Projetos de pesquisa e extensão da Ufes perdem bolsas e correm risco de acabar

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Cortes orçamentários impostos pelo Governo Federal suspendem mais de mil bolsas e afetam atividades que atendem um público de 2 milhões de pessoas 

Ana Julia Chan, Ana Luisa Monteiro, Carolina Moreira e Matheus Souza

Projeto de nutrição, coordenado pela professora Valdete Guandalini, atende mulheres no período pós-menopausa

“É com muito pesar que informamos à comunidade capixaba, aos bolsistas e coordenadores das ações de extensão o cancelamento das bolsas de extensão”. Este foi o início da última nota publicada pelo portal da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) acerca dos cortes impostos pelo Ministério da Educação (MEC). Desta vez, 1.100 benefícios do Programa Integrado de Bolsas (PIB) foram suspensos, entre eles mais de 200 bolsas de Iniciação Científica e mais de 500 bolsas dos Projetos de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão (Paepe). 

A pró-reitora de Extensão, professora Tânia Mara Delboni, destaca que é inegável a importância da extensão da Ufes para todo o estado do Espírito Santo, principalmente no que tange aos benefícios propiciados à população via programas, projetos e ações de extensão, que atendem um público de 2 milhões de pessoas em todos os municípios capixabas e envolvem 2.200 servidores (entre docentes e técnicos) e 4.500 alunos.

Pró-reitora de Extensão, professora Tânia Mara Delboni, esclarece situação dos cortes orçamentários

“Temos hoje projetos de extensão em todas as áreas de conhecimento e formação, a maior parte deles na área da saúde. Devido aos cortes, mais de mil bolsas foram suspensas, sendo 165 delas na Extensão. Sabemos que a suspensão das bolsas tem um grande impacto na vida dos estudantes, até mesmo para a sua permanência na Universidade, o que é uma preocupação constante dessa gestão. Estamos atentos a todas as possibilidades para revertermos esse quadro”, afirma.

O investimento mensal no programa de bolsas era de R$500 mil. O auxílio, em torno de R$400 por aluno, é o que ainda mantém a permanência de muitos dentro da Universidade. Como é o caso do Thiago Folz Oliveira, do curso de Psicologia, que recebe uma bolsa de iniciação científica do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O estudante mora em Cariacica com a família e conta que não pode contar com a renda familiar para permanecer na universidade como pesquisador. O dinheiro da bolsa paga os custos do curso que é integral e garante a sua dedicação à pesquisa. 

“Chegar na Ufes às 8h e sair às 22h é difícil se você não tem recursos para se manter. Fico na ansiedade da minha bolsa ser cortada e eu não conseguir concluir a minha pesquisa sem esse aporte”, conta Thiago. Além da pesquisa, o estudante faz parte de outros projetos de extensão da universidade de forma voluntária, como atendimento clínico para a comunidade externa e oficinas.

Ações de alunos voluntários chama a atenção nos projetos da Ufes

No Centro de Educação Física e Desportos (CEFD), a estudante Nathália Luchi oferece, voluntariamente, aulas de dança para o projeto “Dança Ufes” todas as terças e quintas-feiras de 18h às 19h, desde agosto de 2018. A única bolsa que contempla o projeto, que passaria para o estudante e professor assistente do projeto Renan Rocha Vieira, foi suspensa com o último anúncio feito pela Ufes. 

Os voluntários do projeto “Dança Ufes” Renan e Nathália

Uma das preocupações dos voluntários é de qual será a situação do projeto quando eles se formarem. “Muita gente vem conversar sobre o receio que existe com o fim do projeto. Todos os alunos falam que a dança os faz muito bem, ajuda a levar o curso de forma mais leve e a vida de forma mais saudável. O projeto afeta a relação com os outros, o convívio, porque a aula é alto astral e a gente se diverte”, comenta Nathália.

Já a estudante Clisciane Cupertino, também de Educação Física, foi bolsista por dois semestres no Núcleo de Lutas e há três anos atua como voluntária, após sua bolsa ter sido cortada. O projeto, coordenado pelo professor Fábio Loureiro, oferece aulas de judô para crianças e adultos todo semestre, sempre às terças e quintas-feiras, é também aberto para a comunidade externa sem cobrança de taxa de matrícula e mensalidade.  

“Mais de 200 alunos já participaram das aulas de judô que o projeto oferece. Neste semestre, eu dou aula para uma turma de 20 crianças e outra de 20 adultos. Para que o projeto não acabasse, eu optei por continuar sem a bolsa remunerada”, declara Clisciane.

Professora voluntária Clisciane com seus alunos de judô Valentina, Arthur e Miguel

Ela ainda destaca a falta de recursos que o projeto enfrenta neste semestre e teme o futuro. “Os kimonos que as crianças estão usando foram ofertados pelo projeto ‘Campeões do Futuro’, em forma de parceria, mas para o próximo semestre fica a incerteza”. Apesar de todas as dificuldades, o que prevalece é a paixão pela profissão e o desejo de continuar lutando por uma causa. 

Josué Nunes também foi afetado pelo corte das bolsas. Desde 2016 ele participa do Comunicaê, um projeto de extensão que visa estimular a reflexão crítica dos alunos da rede pública de ensino acerca da mídia. Após um ano e meio atuando como voluntário, ele conseguiu progredir para bolsista do projeto, mas sua animação foi passageira. No início deste ano Josué perdeu o auxílio de R$400,00 que recebia.

O estudante de Publicidade e Propaganda conta que a perda da sua bolsa se deu em meio a uma série de cortes que a Universidade teve de fazer. “Esse valor me ajudava bastante com as minhas próprias despesas em relação ao curso e vida cotidiana, me dava maior autonomia e me permitia ser menos dependente dos meus pais”, explicou.

Assim como muitos me tornei efeito colateral”, Josué Nunes

Josué, que era o único bolsista do Comunicaê, afirma que mesmo com a perda do auxílio não abandonou o projeto. Apesar disto, ele explica que as atividades foram comprometidas pelos cortes. “O Comunicaê não tem previsão de visita às escolas por hora, mas pretendemos continuar com grupo de estudos, que é uma das nossas atividades. É uma pena, muitas pessoas que participam do projeto estavam empolgadas para ver a parte teórica se encontrar com a prática”, afirmou.

No Centro de Ciências da Saúde (CCS), no campus de Maruípe, a professora de Nutrição, Valdete Regina Guandalini, é responsável pelo projeto que avalia o consumo alimentar, estilo de vida e composição corporal em mulheres pós-menopausadas. A mestranda Geise Cruz e os graduandos Tatiana Mion Lunz, Camila Vilarinho Vidigal e Reinaldo Assis são quem participam da parte ambulatorial do projeto atualmente. 

Mestranda Geise, professora Valdete e os graduandos Tatiana, Reinaldo e Camila, da esquerda para direita

Em funcionamento todas às terças-feiras, na Casa 2, mais de 80 mulheres já foram atendidas pelo projeto. Além da orientação geral oferecida, os alunos também elaboram planos alimentares com o objetivo de melhorar a qualidade de vida das pacientes.

Para a professora Valdete uma das partes mais importantes da experiência é o contato dos alunos com a população. “Essa vivência é fundamental para a formação dos alunos. É muito importante unir a teoria à prática. As pacientes são muito participativas.  A gente gosta de recebê-las. As consultas que deveriam durar cerca de 50 minutos às vezes duram até 1 hora e meia. Essa troca é muito legal”, explica. 

Vemos muita teoria dentro da sala de aula, mas a prática é completamente diferente. O contato com o público faz toda a diferença”, Camila Vidigal

Ativo desde maio de 2018 com alunos voluntários, em setembro deste ano, os voluntários tornariam-se bolsistas, mas antes mesmo de receberem o primeiro auxílio, veio a notícia: as bolsas foram suspensas. 

Dentre tantas preocupações, os estudantes destacam como os cortes podem afetar a permanência dos alunos e a continuidade do projeto. “Todas as pessoas que poderiam se dedicar integralmente com o estímulo da bolsa, acabam tendo que procurar outra forma de ganhar dinheiro fora da Universidade, seja com estágios ou serviços fora da área. Assim, a pesquisa acaba defasada”, comenta o estudante Reinaldo. 

“A bolsa incentiva a gente continuar. É um incentivo para que os alunos participem. Muita das vezes não é nem falta de interesse do aluno pelo projeto, mas sim a necessidade de buscar outra alternativa para manter a graduação”, acrescenta Tatiana. 

Futuro de projetos essenciais na graduação é incerto

A manutenção das bolsas do Programa Institucional de Apoio Acadêmico (PIAA), voltado ao suporte dos graduandos nas disciplinas que possuem um certo grau de dificuldade, também são incertas, devido ao corte de gastos anunciado pela Ufes. Ao todo, existem 15 projetos cadastrados com o objetivo de diminuir a evasão e retenção de estudantes dos cursos de graduação, no entanto, as bolsas estão garantidas só até o mês de dezembro, já que ainda existe um contrato em vigência.

Victor e Matheus dão suporte aos graduandos recém-chegados à Universidade

Do Centro de Ciências Jurídicas e Econômica (CCJE), o projeto “Orientação para leitura e redação de textos acadêmicos em Economia” se enquadra nesse perfil. Coordenado pela professora Neide Vargas, atende em média 40 alunos por semestre, além disso possui dois bolsistas – pelo menos até o final do ano. O estudante de economia Matheus Neves é um deles. Para ele, as monitorias tentam romper alguns paradigmas de aprendizagem do ensino médio referente à escrita e a leitura acadêmica e o fim será prejudicial para os os graduandos.  

Já o estudante de letras português-italiano Victor Nodari atua há um ano como bolsista. Ele acredita que a perda de um projeto que auxilia os alunos que acabaram de sair do ensino médio a enfrentar o ambiente acadêmico, irá afetar diretamente a permanência devido a complexidade das disciplinas. “Quando eu entrei na graduação não tive a oportunidade de fazer parte desses encontros de direcionamento e apoio às disciplinas do meio acadêmico. Participar de projetos que oferecem esse suporte, sem dúvidas faz muita diferença em toda a graduação”, conta.

Neide Vargas, coordenadora do programa de ensino do curso de Economia, afirma que o projeto ficará comprometido com os cortes

A coordenadora Neide Vargas destacou que o sentimento do momento é a preocupação. Aflita com os impactos que o fim do projeto trará a longo prazo na vida acadêmica dos calouros e do curso de Economia em si, ela destaca que o programa que existe desde 2016 “funciona como um mecanismo de apoio aos alunos recém-chegados à universidade, visto que muitos chegam com dificuldades em matemática e com a leitura e escrita de textos científicos”. 

Para Vargas, o programa tem auxiliado o curso de economia a reduzir a taxa de desligamento de alunos, além disso tem contribuído para formar estratégias inovadoras no processo de aprendizagem. “O ensino dos alunos ficará comprometido com os cortes, acredito que será um prejuízo brutal. Eu não consigo imaginar os alunos sem esse projeto de ensino”.

Museu da Ufes referência em Geociências tem bolsas cortadas

No segundo piso do prédio IC-2 do Centro de Ciências Humanas e Naturais (CCHN) do campus de Goiabeiras da Ufes, encontra-se o Museu de Minerais e Rochas, um projeto de pesquisa e extensão coordenado pelo Departamento de Oceanografia e Ecologia. O espaço, fundado há quase vinte anos, é um dos principais centros de difusão de conhecimentos de Geociências para a sociedade. Referência no campo das Ciências da Terra para o estado do Espírito Santo, o museu abriga um grande número de amostras de rochas e minerais, já tendo atendido cerca de 20 mil pessoas.

O Museu de Minerais e Rochas abriga disciplinas de diversos cursos da universidade que se relacionam com as Geociências, como os cursos de Oceanografia, Geografia, Ciências Biológicas e Arquitetura. O espaço é de fundamental importância nos processos de ensino-aprendizagem por oferecer de forma prática os conteúdos aprendidos pelos estudantes. Flávia Aparecida Sabino Thomes, do curso de licenciatura em Geografia da Ufes, interessou-se pelo museu após aprender sobre Geologia e se apaixonar pela matéria. 

Flávia Thomes perdeu a bolsa na mesma semana que tinha conseguido. Apesar do corte, continua como voluntário no museu

Depois de correr para conseguir os documentos necessários a tempo e as assinaturas que precisava para pleitear uma bolsa de pesquisa pelo Projetos de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão (Paepe). Flávia conseguiu ser bolsista do Museu. Em sua primeira semana como bolsista, teve a oportunidade de participar de um evento em Venda Nova do Imigrante onde apresentaria o projeto para a cidade. Foi lá que ela descobriu, com uma mensagem do seu professor coordenador, que a bolsa que havia conseguido tinha sido cortada. “Eu estava feliz, ansiosa e já me sentindo parte do projeto. Até que recebi a informação de que minha bolsa tinha sido suspensa. Logo na minha primeira semana, eu já não tinha mais a bolsa. Nunca recebi nada. Um dinheiro que ia me ajudar muito”.

Flávia saiu da comunidade rural de Meia Légua, no interior de Santa Leopoldina, para estudar na Ufes. Os pais trabalham duro para mantê-la na universidade, mas as despesas são grandes. O dinheiro da bolsa ajudaria Flávia a pagar as contas, comprar comida e suprir as despesas com os estudos e projetos que participa. Mesmo sem a bolsa, Flávia continua no Museu como voluntária. “Quero continuar no Museu porque, além de ser fascinada pelo lugar, acredito no conteúdo que ele pode oferecer”. 

Laboratório que estuda um dos rios que abastece Cariacica pode ser fechado

Realizar pesquisas em desastres naturais, monitoramento de solo e água, e controle de deslizamento de terra são algumas das atividades realizadas pelos laboratórios do curso de Geografia da Ufes: Laboratório de Geografia Física e Laboratório de Monitoramento e Modelagem de Sistemas Ambientais (Lamosa). Ambos tiveram o oferecimento de bolsas de pesquisa e extensão suspenso, bem como recursos cortados para realizar as atividades laboratoriais.

Grande parte dos trabalhos desenvolvidos no Lamosa tem como objeto-estudo a reserva biológica Duas Bocas, em Cariacica Sede. Os estudos na reserva tem como objetivo a preservação da mata nativa do local e a valorização da área como fonte de água. Em época de escassez de água, o rio Duas Bocas abastece a região de Cariacica. Os pesquisadores do laboratório realizam o controle geral da bacia do rio, a fim de saber se há assoreamento, possibilidade de secar, entre outros. 

Filipe Bertholini Silva, do curso de Geografia, faz parte dos dois laboratórios e já foi bolsista de iniciação científica antes para o Lamosa. Este ano, Filipe receberia uma bolsa de extensão para dar continuidade à sua pesquisa. “O corte me pegou de surpresa, não veio comunicado nenhum com antecedência. Eu assinei contrato, já estava em vigor o edital da bolsa e do nada recebo a informação que não vou receber o recurso. Eu tinha um contrato, um compromisso com o laboratório, agora não tenho mais nada”.

Filipe Bertholini Silva conta que, sem recursos, não sabe até quando o laboratório de Geografia Física conseguirá se manter

Filipe conta que o corte de bolsas é limitante, mas não faz o laboratório parar de funcionar. O que está sendo pior para o laboratório é a falta de recursos para ir a campo. “Aqui a gente processa amostras, se não tem como ir a campo, não tem amostras, não tem pesquisa. A tendência é, do jeito que está, o laboratório ser fechado”.

Apesar do corte, Filipe continua no laboratório como voluntário, para concluir a pesquisa que iniciou, mas não sabe até quando o laboratório conseguirá se manter. Para Filipe, as bolsas são um atrativo para o laboratório, além de garantir o compromisso do aluno com a pesquisa. Sem as bolsas, o coordenador de pesquisa fica sobrecarregado e o funcionamento do laboratório limitado. “A sensação é de tristeza, porque os laboratórios que antes funcionavam sempre agora tem escala, só três dias semanais. Eu vejo que a Universidade vem perdendo sua força”. 

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