóricas disponíveis para oferta acabou ocasionando um problema com o número de vagas, que foi insuficiente. “O ideal seria que ofertassem mais turmas nessas matérias, já que a demanda seria maior, visto que as outras disciplinas estão suspensas”, salienta a estudante. 

Além disso, algumas disciplinas passaram por alteração sem comunicação prévia com os alunos, o que prejudicou a organização dos estudantes. “A comunicação é um grande problema do nosso Departamento”, critica.

Na prática

Aulas práticas foram retomadas sem seguro de vida (Créditos: arquivo pessoal)

Apesar de toda a mobilização, algumas atividades práticas foram mantidas. Ariane conta que foi feita uma lista de pré-requisitos pelos alunos finalistas, juntamente ao CalEnf, para o retorno ao estágio curricular I e II de maneira mais segura. 

A lista incluía a oferta de EPI’s pela Ufes, o desbloqueio dos cartões de passe do transporte e a atualização do seguro de vida, de forma que abrangesse a situação de pandemia. “Os dois primeiros pré-requisitos foram cumpridos. Sendo assim, mesmo com o atraso os EPI’s chegaram no Departamento de Enfermagem e já começaram a ser distribuídos, e os cartões foram desbloqueados”, explica Ariane.

“Infelizmente o terceiro pré-requisito não foi cumprido. Desde o dia 28/09, os estudantes do sétimo período começaram o estágio sem o seguro de vida atualizado, o que preocupa muito os alunos, como se já não bastasse o alto risco de contaminação”, acrescenta insatisfeita.

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