Suicídios no Espírito Santo atingem o maior índice em 23 anos

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Dados do Datasus mostram que a maioria dos casos ocorre em ambientes domésticos, mas tentativas de suicídio na Terceira Ponte também cresceram

Isadora Wandenkolk; Síntia Ott

As bandeiras amarelas ganham destaque no mês de setembro, mas o assunto ainda é pouco abordado nos demais meses. | Foto: Síntia Ott

O número de ocorrências de suicídio no Espírito Santo chegou a 233 no ano de 2018, o maior índice já registrado no estado pelo Painel de Monitoramento da Mortalidade do Datasus (Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde). Os suicídios começaram a ser contabilizados em 1996. 

Os dados do ano de 2018 ainda são preliminares, mas indicam um crescimento acentuado dos suicídios no estado. Se analisados por localidade, os suicídios em domicílio dominam e correspondem a 57% do total, seguidos pelos ocorridos em hospitais (17%), outros (15%), vias públicas (8%), outros estabelecimentos de saúde (3%) e locais ignorados (0,4%). 

Comparando os índices de 2017 e 2018, nota-se um crescimento em todas as categorias de localidade, exceto em ‘hospital’ e ‘outros estabelecimentos de saúde’. 

Os suicídios ocorridos em domicílio também são os mais frequentes desde 2001, ano em que o filtro por local de ocorrência começou a existir. Antes disso se registrava apenas o valor total. Na sequência, por critério de maior quantidade durante os últimos 18 anos, estão os suicídios ocorridos em hospitais e ‘outros’ locais, com alternâncias de dominância entre as categorias em dois momentos (2001 e 2015). 

Os suicídios em vias públicas quase sempre estiveram na quarta posição. Foram superados pelos cometidos em locais ignorados apenas em 2005 e 2006.
De acordo com os dados da Concessionária Rodovia do Sol (RODOSOL), cerca de 41% dos suicídios no Espírito Santo em 2018 ocorreram na Grande Vitória. Só na Ponte Deputado Darcy Castello de Mendonça, popularmente conhecida como Terceira Ponte, foram contabilizadas 71 tentativas de suicídio; sete culminaram em suicídio. As informações foram obtidas via Lei de Acesso à Informação (LAI).

O monitoramento da situação na Terceira Ponte pela Rodosol possibilita verificar que, desde 1999, os suicídios ocorridos somam índices mais baixos em relação às tentativas. No entanto, houve aumento do número de pessoas que tentaram suicídio no período de 2015 a 2018 em aproximadamente 44%. 

As estatísticas da Rodosol e do Datasus sobre suicídios no Espírito Santo não coincidem com exatidão, mas as diferenças não prejudicam a visualização do panorama geral de crescimento dos casos. 

Terceira Ponte é foco das ações preventivas 

Por ser um ponto de preocupação, a Terceira Ponte conta com um plano de contingências para situações de emergência e crise desde 2016, além de câmeras monitoradas por uma equipe preparada. 

A Agência de Regulação de Serviços Públicos (ASPR) realizou uma Consulta Pública no ano passado destinada à análise de quatro projetos conceituais para implementação das barreiras de proteção na ponte. O período de votação foi encerrado em janeiro deste ano, com um total de 15.801 votos.

“A restrição aos meios é uma prática preventiva altamente eficaz”. Tiago Zortea, PhD em Suicidologia.

O projeto mais votado foi a opção n° 2, modelo que propõe construção de estruturas laterais rebaixadas em fibras, com custo estimado de R$ 25.213.463,14, excluídos os custos com iluminação especial. Esse projeto recebeu 54,4 % do total de votos. 

A ASPR informou que o resultado da Consulta Pública, de caráter opinativo, foi encaminhado ao Governo do Estado e, no momento, está sendo avaliado em quesitos técnicos e econômicos. 


”Não há uma única forma de prevenção ao suicídio que possa ser eleita como mais eficiente. Idealmente, todas as formas devem ser implementadas ao mesmo tempo”, diz Zortea, desmitificando a ideia de que há métodos de prevenção mais importantes que outros | Foto: arquivo pessoal.

O especialista em comportamento suicida e membro do Suicidal Behaviour Research Laboratory (SBRL) Tiago Zortea reconhece esses esforços de implementação da instalação de proteções na ponte como louváveis. “A restrição aos meios é uma prática preventiva altamente eficaz, e é responsabilidade dos órgãos públicos reduzir o acesso a tais meios em vias públicas”, afirma. 

Por ser uma das principais passagens da região metropolitana, o trânsito de parte da Grande Vitória é prejudicado quando qualquer anormalidade acontece e suas vias de acesso precisam ser fechadas. Pensando nisso, em dezembro de 2018, a ponte foi fechada por cerca de três horas para o treinamento de militares do Corpo de Bombeiros, da Polícia Militar e de Guardas Municipais de Vitória e Vila Velha, em uma simulação de situação de emergência. 

Os resultados da ação estão refletidas nas estatísticas. Embora os números sejam alarmantes, os dados mostram que cerca de 90% das tentativas de suicídio são impedidas pelas equipes de resgate.

Zortea alerta sobre risco de contágio de comportamentos suicidas quando o assunto é suicídio em via pública. O fenômeno é chamado de “Efeito Werther” ou “Copycat Suicide”. “Quando há um hotspot [nome dado a um local público onde há incidências de tentativas de suicídio] na cidade ou na comunidade, a população faz a associação direta daquele local à possibilidade do suicídio, ampliando o repertório de risco de muitas pessoas vulneráveis. Se alguém no futuro pensar em suicídio, os métodos disponíveis e de fácil acesso serão alguns dos primeiros a serem considerados pela pessoa que sofre, inclusive os locais públicos”, explica.  

O investimento em outros locais é escasso

Embora a Terceira Ponte receba grande atenção, há outros locais, além desse, que a merecem o cuidado dos poderes públicos, principalmente no que se refere ao desenvolvimento de estratégias de prevenção do suicídio. 

Solicitamos acesso aos gastos do Governo do Estado do Espírito Santo em campanhas de prevenção do suicídio dos anos de 1996 a 2018 à Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo (Sesa), via LAI. A Subsecretária de Estado da Saúde para Assuntos de Regulação e de Organização da Atenção à Saúde respondeu que as atividades de prevenção realizadas durante esse período, compreendendo seminários, palestras e ações conjuntas com outros parceiros, não geraram custos à Saúde. 

Apenas em 2019 há registro de despesas com prevenção do suicídio, cujo valor total é de R$ 1.650,00, relativo à produção de 3000 unidades de folders de prevenção do suicídio. 

O especialista em comportamento suicida Tiago Zortea ressalta que não há uma única forma de prevenção ao suicídio que possa ser eleita como a mais eficaz. “Idealmente, todas as formas devem ser implementadas ao mesmo tempo, uma vez que a variação do comportamento suicida é vastíssima. Todos os suicídios e tentativas de suicídio devem ser evitados, e não apenas aqueles que ocorrem com  mais frequência em um determinado local”, esclarece. 

O investimento para a prevenção ao suicídio no estado, entretanto, tem sido direcionado, prioritariamente, para apenas um local. 

Formas de prevenção e entraves

Tiago Zortea explica que algumas práticas de prevenção podem ser mais ou menos eficientes em função do grupo etário, gênero, histórico de saúde mental, grupo socioeconômico, acesso a serviços de saúde, acesso aos meios de suicídio e outros fatores. “A partir desse contexto, quando implementamos todas as práticas possíveis de prevenção, ampliamos significativamente as chances de redução da ocorrência de comportamentos suicidas e autolesivos, independente de seu local de ocorrência”, argumenta. 

O pesquisador aponta que, dentro dos níveis mencionados, há diversos problemas que ainda precisam ser resolvidos para que haja um estado satisfatório de prevenção ao suicídio. “No nível dos relacionamentos interpessoais, por exemplo, há ainda muitos mitos a serem desfeitos sobre pensamentos e comportamentos suicidas. Existe muita desinformação circulando por boa parte da opinião pública, e toda oportunidade de desfazer tais mitos ainda é pouca”, observa.

Diagrama da OMS com as formas de prevenção ao suicídio correspondentes aos respectivos níveis (traduzido)

Fonte: Preventing suicide: A global imperative. Copyright 2014. Copyright World Health Organization. Geneva, Switzerland.

Não é raro escutar que tentativas de suicídio são “apenas para chamar atenção”, por exemplo. Zortea alerta que tais expressões de indiferença podem contribuir não apenas para o aumento do sofrimento de pessoas em situação vulnerável, como também para o fortalecimento de um fator psicológico denominado percepção de incômodo. “Diversos estudos têm repetidamente mostrado que quando alguém sofre de dificuldades de saúde mental e se percebe como um peso ou incômodo para as outras pessoas, as chances de buscar ajuda profissional se reduzem, aumentando o risco da ocorrência de pensamentos e tentativas de suicídio”, adverte.

Já no que se refere ao nível estrutural, por exemplo, a dificuldade de acesso aos serviços de saúde, bem como a falta da provisão de tais serviços em muitas áreas do país são alguns dos principais problemas. “A implementação de políticas de saúde mental deve ser uma prioridade para todos os níveis governamentais. Isto envolve alocação de investimentos para a ampliação do número de profissionais de saúde mental, treinamento contínuo de tais profissionais, e desenvolvimento de pesquisa”, aponta o pesquisador. 

Para Zortea, investir em programas sociais, geração de oportunidades e redução de desigualdades socioeconômicas são também importantes formas de prevenir o suicídio. Ele explica que cerca de 75% dos suicídios no mundo ocorrem nas áreas economicamente desfavorecidas, segundo relatório feito pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2014. 

Ligue 188

O Centro de Valorização da Vida (CVV) realiza um trabalho de apoio emocional e prevenção ao suicídio, com atendimentos voluntários e gratuitos à todas as pessoas que querem e precisam conversar. Com sigilo garantido, a equipe da CVV funciona 24h todos os dias. Procure ajuda, ligue 188 ou acesse www.cvv.org.br.

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