Violência obstétrica é uma realidade no Brasil

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Poucos são os partos que não violam os direitos e os corpos das mulheres no país. A conscientização de médicos, mulheres e família acerca da humanização do parto é o caminho para mudar esse cenário.

Por Esther Mendes

O processo para o nascimento de um filho é um momento intenso e ao mesmo tempo especial para as mulheres. Mas no Brasil, essa ocasião está bem longe de ser especial já que os desrespeitos físicos e psicológicos na gestação, parto, nascimento e/ ou pós-partos são frequentemente evidenciados. A consciência de um parto humanizado tem crescido diante desse contexto e visa mudar esse cenário de abusos contra as mulheres no período gravídico-gestacional do país.

O termo “violência obstétrica” já foi considerado inadequado pelo Ministério da Saúde, por não agregar valor. Hoje, o MS reconhece ser legítimo o uso dessa expressão ou de outras, por parte das mulheres que já sofreram qualquer ato de desrespeito, maus tratos, abusos e uso de práticas que não possuem evidências científicas, no período de gestação, parto e puerpério.

Uma pesquisa da  Fundação Perseu Abramo e SESC iniciada em 2010 chamada  “Mulheres Brasileiras nos Espaços Público e Privado” revela que uma a  cada quatro mulheres no país relatam ter sofrido violência no atendimento ao parto e vinte e três a cada cem mulheres já ouviram algum despropósito durante o nascimento do bebê. 

Fonte: Mulheres Brasileiras nos Espaços Público e Privado – Fundação Perseu Abramo e Sesc.
Infográfico elaborado pela autora

Segundo o Ministério da Saúde, essas práticas, geralmente ligadas a execução médica, não respeitam os corpos das mulheres e as impedem de exercer seu protagonismo. No entanto, muitas vezes essas ações se tornam naturalizadas fazendo com que muitas tenham dificuldade de identificar, entender e relatar pelo o que passou ou está passando. 

As causas para um grande número de violência obstétrica no Brasil, de acordo com a doula e assistente social Laís Lacerda, estão ligadas a desvalorização da mulher com o machismo e pelo Brasil ser um país ainda em desenvolvimento. Além disso, a cultura das práticas ultrapassadas e violentas, ainda são muito presentes nas Universidades brasileiras. 

A conscientização em relação a uma assistência humanizada no período gravídico-gestacional é o caminho para reverter esse cenário. “Tem que ser uma mudança societária dos profissionais, das mulheres e da família” afirmou Lacerda.

“Na minha concepção nem precisaria ser (chamado) parto humanizado. Só parto já seria suficiente. Mas como a gente tem a outra opção que é um parto totalmente violento, esse termo veio para diferenciar. Mas se Deus quiser com o passar do tempo esse termo vai ser só parto mesmo. Que é o que deveria acontecer né?!”  Doula Laís Lacerda

Os partos que não possuem tal violência obstétrica são os conhecidos como humanizados. “O parto humanizado está conceituado em um tripé. Respeito, uma equipe multidisciplinar e medicina baseada em evidências” ressaltou a doula Laís Lacerda.  

“Não olha para a mulher como mais um número ou como uma produção em massa que você vai arrancando as crianças delas. Você vê ela como uma pessoa, uma humana que está num processo muito intenso e particular que é o parto”  Doula Laís Lacerda

O Ministério da Saúde disponibiliza a Caderneta da Gestante que contém informações sobre as boas práticas que devem ser realizadas no pré-natal, parto e puerpério. A caderneta é entregue no primeiro atendimento da gestante no SUS.

Relato de parto natural humanizado

Ana Clara Gabler tem 28 anos e teve o seu primeiro filho Theodoro no dia 25 de maio de 2019 às 5:40  no Hospital Santa Mônica de Vila Velha.

Ana Clara com seu filho Theodoro e o esposo Daniel logo após o parto

“Meu pré natal foi bem tranquilo. Eu acompanhei com a minha médica ginecologista. Mas ela não faz partos, então eu só fiz o pré natal com ela. O parto eu ia contar com o plantonista mesmo do hospital. Mas eu tive ajuda de uma doula também que eu paguei por esse serviço de uma profissional. Ela além de doula é fisioterapeuta e me ajudou muito com os exercícios que eu precisei fazer para a questão do físico na hora das contrações.

Foram sete horas e meia de trabalho de parto ativo. Então foi um parto relativamente rápido por conta de ser a primeira gestação.

A príncipio eu sempre quis ter um parto normal, li muito a respeito do parto humanizado e realmente para mim se tornou a via de parto. Não contava muito com a cesariana, porque a cesariana na verdade é uma intervenção necessária. Quando há necessidade, eu acredito que a cesariana é necessário sim. Mas eu sempre contei com o parto normal como primeira opção. 

Eu tava um pouco nervosa por conta de ver na hora quem ia fazer meu parto. Não sabia o que eu poderia encontrar. Se seria um medico legal, uma equipe boa. Porque o parto não é só o médico, não é só a doula, é toda a equipe de enfermagem. Isso conta, até o ambiente do hospital conta. 

Comecei a sentir dor mais efetivamente às 17:40 da tarde e fiquei bastante tempo em casa, porque eu tinha um pouco de medo do hospital na verdade. E aí eu esperei bastante as contrações. Fui orientada pela minha doula que já estava encaminhando mesmo para o trabalho de parto. Quando deu umas 19:00 a gente resolveu ir para o hospital. Contra a minha vontade eu queria ter ficado mais em casa porque realmente era um ambiente que eu ficava mais a vontade, mas eu tive que ir por conta do espaço entre as contrações já tava ficando bem curto e as contrações aumentando. 

Fui de carro. Eu meu esposo e a doula para o hospital Santa Mônica que era o hospital mais perto e eu já tinha feito uma visita lá, tinha gostado bastante e fui atendida super bem pelas enfermeiras. Elas me garantiram uma autonomia para o meu parto. Fui  vomitando de tanta dor.

Cheguei no hospital e confesso que a pior parte foi a recepção porque ali no hospital eles demoram um pouco para você ser atendido. Eu estava com dor, já poderia ser encaminhada para uma sala, mais reservado. Eu tive que ficar sentido as dores ali na recepção e um monte de gente passando e me perguntando se eu queria isso ou aquilo. Pessoas que não eram da equipe médica. E na verdade eu estava saudável, estava bem, estava vivendo uma fase do parto que é normal ficar meio desesperada, meio inquieta, andando pro lado e pro outro e as pessoas me oferecendo cadeira de rodas. A única coisa que eu não queria era sentar.

Liberaram a minha entrada no hospital e consegui chegar numa sala para esperar ser examinada pelas duas médicas que me acompanhariam durante o trabalho de parto. E aí também foi um pouquinho demorado, mas logo que eu fui examinada já fui encaminhada para a sala de parto. 

Nessa sala que começou a pegar bastante as dores. Fiquei muito surpresa com a liberdade que eu tive no hospital. Podia fazer o que eu quisesse. Se eu quisesse ficar na bola, se eu quisesse ficar na barra. O hospital está bem equipado, bem confortável. Tinha cadeira para o meu marido ficar e a doula. O banheiro é bem grande eu podia ficar também no chuveiro se eu quisesse. Fiquei bastante no chuveiro. 

Eu ia revezando, ficava no quarto, ficava no banheiro, agachava, fazia força, fazia tudo o que eu quisesse ali. DE tempo em tempo as médicas vinham e viam se eu estava dilatando. E eu fui dilatando aos poucos, bem devagar, mas consegui ir dilatando. Até chegar de madrugada e meu bebê veio nascer às cinco e quarenta da manhã.

Foi um momento bem especial para a gente. Eu pude comer e pude beber água. E na verdade eu não fiquei muito atenta com as pessoas, estava muito ligada ao meu esposo e isso eu acho que é bem legal, porque o que acontece em muitos hospitais é a mulher ter que lidar com a equipe médica, que é algo normal, mas assim o parto é um momento muito íntimo da mulher com quem ela confia, no meu caso o meu esposo. Então, eu pude ter esse contato com ele. Na verdade a gente que fez o parto, não foi a equipe médica intervindo o tempo inteiro e eu tendo que lidar com eles. Eu lidei com a dor junto com a minha família, então foi bem legal. 

Algo que o hospital pode melhorar é que na hora do período expulsivo, quando o bebê realmente começa a sair,  veio uma equipe muito grande de enfermeiras e ocupou a sala inteira conversando e falando comigo. Essa parte eu achei desnecessária. Isso atrapalhou um pouco a minhas contrações. Por conta dessa agitação ali na hora acabou atrasando um pouquinho esse processo e demorou um pouco para o Theodoro sair mesmo. Porque o emocional conta muito nessa hora, então eu tava ouvindo muitas vozes, gente falando comigo para fazer força e isso deu uma atrasada no processo.
Mas foi um parto humanizado, um parto bem tranquilo. Não houve necessidade de anestesia, nem ocitocina. A episiotomia lá é proibido, isso eu pude certificar, ninguém nem mencionou isso para mim. Então foi bem interessante, foi um momento bem especial para a gente”   

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