A vida sem redes sociais

Share Button
Em busca de sossego, menos ansiedade e exposição, cada vez mais pessoas têm abandonado suas contas virtuais

Ana Julia Chan, Ana Luisa Monteiro, Carolina Moreira e Matheus Souza

Certamente, muitas pessoas já têm conhecimento da relação direta que existe entre o uso exagerado de redes sociais e o aumento expressivo de transtornos de ansiedade e depressão. Esta última já é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), órgão ligado à Organização das Nações Unidas (ONU), como “o mal do século”.

Um estudo publicado pela Royal Society for Public Health, uma organização inglesa sem fins lucrativos, descobriu que o Instagram é a mídia social com maior impacto negativo para a saúde mental dos seus usuários. A pesquisa, que foi realizada com 1500 pessoas entre 14 e 24 anos do Reino Unido, descobriu que a rede social possui impactos negativos que vão desde distúrbios do sono até a ocorrência de casos de bullying.

De acordo com a CEO da Royal Society for Public Health, Shirley Cramer, o Instagram foi descrito pelos entrevistados como mais viciante que cigarros e álcool. Para os autores da pesquisa, os posts da rede social criam imagens que muitas vezes não são reais e isso gera sentimentos de inadequação e baixa autoestima em muitos usuários.

Para a psicóloga Andressa Cristina Cordeiro, o uso das redes sociais pode afetar o comportamento humano de diversas formas, mas a frustração é um dos sentimentos mais comuns que essa experiência pode causar. “Há uma tendência das pessoas compararem suas vidas com as que elas veem no mundo virtual. É muito preocupante porque elas passam a acreditar que, de fato, há uma vida ideal, um estilo e padrão de beleza ideais. A busca por essa “realidade” e esses padrões que não existem causa certa frustração”, esclarece. 

Diante desse cenário e dos recentes episódios em que Mark Zuckerbeg admitiu que 87 milhões de usuários do Facebook tiveram suas informações utilizadas sem sua permissão por empresas de publicidade, muitas pessoas têm preferido viver desconectadas de timelines, ou melhor, das redes sociais. É o caso da família Pereira.

Eles nunca conversaram ou fizeram um acordo de que não teriam contas no Facebook, no Instagram ou Twitter. Apesar disso, os três integrantes da família somente utilizam o WhatsApp. Os motivos pelos quais eles resolveram não utilizar outras mídias sociais são os mais diversos: desinteresse, excesso de exposição e até o incômodo constante de notificações.

A família Pereira se afastou das redes sociais pelo excesso de exposição, incômodo de notificações e por tomar muito tempo.
(Da esquerda para direita: Constantino, Pedro Henrique e Andrelina)

Para a matriarca da família, Andrelina, auxiliar de enfermagem de 49 anos, as redes sociais são desnecessárias e seus contras prevalecem sobre os prós. “Eu acho que às vezes a rede social te toma muito tempo. Ela te instiga a querer saber o que está acontecendo na vida do outro. Eu vejo o comportamento das pessoas ao meu redor e percebo que, na maior parte do tempo, é como se todos estivessem consumindo a vida alheia. Antigamente, nós tínhamos uma vizinha fofoqueira. Hoje em dia, todos viraram essa vizinha”, conta.

Já para o pai da família, Constantino, 48, o que mais o afasta das mídias sociais é o medo da exposição. “Eu não sei até onde vou estar exposto. Eu não me sinto muito seguro em ter de colocar todos os meus dados pessoais em uma plataforma que as pessoas utilizam basicamente para fins de entretenimento”, admite.

Indo na contramão da maioria dos seus colegas de sala, o caçula da família, Pedro Henrique, 13, afirmou que se sentia constantemente incomodado pelas notificações que costumava receber. “Gosto muito de ficar sozinho e, quando tenho muita rede social, eu recebo notificações o tempo todo. Era gente para responder ou só coisa boba, de coisas que curti ou comentei. Isso me atrapalha a jogar videogame e a ver TV”, explica.

FOMO

Apesar das diferentes queixas, todos os membros da família admitem que o principal ponto negativo de se viver afastado das redes é a demora com que ficam sabendo de algumas coisas. A família afirma que muitas vezes fica dependente de informações que chegam por meio de terceiros ou da televisão.

O lado negativo é que às vezes a gente começa a se sentir um pouco excluído da sociedade. A gente sente falta de ter acesso à informação em tempo mais rápido. Na maioria da vezes, a gente acaba sabendo das coisas um pouco mais tarde. Nós ficamos dependentes das pessoas que têm redes sociais. São elas quem nos contam das coisas, ou nos mandam por WhatsApp”, explica Constantino.

Esse medo de estar por fora ou da desinformação não é exclusivo da família Pereira. Na verdade, essa sensação tem se tornado cada vez mais comum nos dias de hoje, principalmente entre as pessoas que mais vivem conectadas. 

O fenômeno conhecido como FOMO (Fear of Missing Out) já vem sendo utilizado desde o início dos anos 2000 por diversos pesquisadores, mas se tornou ainda mais comum com a popularização das redes sociais. O termo se refere a uma inquietação ou uma sensação de angústia de que, ao deixar de navegar pelas redes sociais, se está perdendo algo ou deixando de saber sobre alguma coisa. O que pode parecer uma simples inquietação pode evoluir para quadros de ansiedade e até causar outros problemas de saúde.

Saúde Mental

Sabrinna Mendes, 22, excluiu o Facebook e o Instagram em 2017 e considera como a melhor coisa que poderia ter feito. Ela explica que em meados de 2014, ainda no Ensino Médio já sentia-se incomodada com a forma com que as pessoas utilizavam as redes sociais.

“O que mais me incomodava era a falsa sensação de felicidade que existe nas redes sociais. Parece que a vida de todos é perfeita. Isso me fazia mal, eu me comparava com as vidas que eu via na internet”, ela conta.

Depois de sair das redes sociais, as crises de ansiedade de Sabrinna diminuíram e agora ela consegue aproveitar melhor o seu tempo.

Quando usava o Instagram, Sabrinna tinha o hábito de seguir pessoas que admirava. Todavia, ela explica que esse comportamento despertou um lado de si que se autossabotava. “Eu queria alcançar aquela vida que via nas fotos, mas eu não conseguia. Isso fazia com que eu me sentisse um fracasso”, descreve.

Sabrinna somente tomou conhecimento do impacto que as redes sociais representavam em sua saúde quando começou a ter crises de ansiedade e, posteriormente, descobriu que estava com depressão. Foi quando, por iniciativa própria, decidiu excluir todas as redes sociais e ficar somente com o WhatsApp.

“Sair desse meio permitiu que eu me doasse mais às minhas experiências e às vivências com as pessoas que eu amo. Eu comecei a viver sem me preocupar em mostrar isso para as pessoas”, destaca.

Depois de quase dois anos enfrentando a ansiedade e a depressão, Sabrinna conta que hoje vive muito melhor. “Sair delas me causou um tremendo bem-estar porque eu me resguardo de ver coisas que poderiam ser gatilhos para mim. Minhas crises de ansiedade diminuíram muito, sem contar que consigo aproveitar melhor o meu tempo”.

Atualmente, ela não tem dúvidas de que tomou a decisão certa em se desligar das redes sociais. Quando perguntada se pensa em criar novas contas, Sabrinna é categórica em afirmar de que para o mundo virtual não retorna mais. “Eu acredito que muitas pessoas conseguem gerir melhor o uso que fazem dessas mídias, mas para mim não dá certo. Prefiro me manter afastada”, conclui.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *