35 ANOS DE HISTÓRIA: A TURMA DO BALÃO MÁGICO

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Por Anderson Barollo, Izabela Toscano, Luisa Cruz e Mylena Ferro
Arquivo: Biblioteca Central da UFES

TURMA DO ÓCIO

Tudo começou com um grupo de universitários libertários que, em meados dos anos oitenta, se reunia nas famosas “Pedrinhas da Ufes” ao lado do Restaurante Universitário para se divertir, debater pautas identitárias e falar de cultura, sociedade, comportamento e política – tudo isso em plena ditadura. 

Eles tiveram forte influência do jornalista Fernando Gabeira, exilado no regime militar, que defendia a discussão de assuntos considerados polêmicos na época. ”Como ele ficou muito tempo exilado na europa, veio contaminado com pautas como questões de gênero, sexualidade, comportamento, escolhas individuais que não estavam na pauta da esquerda na época’’, completa o atual professor e ex-integrante da Turma do Ócio e do Balão Mágico, Cléber Carminati.

Desse grupo saiu grande parte dos integrantes do que, pouco tempo depois, veio a ser a Turma do Balão Mágico. “Foi-se registrando a partir do ócio que era apenas uma reunião de cabeças pensantes, o Balão Mágico [que] já era uma coisa mais ativa”, comentou Robson Barros, ex-integrante do Balão.

O COMEÇO

O início oficial do grupo se deu com a turma de Comunicação Social 1983/1 em uma aula de Teorias da Comunicação II, ministrada pelo professor, hoje aposentado, Domingos de Freitas. O projeto de pesquisa de um grupo de 17 alunos da turma, intitulado “Manifesto” foi recusado pelo professor, que já tinha fama de autoritário. “Ele não aceita uma proposta nossa de fazer um projeto de pesquisa com uma metodologia em que os estudantes também participavam. (…) E, assim, ele era autoritário”, disse Carminati.


Naquela aula, Domingos apelidou o grupo de “Turma do Balão Mágico”. Segundo ele, a turma era composta de jovens alienados e mal acostumados pela televisão. O grupo, então, estigmatizou o apelido dado pelo professor e decidiu transformar aquilo em algo que julgaram ser positivo. ”O programa Balão Mágico era um programa para criança e era lúdico. Por que não transformar [o apelido] em algo positivo?”, relembra Carminati.

O GRUPO

A Turma do Balão Mágico era formada, em sua maioria, por estudantes do Centro de Artes da Ufes, mas também contava com alunos da Engenharia e da Medicina. Tinha como principal objetivo reivindicar direitos dos alunos e melhorias na estrutura da Universidade, como, por exemplo, as eleições diretas para reitor(a), a criação de um prédio multimídias para os cursos de Comunicação Social, a modernização de equipamentos, a criação de uma Rádio Universitária, modernização da grade do curso, novas formas de avaliação e etc.

“O grande lance da crítica ao Balão é que viam a gente apenas como baderneiros e, na verdade, a proposta que eu acho que foi válida foi a seguinte: vamos pensar o método de avaliação? Vamos tentar fazer coisas mais práticas? Vamos fazer filme? (…) E o Balão Mágico por mais massacrado que fosse, tinha essa perspectiva: vamos melhorar nossas formas de atuação, de comunicação, de avaliação e de fazer coisas do curso.”, pontuou Robson. 

Aquivo: Biblioteca Central da UFES

AÇÕES DO BALÃO

Para solicitar essas reformas e melhorias, o Balão se utilizava de protestos que tinham sempre forte teor artístico e ações de alto impacto visual inspiradas na vanguarda dadaísta. Os integrantes adotaram uma estética Punk, utilizando roupas customizadas e andando sempre em grupo. Eles também promoviam ações culturais, como quando levaram um circo para a Ufes, quando criaram um grupo de teatro, faziam documentários, cineclubes etc.

Na produção cultural do grupo, vale destacar a feitura de um dos primeiros filmes do Espírito Santo. “Sérgio Medeiros chegou na comunicação nos anos 80, ele apresentou um argumento de uma ficção científica, uma distopia, e a gente produziu em vídeo. E aí saiu um dos primeiros filmes de vídeo do estado, e foi feito aqui… deu um trabalho danado para editar porque não tínhamos nem ilha.” explica Carminati.

Ainda sobre suas ações, a turma do Balão Mágico teve uma participação bastante ativa nas questões universitárias. Sempre buscando um modo de melhorar as propostas acadêmicas dos cursos e a vivência dos estudantes no campus, o Balão usava os recursos que tinha e corria atrás de mudanças.

A professora de artes plásticas e ex-integrante do Balão Mágico, Rosane Paste, quando perguntada a respeito das reivindicações da turma, fala sobre o acesso e a representatividade do universitário perante a comunidade acadêmica: “Poder participar do Conselho Universitário – você não tem voz, nem voto, mas podia ouvir tudo o que era discutido. Isso é um dado incrível! Além da diversidade de representação, não ser sempre a mesma coisa”. 

A professora ainda lembra de um episódio da Turma do Balão no Restaurante Universitário. “Eles tomaram o RU e, durante um período, cozinharam, porque ninguém sabia quanto se gastava com o restaurante. Falavam que era um orçamento, mas a comida não condizia”, comenta.

O grupo apresentava ainda inúmeras outras formas de manifestações. Por meio de peças teatrais, pixos ou frases de repúdio, eles carregavam sempre o ideal da liberdade de expressão como pilar do movimento.

INQUÉRITO NA UNIVERSIDADE

As intervenções artísticas da turma do Balão tiveram tanta repercussão que acabaram resultando na instituição de um inquérito pela Reitoria da Universidade no ano de 1985, por conta das pichações, grafites e invasões em salas realizadas na Ufes. O intuito da investigação era apurar os responsáveis pelos danos a depredação de patrimônio público. 

Os processos nº 5.760/85 -97 e 7.189/85-72, julgaram três integrantes do Balão Mágico, entre eles Cléber Carminati, acusando-os de liderar o grupo – o que os membros consideravam infundado, pois o movimento não tinha líderes. Em uma audiência do inquérito, os três investigados foram fantasiados para a reitoria e picharam na parede da sala de reunião. A ação foi chamada por eles como ‘’Comissão da Inquisição’’.  

Com o passar dos anos, as obrigações acadêmicas e a vida, em si, levaram os membros do Balão Mágico a trilhar diferentes caminhos. A turma original e aqueles que chegaram depois seguiram diversas carreiras: Hoje, alguns lecionam, outros arquitetam e outros fazem arte. Mas, para muitos, as ideias da Turma do Balão Mágico ainda se fazem presentes. 

Clique na legenda e conheça alguns integrantes do Balão!


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