Relacionamento abusivo entre familiares cria complicações para toda a vida

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Proteção excessiva dos pais pode prejudicar desenvolvimento dos filhos e dificuldades em assumirem a própria vida.

Ana Julia Chan, Ana Luisa Monteiro, Carolina Moreira e Matheus Souza

Relacionamento abusivo está longe de significar conflitos entre casais ou amigos. O abuso pode acontecer em qualquer forma de relação, até mesmo nas mais essenciais à vida. Com a família acontece o primeiro contato social de uma criança e é, muitas vezes, a partir desse relacionamento que surgem os maiores conflitos, capazes de mudar a relação inteira ou até mesmo colocar um fim nela.

A psicóloga Luciene Lima explica que existem vários formatos de famílias abusivas, porém o excesso ou a falta costuma ser o elemento que promove a característica tóxica. “Nós temos, por exemplo, o pai que protege demais os seus filhos, que tenta controlar ou decidir toda a vida dele, o que acaba por impedir que essa criança ou jovem se desenvolva. Esse comportamento cria filhos dependentes, que não têm coragem de assumir a própria vida e que sempre acabam dependendo dos pais. Também temos o oposto, aqueles pais que acabam por agredir os filhos, muitas vezes através de palavras, mas que também pode evoluir para algo físico”, afirma. 

Psicóloga Luciene Lima

A psicóloga esclarece que o processo de identificar que se vive uma relação familiar abusiva leva tempo. Geralmente, a percepção se dá conforme a pessoa alcança um determinado grau de maturidade. Nesse momento, ela costuma perceber que o comportamento da sua família não faz com que ela se desenvolva. “Quando isso ocorre, esse jovem, por exemplo, acaba por tentar passar mais tempo fora de casa. Alguns tentam passar o dia inteiro estudando ou trabalhando, e assim acabam se distanciando dessa relação tóxica”, explica. 

Paula Couceiro, 29 anos, teve uma infância maravilhosa ao lado de uma mãe dedicada e avós maternos presentes. Contudo, na fase da adolescência, quando ficou com o primeiro menino aos 14 anos, tudo mudou. Em vez de diálogos, vieram proibições e, consequentemente, mentiras. “Depois do episódio aos 14 anos eu mentia sobre absolutamente tudo. Namoros, amizades, saídas… qualquer coisa que pudesse contrariar a fé deles, eu escondia. Mas mentira tem perna curta, então um dia fui pega, e aí abri o verbo: disse tudo que estava vivendo escondido nos últimos sete anos. Como era de se esperar, eles surtaram e me colocaram para fora de casa”. 

Aos 21 anos, Paula foi expulsa de casa logo que seus responsáveis descobriram que ela não era mais virgem. Do Espírito Santo, ela foi para Belo Horizonte (cidade natal de sua família paterna) e teve todo o suporte do pai, que manteve seus custos até o fim da graduação. 

Quando questionada sobre como esse episódio influenciou no seu desenvolvimento pessoal, ela é sucinta: “Quem nunca comeu doce quando come se lambuza”. Sair da casa de um ancião e ir direto para uma república foi o maior prazer da sua vida até então. Mas não por muito tempo. “Bebi, cheirei, fumei, transei com todo mundo da cidade… e, por fim, fiquei deprimida. Eu vivi 21 anos em oito meses e me deprimi profundamente”, desabafa. 

Para Paula, a experiência de morar sozinha e ter sua própria liberdade foi crucial para que ela se encontrasse. “Sem minha mãe e meus irmãos; meu pai trabalhando em São Paulo que nem um cão; eu morando com uma galera muito louca; vivi uma vida que eu não estava acostumada. Precisei me conhecer sem todo aquele controle familiar para, enfim, encontrar a Paula… que também não era aquela menina descabeçada”. 

“Arrumei namorados em busca de amparo, de cuidado….me relacionei por anos com pessoas que pudessem cuidar de mim”, diz Paula

Ela diz não guardar mágoas da mãe, mas confessa que não sabe se algum dia vai conseguir perdoá-la. “Não tenho que perdoá-la. Tenho que compreendê-la, e a compreendo. É preciso muita coragem para ser o que se é, e muita força para pagar o preço por isso. Hoje, não tenho ressentimentos, nem saudade… Tenho compaixão”, reflete. 

Quanto à comunicação, as poucas notícias que dá e recebe são via e-mail. Segundo Paula, a religião materna – testemunha de Jeová – não permite contato com pessoas que abandonam a doutrina. 

Hoje divorciada, com uma filha bebê e vivendo um relacionamento com uma mulher, ela reconhece que é bem mais forte e feliz. “Abri mão de mãe, irmãos e da família que me criou. Mas encontro, todos os dias, no rosto refletido no espelho a minha versão mais autêntica. Faria tudo outra vez pra encontrar a mulher que me tornei. Essa é minha herança para minha filha Isis: liberdade”, declara.

A falta de apoio da família de pessoas LGBTQ+

Tiago Paganotte Meireles começou a ter conflitos com a família aos 17 anos, após assumir sua homossexualidade. Os pais de Tiago tiveram dificuldade em aceitar a situação e as brigas começaram. As repressões e acusações contra o filho ficaram frequentes e tornaram o convívio insustentável. Aos 19 anos, Tiago decidiu sair de casa, mesmo sem ter condições de se sustentar sozinho. Ainda assim, contou com o apoio financeiro da mãe, mesmo que ela ainda não o aceitasse.

Hoje em dia, Tiago possui uma boa relação com os seus familiares

Tiago Meireles conta que, ao sair de casa, o sentimento era de raiva e irritação, confessando que agiu de maneira bem agressiva com os pais. Logo depois, o que sentiu foi tristeza. Seis meses após o episódio, Tiago estava no hospital com uma inflamação grave na garganta. Ao sair de lá, não voltou para onde morava sozinho e sim para a casa da família. Para Tiago, um ponto decisivo para a mudança de comportamento dos pais foi a percepção de que ele não ia ceder e, se continuassem a rejeitá-lo, iriam perdê-lo.

A partir da mudança de mentalidade dos pais, Tiago e a família conseguiram construir novamente uma boa relação. Hoje, os pais o aceitam e conversam abertamente sobre sua sexualidade. Tiago não deixa de enfatizar a importância que dá em ter um bom convívio com a família, sobretudo para enfrentar os desafios que encontra diariamente. “Por mais que a gente subestime, ter suporte dos pais em casa é muito importante. Eu continuo enfrentando problemas e preconceitos na rua, mas pelo menos em casa eu não tenho mais”.

Tiago não deixa de enfatizar a importância que dá em ter um bom convívio com a família
A busca por liberdade

Com Gabriela Silva*, os conflitos por liberdade se intensificaram na adolescência. O fato de o seu pai não a deixar ir a festas que não fossem na sua casa ou ir à casa de alguma amiga nunca fazia sentido para ela. “Coisas simples que um adolescente faz, como ficar até mais tarde na escola ou ir pra casa de algum colega, eu não podia e eu nunca conseguia entender o porquê. Nunca nem tinha um motivo. A resposta era: porque não quero”, relata. 

A falta de liberdade e autonomia durante a adolescência fez com que Gabriela se tornasse uma adulta insegura. “Hoje tenho extrema dificuldade de confiar nas pessoas. Conto nos dedos as que confio. Não ter liberdade fez de mim uma pessoa que tem medo de errar, porque isso ainda é algo incomum já que na maior parte da vida tive pessoas decidindo por mim”. 

Casada e com dois filhos, Gabriela, que mora com os pais até hoje, conta que algumas mudanças aconteceram após seu casamento. “Nunca pude passear com um namorado, só podíamos nos encontrar na minha casa, ao lado do meu pai. A primeira vez que saí sozinha com o namorado foi na lua de mel. Só mudou quando casei”, lembra. 

 *Gabriela Silva é um nome fictício, pois a fonte não quis ser identificada.


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