Sem emprego, capixabas encontram saída no trabalho informal

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Segundo o IBGE, trabalhadores informais correspondem a 41,3% da população ocupada

Ana Julia Chan, Ana Luisa Monteiro, Carolina Moreira e Matheus Souza

Nas ruas, nas praças, nos terminais de ônibus, dentro dos coletivos, em eventos, em toda parte. É difícil sair de casa sem encontrar os vendedores ambulantes. São eles que garantem o lanche de quem sai de casa cedo demais para conseguir comer, daqueles que voltam para casa famintos, ou daqueles que estão passeando e param para comprar um doce ou um refresco. Trabalhar na rua não é fácil, porém, tem servido de opção para aqueles que não conseguem um emprego formal.

O caso de Fabrício Zanetti exemplifica isso, ele perdeu o emprego há três meses. Cansado de ficar em casa, aceitou o convite de uma amiga dona de um carrinho de bolos caseiros e foi para rua tentar a sorte. “Como eu fiquei desempregado, eu decidi vir para a rua para sair de dentro de casa, distrair um pouco a cabeça, fazer novas amizades e tentar conseguir alguma coisa melhor”, contou. A experiência, porém, não tem sido ruim e, segundo ele, as pessoas são muito acolhedoras.

Fabrício foi para a rua vender bolos depois que perdeu o emprego.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) observou que, a partir de 2014, houve um crescimento significativo de pessoas que após serem demitidas de empregos formais passaram a trabalhar como ambulantes, especialmente no setor de alimentação. De 2014 a 2017, a taxa de desocupação teve um crescimento de 96,2%, foram quase 6,5 milhões de desempregados a mais, chegando a 13,2 milhões de pessoas. 

Em 2014, a taxa de desemprego média atingiu uma mínima histórica de 4,8%. 2017, por sua vez, foi o pior ano para o mercado de trabalho no país desde 2012, com uma taxa média de 12,7%. No trimestre de maio, junho e julho de 2019, a taxa de desocupação no país foi de 11,8%, de acordo com o IBGE. Mesmo com a queda, existem ainda 12,6 milhões de brasileiros em busca de trabalho.

De acordo com a análise do IBGE, a melhora na taxa de desemprego está relacionada ao aumento do trabalho informal. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) mostram que no trimestre encerrado em julho de 2019, o total de empregados do setor privado sem carteira de trabalho assinada atingiu 11,7 milhões de pessoas, o maior contingente da série histórica, iniciada em 2012. Outro fator relacionado à informalidade são os trabalhadores por conta própria, que também atingiram o maior patamar da série: 24,2 milhões de pessoas. Atualmente, os trabalhadores informais correspondem a 41,3% da população ocupada.

Fabrício contou sobre como se sentiu constrangido quando começou a trabalhar na rua, uma vez que teve que começar tudo de novo quando perdeu o emprego. “No meu primeiro dia, quando antigos colegas de trabalho passaram por mim eu virei o rosto, eu não tive coragem de mostrar o que eu estava fazendo. Eu tinha vergonha de não estar bem vestido, de empurrar um carrinho no meio da rua. Hoje eu já brinco com isso”, relatou. 

Com Jocimar Pereira já foi diferente, ele sempre trabalhou vendendo coisas e, mesmo tendo um emprego formal, quando há oportunidades ele vai para a rua fazer suas vendas. Em período de Copa do Mundo, por exemplo, ele vende camisetas e artigos para os torcedores da Seleção Brasileira de Futebol. “Nunca teve tempo ruim para mim, trabalhando ou não eu sempre fui para rua ganhar um dinheiro a mais. Aqui é um dinheiro que não se pode contar muito, mas pode aumentar a renda, ter uma qualidade de vida melhor”, assegurou ele.

Jocimar aproveita as oportunidades de vender na rua para tirar um dinheiro extra.

Quem também pensa desse modo é o Fabrício que, apesar de estar procurando emprego, não tira o crédito do trabalho como ambulante. De acordo com ele, se houver planejamento e conhecimento, dá para ganhar dinheiro e ainda fazer o próprio horário, escolher os dias que trabalha, etc. “Se você souber trabalhar, souber investir, vender um produto de qualidade, acredito que é muito melhor do que um emprego formal. Aqui você é dono, você tem seu tempo e só depende de você”, afirmou ele.

Trabalhar na rua, no entanto, tem suas desvantagens. A aparente autonomia de atuar por conta própria muitas vezes esconde uma situação de insegurança social. As pessoas que não possuem registro não contribuem com a Previdência Social e, portanto, não possuem proteção social. A falta da carteira assinada é um peso para a vida dos ambulantes, que deixam de receber seus direitos fundamentais como trabalhador, como férias e 13º salário, e sentem insegurança ao falar sobre aposentadoria.

É o caso do Pedro Queiroz Santana, de 20 anos, que trabalha lavando carros na rua. Apesar de ganhar o dobro do que ganhava quando tinha um emprego formal, ele não tira a importância de ter a carteira assinada. “Trabalhar aqui é muito viável, mas eu preferiria ter a carteira assinada, eu teria muito mais benefícios”, expôs. Pedro faz pré-vestibular e precisa trabalhar na Capital para se manter, ele trabalha de 8 até às 17 horas e estuda de 18 até às 22 horas. “É cansativo, mas dá para superar. Se eu não tenho opção eu tenho que fazer, foi uma saída para mim”, contou.

Apesar do trabalho dos ambulantes ser para muitos um meio de garantir o sustento próprio ou da família, é necessário pensar sobre as condições que essas pessoas têm de trabalhar para conseguir sobreviver no país, uma vez que o índice de desemprego e as dificuldades de inserção no mercado de trabalho estão cada vez maiores. 

Após o número de trabalhos formais diminuírem e os informais aumentarem, um outro problema começou a aparecer: quando a roda do consumo começa a girar mais devagar, o poder aquisitivo da população cai. Deste modo, fica mais difícil para os trabalhadores informais conseguirem se manter. O vendedor de frutas Joilson Antônio dos Santos já começou a sentir isso, ele trabalha há mais de 20 anos como ambulante e nunca pensou em parar. Mas hoje, com a diminuição das vendas, Joilson sente a diferença no bolso. 

Joilson, vendedor ambulante há mais de 20 anos, se preocupa com seu futuro. 

Morador de Campo Grande, em Cariacica, Joilson sai de casa às 3 horas e meia da manhã, e chega em Jardim da Penha às 7 horas para vender suas frutas. Quando questionado se trocaria a vida de ambulante por um emprego formal, Joilson ficou na dúvida, preocupado com o seu futuro e o futuro do país. “Já vivi momentos melhores antes, hoje o comércio está bem difícil. Eu acho que [ter um trabalho formal] talvez seria uma outra opção para de repente melhorar de vida”, respondeu ele.

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