Espírito Santo permanece como um dos estados mais perigosos para mulheres

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Mesmo com aumento no número de denúncias e especialização no atendimento às vítimas, a violência contra a mulher ainda é um desafio para o Estado

Por Andressa Antunes, Beatriz Heleodoro, Camila Borges e Teresa Breda

A violência contra a mulher no Espírito Santo

Segundo dados do Fórum Brasileiro de Saúde Pública, divulgados no Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2019, foram contabilizados no Espírito Santo 42 casos de feminicídio em 2017 e 31 em 2018. As taxas de casos para cada 100 mil mulheres no estado são de 2,1 e 1,5 em cada ano, respectivamente. Apesar da redução de um ano para outro, com uma média de 36 casos por ano e uma taxa de 1,8, o Espírito Santo possui a maior taxa de feminicídios da região Sudeste. Em 2019, foram confirmados pelo Observatório da Segurança Pública do estado 28 casos de feminicídio, até o mês de Outubro. Considerado crime hediondo, caracteriza-se por feminicídio o homicídio doloso que tem como vítima uma mulher, morta por motivações em razão do seu sexo. 

Os parâmetros que definem a violência contra a mulher são definidos pela Lei Maria da Penha que, dentro dos termos do Artigo 8º da Constituição Federal Brasileira, configura violência doméstica e familiar “qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial”. A lei deixa claro que a violência contra a mulher não se restringe a ações físicas. As violações podem assumir diferentes faces: feminicídio, espancamento, ameaças e constrangimento, estupro, mutilação genital, exploração sexual, privação de bens, estelionato, entre outras, e que se constituem como formas de violação de um direito humano.

Para a Delegada Dra. Claudia Dematté, chefe da Divisão Especializada de Atendimento à Mulher do Espírito Santo, a violência contra a mulher possui uma raiz cultural, e é fruto de uma sociedade de cultura patriarcal. “Um dos maiores desafios é trabalhar na desconstrução dessa cultura machista ainda existente na sociedade. Quando se fala do enfrentamento da Violência Contra a Mulher, necessário se faz o trabalho em duas frentes: repressão e prevenção.”, explica a delegada.

Sobre os casos de violência, a delegada afirma que em 2018 ocorreram 1.109 prisões em flagrante de homens que praticaram alguma forma de violência contra a mulher. Em 2019, o número aumentou para 1.299 prisões até o mês de maio.

Produzido pelas autoras

Temática em Foco

A violência contra a mulher ainda é uma temática de grande repercussão na mídia e ao redor do mundo. 

Na última novela exibida na programação das nove da rede Globo, “A Dona do Pedaço”, escrita por Walcyr Carrasco, uma das personagens vivia em um relacionamento abusivo e sofria violências constantes. A personagem de Paolla Oliveira, Vivi Guedes, uma blogueira famosa, foi coagida a se casar com um delegado que a privou de ter contato com a família e os amigos. Com o decorrer da trama, a personagem sofria violências psicológicas constantes, até que o marido a levou para uma casa na floresta, distante de todos, e a privou de comer e beber porque não fazia suas vontades. Diferentemente da novela, onde a personagem é salva pelo mocinho, grande parte das histórias reais de violência não tem um final feliz. São casos como o da Jade Cherubim, o da Milena Gottardi e o de Araceli que ganham destaques todos os dias na mídia.

A violência contra a mulher é tema para séries, como “Inacreditável”, da Netflix, e músicas como “Maria da Vila Matilde”, de Elza Soares. Mas para além do mundo da música e das telonas, gera grandes repercussões, como foi o caso da última segunda feira, 25, quando as ruas da Argentina, da Colômbia e do Chile foram tomadas por manifestantes. No dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra a Mulher, mulheres latino-americanas mobilizaram manifestações por respeito e igualdade, na luta contra a violência doméstica contra a mulher.

Tipos de Violências:
A violência contra a mulher pode assumir diferentes faces e, por causa disso, é preciso ficar atento às manifestações de violência que muitas vezes são invisibilizadas. De acordo com o artigo VIII da Constituição Federal, a violência pode se manifestar por meio de:


Violência Psicológica: qualquer conduta que tenha a intenção de causar dano emocional e controlar as ações, comportamentos, crenças e decisões, por meio de ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir.

Violência Moral: Ação destinada a caluniar, difamar ou injuriar a imagem da mulher. Exemplos: Dar opinião contra a reputação moral, críticas mentirosas e xingamentos. 

Violência Física: Conduta que ofenda e coloque em risco a saúde corporal da mulher. O agressor utiliza de força física para causar danos à integridade física da vítima, mediante tapas, mordidas, chutes, mutilações, entre outras formas.

Violência Patrimonial: É quando o agressor detém, destrói ou subtrai os objetos da vítima, tais como: instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens ou recursos econômicos, inclusive os destinados a satisfazer suas necessidades.

Violência sexual: Conduta que force a vítima a manter, participar e presenciar relações sexuais não consentidas. Exemplos: aborto forçado, exploração sexual, assédio, estupro, entre outros.

Medidas e leis que abordam  violência sexual contra mulher

A violência sexual contra a mulher é abordada de duas maneiras distintas na legislação brasileira vigente, levando em conta se o crime foi cometido por um desconhecido ou por alguém da rede social da vítima. No primeiro caso, o capítulo sobre os crimes contra liberdade sexual do Código Penal prevê diferentes penas ligadas a fatores agravantes ao estupro, listados no artigo 213 que sofreu alterações em 2009 com a Lei 12.015, assinada pelo ex-presidente Luiz Inácio da Silva. 

É preciso frisar que não é necessário que haja penetração para que ocorra o estupro. Desde o ano de 2009 o Código Penal Brasileiro acentua, no artigo 213, que este crime acontece quando há ー através do uso de violência ou grave ameaça ー  “conjunção carnal ou prática de atos libidinosos”. O artigo prevê penas que variam entre seis e dez anos de reclusão, podendo ser agravadas caso o crime resulte em lesões corporais graves, morte ou caso a vítima seja menor de idade. 

Quando a vítima possui menos de 14 anos de idade, a questão do consentimento não é analisada: qualquer ato sexual e/ou libidinoso é considerado estupro, uma vez que nesta idade ainda não há discernimento para consentir com a prática sexual. O mesmo ocorre quando a vítima, independente da idade, está embriagada ou desacordada, já que não possui condições de consentir ou resistir ao ato. Já quando o crime é praticado por uma pessoa que faz parte do círculo social da vítima, é aplicada a Lei Maria da Penha , legislação considerada a mais importante no combate a violência doméstica e familiar contra as mulheres. Para a Dra. Claudia Dematté, delegada chefe da Divisão Especializada de Atendimento à Mulher do estado, esta lei foi um dos maiores avanços na área. “Essa Lei trata a violência doméstica e familiar contra a mulher de forma ampla, evidenciando a necessidade de uma resposta interdisciplinar. Ela é reflexo e fruto de uma luta árdua dos movimentos feministas que brigaram para que fosse sancionado este diploma legal que veio fazer com que a igualdade entre homens e mulheres deixasse de ser meramente formal”, afirma. Esta lei funciona como um complemento do artigo 213, evidenciando que a violência sexual contra a mulher vai muito além do estupro.

Produzido pelas autoras

Além das leis que asseguram as vítimas destes crimes, outros avanços são destaque na luta contra a violência sexual. Em 2005 o Ministério da Saúde lançou uma Norma Técnica intitulada “Atenção ao Abortamento”, que desobriga que a vítima precise apresentar um boletim de ocorrência (BO) para conseguir atendimento na rede de saúde.  Ainda relacionado ao atendimento médico, foi sancionada em 2003 a Lei 10.778, que estabelece a notificação compulsória dos casos de vítimas de violência atendidas no sistema de saúde público ou privado. Com isso, o profissional de saúde deveria informar ao Ministério da Saúde sobre o atendimento a estas vítimas. No entanto, no dia 10 de outubro deste ano, o atual presidente Jair Bolsonaro optou por vetar integralmente esta medida, alegando “contrariedade ao interesse público”. 

Desde 2013, com a Lei 12.845/2013, é garantido que a vítima de crime sexual tenha direito a atendimento obrigatório e imediato no Sistema Único de Saúde (SUS). Este atendimento inclui o direito a diagnósticos e tratamento de lesões decorrentes do estupro, além de acompanhamento psicológico e social e a receber, de maneira imediata, a chamada pílula do dia seguinte 一 que impede a fecundação do óvulo até 72h depois do ato sexual.  

No Espírito Santo, o combate a violência tem sido intensivo. O Estado é o único no país a contar com um plantão de atendimento 24h as mulheres vítimas de violência doméstica e sexual. “A Polícia Civil do Estado do Espírito Santo coloca o enfrentamento da Violência Contra a Mulher como umas das prioridades, motivo pelo qual, inclusive ano passado, com a reestruturação ocorrida na Polícia Civil do Estado do Espírito Santo por meio da Lei Complementar n° 892/2018 do dia 06 de abril de 2018, foi criada a nossa Divisão Especializada de Atendimento à Mulher que engloba a coordenação de todas as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAM’s) e a Coordenadoria da Delegacia de Plantão Especial da Mulher da Região Metropolitana (PEM)”, afirma Dematté. “O atendimento às vítimas de violência doméstica e familiar deve ser acolhedor, humanizado e em rede, abarcando um trabalho integrado entre as mais diversas instituições que, atuando conjuntamente, são capazes de oferecer todas as ferramentas à plena assistência à vítima.” completa. 

Foto: Teresa Breda

Crimes sexuais na internet

Com o uso cada vez mais intensivo das redes sociais, a internet hoje também se configura como um território perigoso para a mulheres. Um dos crimes sexuais comuns na internet é da pornografia de vingança, ou, em inglês, revenge porn. “A “Pornografia da Vingança” consiste em divulgar, sem o consentimento, em sites, aplicativos e redes sociais fotos e/ou vídeos com cenas de intimidade, nudez, sexo e sensualidade, que com a mera divulgação, inevitavelmente, irá colocar a pessoa exposta em uma situação vexatória e constrangedora diante da sociedade”, explica a Delegada Claudia Dematté. 

A legislação acerca deste tipo de crime é recente. Em 2012, foi sancionada a Lei 12.737/2012, após a grande repercussão do caso que envolveu a atriz Carolina Dieckmann. No episódio, a artista teve seu computador invadido por crackers e 36 fotos pessoais da vítima foram roubados e divulgados, incluindo imagens íntimas que continham nudez. Após o caso, a Lei – que carrega o nome da atriz – entrou em vigor no dia 02 de abril de 2013, e tornou crime a invasão de dispositivos eletrônicos para a obtenção de dados particulares. No entanto, esta Lei não prevê penas específicas para os casos de pornografia de vingança. “As condutas tipificadas por essa lei e a punição branda implementada pelo legislador se mostraram insuficientes para abarcar todos os tipos de condutas praticadas no meio cibernético, como, por exemplo, a pornografia de vingança”, afirma a Delegada. 

Os danos para as vítimas do revenge porn são delicadas e diversas. “Este crime pode causar danos irreparáveis não só a honra das vítimas, mas podem levar estas a tomarem atitudes extremas por não conseguirem conviver com a situação vexatória a que foram expostas.”, diz a Delegada. É o que aconteceu em 2013, no caso que resultou na morte de uma adolescente de 17 anos, no Piauí. E, assim como nos casos de estupro, o violentador normalmente é próximo ou faz parte do círculo social da vítima. “Observamos que mulheres são as maiores vítimas desse tipo de crime, sendo que em um número considerável dos casos os principais suspeitos ou autores, são ex-maridos, namorados ou companheiros ーque, inconformados com o fim do relacionamento, acabam por divulgar fotos ou vídeos íntimos da época em que eles se relacionavam”, completa Dematté. 

Relatos

No dia 7 de dezembro de 2017, a música “A Faca” foi lançada no YouTube. A música é de autoria da cantora de rap Kmila CDD, e faz parte do seu EP “Preta Cabulosa”. A letra da canção é feita em forma de relato de uma mulher que foi violentada.  A cantora revela os sentimentos, medos e angústias de uma mulher que se encontra em uma situação de abuso. 

Me agrediu e ignorou meus sentimentos

Mão na minha boca, faca na cintura

Socorro não tinha, só o agressor 

passando a mão na minha calcinha”

O relato é uma forma de escancarar realidades de forma crua, seja em canções como a de Kmila, que tem o poder de chocar quem ouve com suas letras “sem censura”, seja de forma escrita como apresentaremos a seguir. Os nomes foram alterados com o objetivo de preservar as vítimas, mas cada história foi de fato contada por uma mulher que vivencia ou vivenciou as mais diversas formas de violência.

A primeira dificuldade é entender que o que uma mulher considerou a vida inteira como normal, na realidade não deveria ser. “A gente aprende a minimizar essas coisas, os assobios na rua, os olhares para nossa bunda, as palavras indecentes.. Às vezes a gente acha que tá só na nossa cabeça, as pessoas zoam e julgam como se nada tivesse acontecendo.” afirmou Tainá, estudante de 22 anos. Na definição do dicionário Houaiss, assédio é a insistência impertinente, perseguição, sugestão ou pretensão constantes em relação a alguém. Assédio é uma das formas de abuso, e por vezes é menosprezado, já que em muitos casos não há contato físico. Tainá também falou da insegurança que sente em frequentar alguns locais: “Na academia sempre rolava, eu nunca gostei de fazer academia por causa disso. Sempre começava com ajuda nos movimentos mas acabava encostando em parte desnecessárias. Pra mim era uma coisa muito estranha, me sentia invadida.”. 

Amanda, estudante de 20 anos, passa por algo parecido. Tem medo de andar nas passarelas da universidade onde estuda, contou que um dia chegou a ser perseguida por um homem desconhecido:  “Eu estava andando 7 horas da manhã na passarela, quando vi um homem saindo do meio do mato. Comecei a acelerar o passo e ele veio atrás de mim. Então comecei a correr e ele continuou correndo , até que enfim cheguei no prédio onde estudo.” Admitiu que sempre anda alerta e receosa quando vai cedo para a faculdade, a insegurança faz parte do seu dia a dia. Há relatos de assédio até dentro dos hospitais, como é o caso da Carol, estudante de 19 anos. Ela estava sendo consultada por um médico, que começou a fazer perguntas estranhas à ela: “quando fui levantar para me retirar do consultório, ele se levantou junto comigo e ficou de frente pra mim, me puxou pelos dois braços e beijou o meu rosto (pois desviei).” Quando saiu do consultório foi direto pra casa contar aos pais, que a aconselharam a acionar a polícia.

O abuso não é praticado apenas por desconhecidos, mas também faz parte da vida de muitas mulheres os relacionamentos construídos de maneira abusiva. Essa é a história da Helena, comerciante de 28 anos. Ela teve um relacionamento que durou 6 anos:  “Nos dois primeiros anos tudo foi muito tranquilo. Depois de um tempo, a gente terminou e voltou. E quando a gente voltou, ele já estava totalmente diferente”. Helena relatou que começou de forma imperceptível e foi se tornando mais claro com o tempo:

 “Primeiro começava com um ciúme besta, de alguém olhar pra mim e ele brigar comigo ou dele se irritar com alguém me elogiando. Quando eu cumprimentava alguém, ele falava que eu tava dando mole pra pessoa. Até coisas como ofensas, me xingar, falar que eu queria dar pra todos os meus amigos porque eu tinha amigos homens, terminar comigo várias vezes comigo por ciúmes, pegar meu celular e ficar olhando. Falar que eu traia ele escondido e me tratar mal por isso, me chamar de puta.” 

Segundo Helena, ela se sentia oprimida, mas só conseguiu sair daquilo depois de muito tempo: “Era muito complicado, era uma relação muito opressora, me sentia mal o tempo inteiro. A gente tava muito bem, ai eu recebia uma mensagem de qualquer pessoa e ele já grilava. Rolava apertão de braço, ele me empurrava e  socava a parede de raiva.”. O que no começo parecia amoroso começou a se manifestar como algo prejudicial, começou a se tornar violento.

Rose tem 51 anos, mas passou por um trauma na infância que a afetou ao longo de toda a sua vida: “Na época que aconteceu eu tinha 12 anos, eu tinha um tio muito legal, gostávamos demais dele, ele era muito atencioso, sempre comprava bala pra gente, pra mim e pra minhas primas. Ele tinha uma lambreta e a gente adorava passear com ele. Ele era fotógrafo, então tirava muita foto da gente.”

Certo dia, Rose contou que seu tio disse a sua mãe que precisava entregar fotos na casa de um cliente, e que daria uma carona para Rose, que queria ir pra casa da avó : “Mamãe confiava muito nele e falou que podia. Aí ele foi e levou as fotos na casa de alguém e depois foi indo para um caminho meio ermo que eu não sabia onde era, mas na minha cabeça ele tava indo encontrar com alguém. Nesse caminho, ele parou num lugar onde tinha um campo, umas árvores, um lugar bem afastado e lá ele começou a tirar a minha roupa. Ele ficava me alisando e se masturbou, não houve penetração mas ele ficava se masturbando, e eu fiquei parada. Não sei se era medo, era uma coisa esquisita, que a gente não consegue se mexer, a gente só fica ali vendo a pessoa fazer aquilo e não tem nenhuma reação.”.

Rose sofreu durante toda a infância e adolescência com a culpa pelo que tinha acontecido: “Eles tinham colocado telefone há pouco tempo na casa da minha vó, então sempre que tocava a gente corria pra atender. Naquele dia, o telefone tocou e eu atendi. Era ele, ele ligou e falou comigo que não era pra eu contar pra ninguém o que tinha acontecido, se não eles iam achar que eu tinha feito alguma coisa errada, como se a culpa fosse minha, e eu acreditava mesmo que a culpa era minha.”

Passou anos sem contar nem aos pais, tios ou avós. Só depois de casada Rose criou coragem pra contar pra uma de suas tias. O silêncio demorou para ser quebrado, pois prevalecia o medo: “Era aquela coisa assim, todo mundo sabia que o que ele fazia mas ninguém tinha coragem de acusar, e as pessoas que ele abusava nunca tiveram coragem de denunciar”, descobriram que além dela, a filha dele também sofria com seus abusos.

A mensagem que Tainá, Helena, Rose, Amanda e Carol querem passar é que não é normal. Assobios, palavras, toques e tudo aquilo que você não pediu, que você não gostou, deve ser denunciado e ser encarado com seriedade, ainda que seja difícil às vezes. Helena completou e deixou um recado para todas as mulheres que também são vítimas:

“Você não é a culpada dessa situação, você não é a vilã da história, a gente merece coisa muito melhor. A gente pode até estar sozinha, é melhor estar sozinha do que estar com alguém que não sabe valorizar quem você é, que esconde, que brinca com os nossos sentimentos e manipula as situações contra a gente. Abandonem isso, busquem em vocês e no que vocês amam a força.”

A realidade motiva novas pesquisas 

De acordo com o 13º Anuário Brasileiro de Segurança Pública , publicado em 2019, em 2017 o Espírito Santo (ES) foi o 15º Estado com maior número de registros de feminicídios. O Estado também ficou entre os 15 colocados entre as unidades federativas que mais se mata mulheres, ocupando a 13ª posição. A chefe da divisão Especializada de Atendimento à Mulher (DIV-Deam), delegada Claudia Dematté, afirma que por ser uma violência com raiz cultural, fruto de uma sociedade de cultura patriarcal, um dos maiores desafios da luta contra violência à mulher é trabalhar na desconstrução dessa cultura machista, que ainda perpetua na sociedade capixaba. 

Como visto, a violência contra à mulher possui diversas formas e divisões, no entanto, nenhuma violência é caracterizada como maior que a outra. Tendo como objeto de pesquisa um dos crimes menos falado e catalogados do país, o estupro seguido de morte, o capixaba Augusto Chamoun do Carmo, foi um dos premiados pelo “Prêmio Espírito Público”, maior gratificação de trajetórias do setor público do Brasil, neste ano. Chamoun foi consagrado ainda como cientista dono da melhor pesquisa do país pela  Sociedade Brasileira de Ciências Forense. Há cerca de dez anos, ele iniciou sua pesquisa e desenvolveu uma técnica relacionada à captura do DNA de estupradores em corpos de mulheres, vítimas encontradas em estado de decomposição avançada. 

O também Perito Oficial Criminal da Polícia Civil (PCES) há 12 anos, conta que nesse tipo de crime, para que haja a identificação do agressor, a equipe técnico-científica necessita recolher algum material genético do suspeito que deve ser extraído de dentro do corpo da vítima. “Nas investigações o  tempo é o nosso maior inimigo. Quando o cadáver já é encontrado em estado de decomposição avançada, a extração desse material torna-se quase impossível ”, explicou o pesquisador. 

Frustrado por não encontrar vestígios para a resolução deste crime bárbaro, o perito decidiu iniciar sua pesquisa utilizando um conhecimento específico: a entomologia forense, isto é, o estudos sobre insetos. “No doutorado, realizei uma simulação em um corpo de vítima em estado de decomposição avançada no qual recuperei o DNA Y humano, identificador do sexo masculino, a partir da extração de material em larvas e pupas que se alimentavam do corpo da vítima”. O protocolo desenvolvido em sua pesquisa já foi utilizado em alguns casos no Rio de Janeiro e no momento está em fase de coletas e aprimoramento. 

Aos 18 anos, Chamoun foi para o Rio de janeiro iniciar os estudos. Deu início na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), no curso de Ciências Biológicas, e de lá deu continuidade à vida acadêmica pelo mestrado em Microbiologia, na Universidade Federal de Viçosa (UFV), e doutorado em Ciências Biológicas (Entomogenética Forense), pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pelo Museu Nacional. Parte de seu doutorado foi realizado nos Estados Unidos pela Florida International University e no Miami-Dade’s forensic lab. 

Em entrevista ao Universo UFES, Chamoun fala sobre alguns desafios encontrados nos últimos dez anos e sobre a motivação de toda sua pesquisa. 

Fonte: Polícia Civil (PCES)

“Sem dúvida, os maiores entraves que encontrei foram a falta de apoio e de estrutura no meu próprio estado. No decorrer da pesquisa, fui contemplado com uma bolsa de pesquisa da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes) e a Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Rio de Janeiro (Faperj) foi quem me auxiliou na aquisição dos kits moleculares. Entretanto, durante o processo tive que tirar do meu bolso, muitas vezes, para que sustentar a pesquisa”.

“O fato é que o estupro é o crime violento mais sub-notificado do mundo. Os motivos para isso podem ser diversos, como medo de ser acusada de culpa, falta de apoio da família, estigma social….etc. Outro fato importante é que nem sempre as condições em que o corpo é encontrado permitem que se possa afirmar o estupro e isso também pode provocar uma sub-notificação importante”.

“Minha pesquisa levanta vestígios em crimes onde, normalmente, não se encontra nada que materialize provas de autoria. Isso vale para o mundo todo, não só no Brasil. Quanto antes você tirar um sociopata, estuprador contumaz, da sociedade, mais pessoas são protegidas, pois esses criminosos, quase sempre, cometem esse delito repetidas vezes. O tempo é inimigo de todos nós, cientistas do crime. Quanto mais o tempo passa, mais evidências são perdidas e os insetos são nossos maiores aliados nesses casos”.

Outros pesquisadores do ramos, assim como Chamoun, desenvolveram projetos para identificarem estupradores. Neste ano, peritos do Estado de São Paulo (SP) colheram mais de 10 mil amostras de DNA de presos acusados de crimes sexuais no Estado. Mais de cinco mil e quinhentos perfis genéticos foram registrados no banco genético do Estado e já trouxeram respostas na resolução de alguns crimes ligados a violência suxual.  

Segundo a Agência Nacional, em setembro deste ano o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) informou que R$ 9 milhões foram destinados à compra de Kits de coletas de amostras biológicas, reagentes, picotadores semiautomáticos e analisadores genéticos destinados ao Banco Nacional de Perfis Genéticos (BNGP). O material foi distribuído para os Estados. Até o mês de setembro deste ano, o BNGP contava com mais de 30 mil perfis genéticos cadastrados. 

O que fazer se eu for vítima de Violência Sexual?

Produzido pelas autoras

Caso você seja vítima de violência sexual, o primeiro passo a seguir é procurar assistência médica no sistema de saúde. É importante que você tenha uma estrutura adequada para enfrentar a situação, seja ela sua família ou outra rede de apoio. Denunciar o agressor é uma atitude essencial para prevenir que outros casos aconteçam. Você pode realizar um Boletim de Ocorrência em uma delegacia especializada ou discar para o 180 e, através de uma denúncia anônima, o caso é repassado à delegacia. Busque também apoio psicológico e social e não se esqueça: você não está sozinha!!

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