O silenciamento da história de heroínas capixabas reforçam o machismo no estado

Share Button

Dez histórias de personalidades capixabas para refletir sobre o papel da mulher na sociedade do Espírito Santo

Eduarda Moro e Noélia Lopes

Avenida Carlos Lindemberg, Avenida Dante Michelini, Avenida Cezar Hilal, Avenida Fernando Ferrari e Avenida Américo Buaiz… O que essas avenidas têm em comum é que, além de serem as principais vias da Grande Vitória, elas também carregam nomes de homens proeminentes que marcaram a economia e a política capixaba. 

Escadaria Maria Ortiz, Vitória-ES, foto: https://www.tripadvisor.com.br/

O que se nota é que os homens lideram o nome de ruas, logradouros, avenidas, bairros e cidades no ES e poucos lugares levam o nome de mulheres que marcaram a história capixaba, o que é reflexo da baixa valorização dessas histórias de personalidades femininas pela população. 

De acordo com uma pesquisa feita em junho desse ano pelo G.Dados , o núcleo de Jornalismo de Dados da Rede Gazeta , e disponível em https://www.gazetaonline.com.br/amp/noticias/politica/2019/06/so-15-das-ruas-de-vitoria-tem-nomes-de-mulheres, apenas cerca de 15% dos 3.019 logradouros de Vitória têm nomes relacionados ao gênero feminino, enquanto o gênero masculino é representado em 66% .

As consequências do silenciamento

Uma história contada pelo lado dos homens é um dos fatores para a persistência do machismo na sociedade espírito-santense. Como exemplo dos reflexos dessa violência, podemos ver as taxas de violências contra a mulher, que vão da psicológica à simbólica, o que pode culminar em um ciclo que pode levá-las à morte.

Os dados atualizados de 2019 do Observatório da Segurança Pública da Secretaria do Estado da Segurança Pública e Defesa Social (SESP) confirmou que, até em novembro deste ano, ocorreu no ES, 28 casos de feminicídio e 42 de homicídio doloso – ou seja,  crime cometido intencionalmente contra outro indivíduo – contra mulheres capixabas, totalizando 70 casos de crimes misóginos no estado. 

Veja as leis brasileiras que tem como objetivo a proteção da mulher.

Artes: Eduarda Moro

Trazendo a nível nacional, para a Agência Patrícia Galvão, o Brasil é o quinto país com maior taxa de assassinatos femininos no mundo, e o Espírito Santo foi o estado que mais matou mulheres até em 2012. 

Por outro lado, segundo o Atlas da Violência de 2019, graças às políticas adotadas como enfrentamento da violência contra mulheres, nos anos 2016 e 2017, apesar de haver um crescimento, as taxas despencaram, enquanto que o número de morte de mulheres negras aumentou. 

Além disso, segundo o Ministério Público Estadual (MPES), a taxa de homicídio de mulheres capixabas entre 2016 e 2019 na região da Grande Vitória foi maior do que todo o estado no mesmo período de tempo.

Arte: Eduarda Moro e Noélia Lopes

Visibilidade de trajetórias femininas no Espírito Santo

Segundo a historiadora e pesquisadora Nataraj Trinta, a pesquisa de personalidades femininas que tiveram suas trajetórias silenciadas é complexa e demorada, uma vez que não há documentos suficientes para estabelecer quem foi de fato essas mulheres e os agentes com quem se relacionaram durante a vida. Comenta também a dificuldade de confirmar a veracidade dessas fontes e as lacunas que ficam no mapeamento de suas histórias.

“A dificuldade está em falar de mulheres no geral, não apenas nas capixabas” e Trinta atribui esse fato ao conservadorismo da sociedade brasileira, e completa: “uma liderança feminina incomoda. Uma liderança feminina negra ou indígena incomoda muito mais”.

A pesquisadora também lembra que o Espírito Santo como uma região secundária da Região Sudeste, o que também afeta a falta de representatividade da história dessas mulheres e finaliza dizendo que a importância de conhecer essas histórias é porque elas se enquadram em possibilidades de olhar para o futuro e, portanto, é fundamental novas propostas de pesquisa e maior divulgação dos resultados.

Conheça a história de dez mulheres capixabas que lutaram pelos seus direitos e pela sua liberdade, além de conquistarem avanços na sociedade.

Filha de espanhóis, nasceu em Vitória em 20 de fevereiro em 1602. Foi responsável pelo ataque e pela expulsão de corsários holandeses capitaneados pelo almirante Pieter Heyn. 

Aos 22 anos, invasores que buscavam atingir o palácio municipal, em frente à Ladeira do Pelourinho e se estabelecer na vila, mas foram atingidos pouco mais da metade do percurso por Maria Ortiz. Foram surpreendidos pelos ataques da jovem, que lhes jogou água fervendo, enquanto empolgava os vizinhos a jogarem paus e pedras de suas janelas. Maria também pôs fogo à peça de artilharia que estava próxima à sua casa, disparando contra os invasores. Os holandeses, por sua vez, tiveram que retroceder, descendo a ladeira. Poucos foram os holandeses que chegaram ao navio sem nenhum tipo de ferimento, sendo que 38 deles foram mortos.

Maria faleceu, em Vitória, a 25 de maio de 1646, antes de completar 43 anos de idade. Não se sabe exatamente como morreu, mas especula-se que foi vítima de feminicídio. Em sua homenagem, mudou-se o nome da Ladeira do Pelourinho para Ladeira Maria Ortiz e muitas pessoas, até hoje, difamam Maria inventando lendas.

Fonte: A Gazeta

Nasceu em Conceição da Barra, Espírito Santo, em 1938. 

Formada em Letras, especializou-se em Cinema e fez pós-doutorado na Sorbonne, em Paris. Teve contos incluídos em coletâneas holandesas e, recentemente, foi indicada para o prêmio Jabuti. 

Recentemente foi professora da Escola de Comunicações e Artes da USP. Hoje, ela é integrante do corpo docente do Programa, atuando como professora emérita da Ufes.  

Suas obras publicadas foram: “As contas no canto”, “O jardim das delícias”, “Corações de cristal ou a vida secreta das enceradeiras”, “A panelinha de breu”, “A nave extraviada” e “Memória das ruínas de Creta”.

Fonte: Companhia de Letras

Nascida em São Pedro de Itabapoana, Mimoso do Sul, em 1895, Maria Antonieta Tatagiba concluiu em 1916, no Ginásio Espírito-Santense, o curso de Humanidades. 

Publicou poemas e crônicas em jornais e revistas do Espírito Santo e do Rio de Janeiro e foi uma das primeiras mulheres capixabas a reunir, em um livro, suas produções poéticas, sob o título “Frauta Agreste”. 

A produção poética de Maria Antonieta Tatagiba lhe possibilitou superar as expectativas de uma vida comum da época, que era resumida em casamento e à maternidade, consagrando-se na elite capixaba. 

Fonte: Governo ES

Foi a primeira governadora do estado.

Em 1589, com a morte do donatário Vasco Fernandes Coutinho Filho, sucedeu-lhe no Governo da Capitania sua viúva, Dona Luíza Grinalda. O casal não tinha filhos para seguir a linha de sucessão, por isso herdou o posto e nomeou seu adjunto o Capitão Miguel Azeredo.

Luíza Grinalda assumiu a Capitania em 1589 e governou durante quatro anos até 1593, quando perdeu o cargo em uma disputa judicial, para o parente mais próximo de Vasco Fernandes Coutinho Filho. 

Esse pretendente ao cargo de capitão-mor era Francisco de Aguiar Coutinho que teve seu direito à sucessão reconhecido e Luíza Grinalda entregou o governo em 1593. Viajou para Portugal e recolheu-se ao Convento de Nossa Senhora do Paraíso, em Évora. Segundo documentação histórica, ela ainda vivia no ano de 1626, quando prestou depoimento no processo de beatificação do Padre José de Anchieta. 

O vencedor da disputa, Francisco de Aguiar Coutinho, só assumiria a direção da Capitania do Espírito Santo depois de 1605. O capitão Miguel Azeredo permaneceu à frente do Governo de 1593 a 1605.

O acontecimento de maior relevância no governo de Grinalda foi o ataque de Thomas Cavendish, pirata inglês, à Baía de Vitória, em 1592. O governo providenciou a colaboração dos índios goitacazes, acampados nas proximidades de Vila Velha. O cacique Jupi-açu atendeu ao chamado e lutou contra os invasores, com aproximadamente duzentos homens, entre índios e colonos. Construíram apressadamente dois fortins de taipa no morro em que noventa anos mais tarde seria o Forte de São João. Cavendish foi derrotado e voltou às embarcações. Perdeu cerca de oitenta homens durante a luta.

Fonte: Morro do Moreno – morrodomoreno.com.br

Rita de Cássia Paste Camata nasceu em Conceição do Castelo no dia 1º de janeiro de 1961. Em 1981, casou-se com o então deputado federal Gérson Camata, que foi eleito governador no ano seguinte. Rita, como primeira-dama, filiou-se ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). 

Em 1986, com apenas 25 anos, foi eleita deputada federal como a candidata mais votada no estado. Neste mandato, foi membro de comissões com trabalho focado na família, no direito das mulheres, na educação e na cultura. 

Foi reeleita em outubro de 1990 com mais de cem mil votos e presidiu a comissão parlamentar de inquérito (CPI) sobre o extermínio de crianças e adolescentes. No ano seguinte, também fez parte da comissão especial sobre o Projeto de Lei nº 2.057/91, relativo a sociedades indígenas.

Foi eleita novamente em 1995 como a deputada federal mais votada do estado e sancionou a Lei Complementar nº 82/95, conhecida como “Lei Rita Camata”, que obrigou a União, os estados e municípios a ajustarem suas folhas de pagamento ao teto máximo de 60% da receita tributária.

Também se candidatou pelo PMDB à prefeitura de Vitória nas eleições de 1996 e foi indicada, em 2002, como candidata à vice-presidente da República, representando o PMDB.

Em outubro de 1998, conquistou seu quarto mandato de deputada federal e foram aprovados o projeto de lei de sua autoria, o qual modificou o artigo da Lei de Licitações e a lei que instituiu o dia 18 de maio como Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.

Assumiu uma cadeira na Câmara dos Deputados em 1º de fevereiro de 2007 e, em 2009, Rita apresentou outros projetos: um que criou o Programa de Transparência na Gestão Pública Federal e uma emenda constitucional que alterou o dispositivo que garantia o acesso à educação especializada para portadores de deficiência. 

Em 2010, foi derrotada nas eleições para o Senado e, no ano seguinte, anunciou em seguida que não voltaria a se candidatar a cargos eletivos, tendo restringido a atuação política às questões internas do PSDB, partido ao qual seguiu filiada.

Viúva de Gérson Camata, teve um casal de filhos. 

Fonte: Câmara dos Deputados 

Luz del Fuego (1917-1967), ou Dora Vivacqua, nome que recebeu de seus pais, nasceu em Cachoeiro do Itapemirim, no dia 21 de fevereiro de 1917, madrugada de segunda-feira de carnaval. Foi a décima quinta filha de Antônio Vivacqua e Etelvina. 

Em agosto de 1929, Luz del Fuego foi para o Rio de Janeiro e viveu um romance com José Mariano Carneiro da Cunha Neto, que pertencia a uma das mais importantes famílias cariocas. 

A maior parte da família preferiu acreditar que ela era esquizofrênica e a internou duas vezes em uma clínica psiquiátrica. Depois de sair de uma dessas internações, fugiu para o Rio de Janeiro e, em 1937, retomou seu romance com Mariano, porém seu relacionamento era abusivo, ainda mais quando ela decidiu fazer um curso de dança.

Em 1944, tornou-se em atrações da noite com suas jiboias Cornélio e Castorina e quando as notas na imprensa começaram a aparecer sobre Luz, sua família começou se incomodar e a perseguir. 

Mais tarde, resolveu publicar seu diário com o título de “Trágico Black-Out” e, posteriormente, um livro chamado “A Verdade Nua”, período em que também começou a colocar em prática os ideais naturalistas, o veganismo e nudismo. Del Fuego também criou o Partido Naturalista Brasileiro (PNB) e, a partir da segunda metade dos anos 50, adotou uma ilha que passou a se chamar Ilha do Sol, onde passou a ser uma das grandes atrações do Rio de Janeiro.

Em 19 de Julho de 1967, uma dupla de irmãos Alfredo Teixeira Dias e Mozart “Gaguinho” Dias armaram uma emboscada para Luz del Fuego: atraíram Luz para um barco e a matou. Mais tarde, a polícia concluiu que foi um crime por vingança.

Fonte: e-Biografia

Nasceu em Alfredo Chaves, em 1908. Foi poeta, escritora de crônicas e contos, tradutora. Desde a infância revelou vivacidade intelectual e vocação literária.

No Colégio do Carmo dedicou-se à organização de eventos culturais, em especial de teatro, música e poesia. Iniciou nessa época a carreira de escritora, publicando poemas na Revista Vida Capixaba nos anos 20 e 30.   

Transferiu-se depois com a família para o Rio de Janeiro, onde deu continuidade às atividades de escritora e se tornou funcionária do Museu Nacional de Belas Artes, após concluir um curso de Museologia, no Museu Histórico Nacional.  

Conquistou um prêmio literário na Revista “O Cruzeiro”, pelo conto “Uma História quase triste”. Escreveu também, histórias para crianças, ilustradas por Olga Olery. Faleceu em 1969. 

Suas obras publicadas foram: “Canções de torna viagem”, “Contos Inverossímeis”, “Três recordações da infância”, “Os desambientados” e “Festa na Sombra”.  Traduziu as obras: “A Nova Terra”, de Teodor Gidkow; “Goethe e a Revolução Francesa”, de Buckarin.

Fonte: Sefaz – sefaz.es.gov.br

O que se sabe é que, quando jovem, Aurora começou oferecendo um serviço diferenciado nos bordéis de Volta de Caratoira (bairro de Vitória): incluindo seu busto, aumentava o preço do serviço. Inclusive, o câmbio era muito alto, o que proporcionava uma boa remuneração.Era baixa, acima do peso e passou a ser a preferida do seu prostíbulo.

Fundou seu próprio bordel com mais de 40 quartos. Expandiu seus negócios e passou apenas a cuidar da administração, aumentando significativamente sua renda. Desfilou com carrões importados e com motorista particular, teve vestidos da Europa, virou uma das maiores correntistas do antigo Banestes.

Suas filhas adotadas foram matriculadas em um tradicional colégio de Vitória, onde os outros pais exigiam a expulsão das meninas. Também morou em Camburi, onde administrou uma famosa boate e um motel.

Fonte: A Gazeta

Nasceu no município da Serra, em 31 de agosto de 1898. 

Educadora desde cedo, passou a lecionar no Ginásio São Vicente de Paulo, porém em 1930, foi convidada pela Escola Normal Pedro II, em Vitória, escola em que permaneceu durante longos anos e aposentou-se em 1963. Durante quarenta anos, ministrou cursos em diversas áreas do conhecimento, tais como Sociologia, Pedagogia, Psicologia, Geografia, Didática etc. 

Na Escola Normal Pedro II, concretizou projetos que demonstram sua inclinação para o mundo da política, entendendo a educação com ênfase humanística, como instrumento privilegiado de transformação social. 

Em 1933, apoiou o movimento revolucionário constitucionalista de São Paulo e, em 1947, foi a única mulher a tomar posse na cadeira de deputada estadual do Espírito Santo. A partir daí, foi deputada por quatro legislaturas consecutivas, apresentando, ao longo do mandato, vários projetos ligados à Educação.

Por dezoito anos, foi, ao mesmo tempo, primeira-secretária e membro-fundador do Hospital Santa Rita de Cássia, nome escolhido por sua sugestão. Publicou, em 1980, o livro “Presença” (1980), uma coletânea de vários trabalhos e crônicas. 

Em 1949, fundou e tornou-se a primeira presidente da Academia Feminina de Letras do Estado do Espírito Santo e ingressou na Associação Espírito-Santense de Imprensa (AEI). Além disso, foi membro do Instituto Histórico e Geográfico do Estado do Espírito Santo e membro da Academia Anapolina de Filosofia, Ciências e Letras de Goiás. 

Depois de aposentar, em 10 de setembro de 1981, tomou posse na Cadeira 12 da Academia Espírito-Santense de Letras, onde tornou-se a primeira mulher a pertencer à instituição.

Aproximadamente dois meses após a solenidade de posse na Academia de Letras, Judith ficou gravemente doente e faleceu no dia 23 de março de 1982.

Fonte: Câmara da Serra

Arte: Eduarda Moro e Noélia Lopes

Nasceu em Vitória, no dia 19 de janeiro de 1942, Nara Lofego Leão. 

Durante 1957, ocorrem no seu apartamento as primeiras das reuniões do grupo de jovens músicos que participariam da Bossa Nova. Um ano depois, Nara largou os estudos e, por um breve período, trabalhou no jornal Última Hora, junto com Alberto Dines.

No dia 13 de novembro de 1959, estreou como cantora no show Segundo comando da operação bossa nova e continuou participando esparsamente de shows de músicos do movimento ao redor do país, cantando basicamente um repertório ligado à Bossa Nova. Mas já em 1964, junto com a gravação de seu novo disco, fez uma temporada de shows solos em várias cidades brasileiras.  

Deu declarações polêmicas contra o regime ditatorial e, em 1969, Nara deixou o país com seu companheiro, Cacá Diegues, para viverem um período de exílio na Europa. Moraram em Paris, onde trabalhou em apresentações esparsas e teve dois filhos.

Em 1973, de volta ao Brasil, iniciou uma série de shows no Circuito Universitário e, nesta época, também voltou a estudar, terminou o segundo grau e foi aprovada em Psicologia na Pontífice Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Em 1975, fruto do lançamento do disco Meu primeiro amor, mesmo sem shows de divulgação, ganhou o prêmio de Melhor Cantora do Ano da Associação dos Críticos de Arte de São Paulo.

Em 1979, Nara descobriu problemas de saúde, no entanto, continuou com as viagens para divulgação do disco e deu entrevistas para rádios e televisão. Acabou falecendo no dia 7 de junho. 

Fonte: site oficial da Nara Leão

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *