As problemáticas de um centro em decadência

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Dos comércios sem força à segregação espacial envolvida no processo de urbanização do centro da capital

Por Giulia Reis, Lydia Lourenço, Maria Clara Stecca e Sthefany Duhz

Reprodução Gazeta Online/ Mercado Capixaba

O centro de Vitória já foi um dos polos comerciais de grande destaque do Espírito Santo. Hoje ao andar pelas ruas do local, a decadência é visível. O comércio perdeu sua força, a população de rua cresce, e a violência assim como a negligência à história da região só aumentam. 

O lugar mistura construções de épocas remotas, prédios ocupados e vendas e comércios que sobrevivem ao tempo, à sua maneira. As igrejas de outrora resistem, mostrando todo o simbolismo cristão conservador que dita e diz muito sobre o comportamento capixaba.

O Espírito Santo, a exemplo do centro de nossa capital, foi urbanizado tardiamente, tendo uma aceleração no processo de industrialização e ocupação das cidades a partir dos anos 70, com a mudança de base econômica com o avanço de indústrias e grandes empreendimentos.

O centro de Vitória já foi um dos grandes polos comerciais do Estado, assim como um local que reunia diferentes tribos, tornando a região conhecida por sua efervescência cultural. Entretanto com o passar do tempo, e descentralização do comércio para outras localidades, o centro da cidade se tornou um lugar pouco movimentado.

Revitalizar é solução?

Com a retomada dos movimentos de luta por moradia urbana no Espírito Santo, fomentadas pelas ocupações de prédios abandonados no Centro de Vitória, criou-se a necessidade da discussão acerca de uma revitalização do centro da capital. A região possui diversos prédios que não estão cumprindo sua função social, gerando uma comoção no que diz respeito à questão da habitação e do uso dos espaços públicos.

Crédito: Heytor Gonçalves/ Prédio ocupado pelo Movimento Nacional das Famílias Sem Teto

Desde junho de 2017, a luta por moradia urbana ganhou mais força, e também contrários, com os processos de ocupação iniciados no edifício do antigo Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários (IAPI). As famílias que ali moravam conseguiram o direito à Habitação Social, que consiste na transformação do espaço em um local para essas pessoas habitarem através do pagamento de um aluguel social.

A questão da moradia é um problema complexo e que envolve a desvalorização da região central, desinteresse do mercado imobiliário e problemas de gestão do Estado, segundo a especialista em habitação social e professora de arquitetura da UFES Clara Miranda, revitalizar a região traria de volta a atenção de investidores.

“Cabe ao poder público, compreender a nova vocação do centro que, a meu ver, é habitacional, requer que coordene os investimentos por setores próximos, restaurando nestes as tais externalidades positivas”, afirma.

Além das problemáticas habitacionais no centro, outra questão que incomoda moradores e pessoas que trabalham e passam pela local, é a decadência dos comércios, o aumento da presença de pessoas em situação de rua e pouca atratividade em turismo nos setores culturais. 

“Acho que tem que partir de um diagnóstico muito cuidadoso, que compreenda com clareza o que se passa com a região metropolitana, acolhendo as qualidades urbanas, paisagísticas e patrimoniais, além das vitalidades da vida cultural e dos circuitos de comércio informal e formal remanescentes”, pondera. 

Memórias do Centro

Reprodução Blog Vitória Antiga/ Parque Moscoso na década de 70/80

A ideia de revitalização é assunto de discussão não só de especialistas em urbanização mas também do cidadão comum. Muito além da questão da habitação, existe a problemática da economia e cena cultural local, que em outros tempos era bem diferente da situação decadente contemporânea. 

É justamente desses tempos distintos, em que o centro era um point cultural e os comércios movimentavam a economia da região que o funcionário público Douglas de Almeida se recorda saudoso.

“Nos anos 70 e 80, Vitória era o centro de tudo, havia muitas boutiques, o comércio movimentava tudo, o centro não era esse lugar fantasma que é hoje”, relembra. 

Para ele a grande solução para região é o investimento em políticas públicas de habitação, sobretudo para pessoas que trabalham no local e moram em outros bairros. Douglas enxerga que o poder público deve agir restaurando os prédios desocupados a fim de torná-los habitáveis a preços acessíveis. Isso ia gerar emprego e renda, movimentar novamente a economia do Centro de Vitória. 

“Pra mim a solução é o governo investir em moradia para quem trabalha na região, a exemplo de funcionários públicos, que precisam se deslocar todo dia para trabalhar. Também realizar uma pesquisa para saber sobre o interesse dessas pessoas em habitar o centro de Vitória”, comenta o funcionário público. 

O servidor ainda se lembra de como era a vida social neste período e relembra como as praças da região central reuniam diversos segmentos sociais e culturais. 

“A praça oito era o grande point do Centro, reunia todo mundo, políticos, estudantes, professores, pessoas de todos os tipos se misturavam lá”, relata.

A partir dos anos 90, com a inauguração do Shopping Vitória, os comerciantes que tinham um forte poder aquisitivo migraram para outros locais da capital, a fim de investir em grandes empreendimentos comerciais. 

O que permanece para quem vivenciou essa época é a lembrança de um centro que movimentava a economia local, atraindo pessoas de diversas regiões da Grande Vitória. Para a comerciante Glauce Reis, a decadência do centro da capital se deu devido o enfraquecimento do comércio.

“Lembro do Centro na minha infância, era um lugar com muitas lojas e bastante movimentação, mas com o tempo ele foi ficando cada vez mais deserto, e hoje não sinto mais vontade de ir até lá. Acho que isso se deu por conta da construção do shopping Vitória, pois depois dele o comércio do Centro enfraqueceu muito”, relata.

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