A (des)valorização da cultura Drag no E.S

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Recorte histórico sobre a cultura Drag e o retrato do cenário atual capixaba.

Elaborado por: Beatriz Bessa, Hérick Salomão, João Paulo Rocha e Rafael Sguerçoni.

A drag queen Aysha Pink apresentando o XII Manifesto LGBTI da Serra.

Segundo o dicionário, Drag Queen é: “homem que se veste com roupas extravagantes de mulher e imita voz e trejeitos tipificadamente femininos, ger. apresentando-se como artista em shows etc.”, porém a definição e conceituação vai muito além de ‘desenho’ que o dicionário faz. A cultura Drag representa hoje números estrondosos para a indústria de entretenimento, com nomes como Pabllo Vittar e Glória Grove,  com cerca de mais de 06 milhões de ouvintes mensais em plataformas digitais, a arte drag se popularizou na virada do século 21, no Brasil e no mundo.

Historicamente falando desde a Grécia Antiga existem relatos sobre homens performando em trajes femininos, com o passar dos anos o ofício se transformou e modificou no que conhecemos hoje. No atual cenário brasileiro temos vários destaques, como as boates LGBTs, que tradicionalmente são espaços de fortalecimento e empoderamento.

O acesso a cultura e lazer são fundamentais na formação humana, ter visibilidade para o público consumidor do mercado Drag é equalizar e democratizar o acesso ao lazer. No cenário local não possuímos muitos bares e quiosques que levantam declaradamente a bandeira LGBTQIA+, “existem poucas casas voltadas para apresentações de Drag Queens e que na maioria dos casos as atrações são fixas”, diz Caic Goulart Pissineli, que performa há cerca de 05 anos, interpretando a Drag Brisa.

Caic diz, que existe pouco apoio e visibilidade para as artistas que fazem performances na noite capixaba, por muitas vezes as próprias têm de pagar a locomoção até a boate que irão se apresentar e não recebendo nenhum outro suporte além do cachê que se mostra insuficiente devido a gastos com transporte e alimentação.

A drag queen Brisa comemora a vitória do concurso RuPaul’s Drag Race Brasil, no Instagram.

“Consumação não paga peruca”, diz Caic citando letra da cantora e drag queen Glória Groove, a respeito do fato de que muitas boates oferecem as artistas apenas entradas vip e consumação de bebidas em troca da presença das mesmas em eventos.

O graduado em artes cênicas Martins Machado, que há 5 anos dá vida a drag queen Lara Lestrange explica que o valor pago pelas boates do Espírito Santo não são suficientes nem mesmo para cobrir os gastos com a produção das artistas.

“Na maioria das vezes você precisa de um outro emprego para dar suporte ao seu trabalho como Drag Queen”, relata.

Atualmente Martins tem trabalhado em eventos corporativos e de militância, onde segundo ele a valorização do trabalho tem sido pouco maior que nas boates.

“Já consegui receber bons cachês, mas não é uma realidade frequente infelizmente”, completa.

Mesmo com todo o alcance e visibilidade que possuem atualmente as atrações ainda são vistas como exóticas, ficando preteridas dos grandes palcos culturais e sendo colocadas como forma de atrativo atípico, o que mantém a cultura Drag ainda como algo pitoresco, exótico. 

Segundo Martins devido a desinformação parte do público não compreende muito bem o trabalho das drags queens e infelizmente acontecem casos de preconceito, sobre os quais as casas não costumam se posicionar a respeito.

A drag queen Lara Lestrange em ato político no Centro de Vitória.

“Já ouvi vários casos referente a isso, em que as casas não se posicionaram como deveriam”, relatou Martins.

A visualização dessa arte como exótica torna a aceitação pelo público lenta e de forma muito sexualizada, Caic conta que ainda existem muitos tabus acerca do que realmente a cultura Drag é, o que vai muito além das performances em si, e sobre a frequência das apresentações cita: “quase não há periodicidade de trabalhos”, indicando que há pouco espaço no mercado.

No entanto Caic conta que nas boates LGBTs o público costuma se interessar bastante pelas apresentações de drags. Ele explica que nestes espaços ter a presença das drags é uma atração a mais para o evento, e que as Queens atuam como uma forma de representação dos símbolos das festas.

Existem ainda outras formas de resistências da cultura Drag no mercado, como por exemplo as Haus, que são ‘famílias’ formadas por Drags, que se apoiam e se ajudam, uma das Haus do ES se chama Haus of Pussynail, família da drag queen Brisa.

A conveniência que a crescente leva de artistas lgbt´s carrega faz com que o interesse cresça pelas atrações, mas ainda sim o cenário regional se limita a poucos nomes.  

O produtor de eventos Matheus Paiva, que já trabalhou em boates do Espírito Santo que recebem o público LGBT explica que os poucos estabelecimentos capixabas que contam com a participação de drag queens as contratam apenas como djs ou hostess, havendo pouco espaço para performances.

“O mercado atual só dá espaço para elas como dj ou hostess, e pouco se fala em performaticidade, um produto mais rentável socialmente, politicamente e artisticamente para quem assiste e para quem produz”, explica.

Segundo o Correio Brasiliense o Brasil é o pais que mais mata transsexuais no mundo, difundir e valorizar aspectos culturais dessa parcela da população é parte fundamental no combate ao ciclo da violência. É preciso fomentar e incentivar o acesso das performistas as casas de público heteronormativo ou até mesmo a criação de espaços específicos para o público o estado, que atualmente carece deste tipo de ambiente, procuramos as casas de show da Grande Vitória para nos darem entrevista sobre a temática, mas até o fechamento desta reportagem não obtivemos retorno. 

XII Manifesto LGBTI de Serra arrasta milhares de pessoas na Orla de Jacaraipe

No último domingo (01) aconteceu o XII Manifesto LGBTI da Serra, na Praia de Jacaraipe. Organizado pelo Fórum LGBTI do município, o evento contou com apresentações de drag queens, grupos de dança além de bandas locais e de outros estados, levando milhares de pessoas para a Orla da Praia.

O evento foi apresentado pela drag queen Aysha Pink de Porto Seguro, que já foi moradora do Espírito Santo, e contou ainda com apresentações de outras drag queens de destaque no cenário local, como a Pabllo Vittar Capixaba, cover da cantora e drag queen Pabllo Vittar, além da Top Drag Espírito Santo 2019, Dookie Petry.

Para a presidenta do Fórum LGBTI da Serra Layza Lima o evento representa muito mais que uma festa, ele tem grande importância, por mostrar para a sociedade conservadora que a população LGBTI existe e resiste. “Aproveitem o evento com respeito, responsabilidade, alegria, e aproveitem principalmente com amor”, pediu Layza na abertura do manifesto.

A Top Drag Espírito Santo 2019 Dookie Petry se apresenta no XII Manifesto LGBTI da Serra.

Confira abaixo uma linha do tempo da história das drag queens:

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