Representatividade feminina na Copa Ufes

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Giovanni Werneck, Lavynia Lorenção, Marcela Delatorre e Robson Silva

A Copa Ufes é um evento esportivo tradicional da Universidade, organizado pela Atlética Central dos Estudantes. Em um momento em que as mulheres estão cada vez mais ocupando o ambiente esportivo, o campeonato conta com a presença feminina para alavancar as disputas. O torneio é aberto a todos os cursos dos campi. Em 2019, a Copa reúne nove modalidades. 

No início deste mês, a Atlética Central, por meio de seu presidente, Bernardo Figueiredo, deu início à competição. As primeiras modalidades foram futsal (22/09), vôlei de quadra (01/09; 14/09 e 15/09) e de praia (21/09), nas categorias masculina e feminina. Logo no primeiro dia, a Copa já ferveu! A presença feminina no vôlei, através das equipes de História e Direito, marcou aquela tarde com um jogo disputado, bem-apertado e que gerou debate. Apesar da vitória da equipe de História declarada em quadra, a equipe do Direito entrou com um recurso na Atlética Central por causa de uma confusão. Já no final, no tie-break, uma atleta do Direito se contundiu e teve que sair. Por não ter ninguém para substituí-la, o jogo foi encerrado e a vitória foi dada à História. Um fator que contribuiu para a animação e, por consequência, a vitória da equipe, foi a presença da torcida, que compareceu em massa. Relembre o primeiro dia da Copa através dos stories da Atlética Central.

Neste ano, a presença feminina no âmbito esportivo aumentou, de modo geral. Após o recorde de público visto na Copa do Mundo feminina, o número de equipes inscritas no Capixabão triplicou desde o último ano. Em 2018, o campeonato contou com três times femininos, já este ano, são nove equipes. Entretanto, a representatividade feminina é muito baixa se comparada ao masculino e isso se reflete na Copa Ufes. Para Déborah Loureiro, presidente da Atlética das Engenharias da Ufes, a representabilidade da mulher é um reflexo histórico da visão de que o esporte é ‘coisa de homem’. “Isso se dá pela cultura de incentivo ao esporte masculino ser bem maior do que o feminino, gerando uma insegurança de se ter mulheres no comando das equipes esportivas, já que existe o discurso de que os homens possuem um conhecimento maior”, afirma Loureiro.

O futsal é a modalidade que melhor demonstra a disparidade existente entre as categorias masculina e feminina. Na Copa Ufes, o número de equipes inscritas para os confrontos masculinos foi 31, enquanto para os confrontos femininos o número foi de 11 times inscritos. Déborah acredita que isso se deve ao fato de que a grande maioria das universitárias entram sem ter um histórico esportivo. “Além da dificuldade de achar alunas que tenham práticas nos esportes, temos que lidar com um processo de convencimento daquelas que tem interesse, mas que por falta de técnica e experiência, se sentem desconfortáveis em participar de torneios”, ressaltou.

Torcida presente nos jogos de vôlei. Foto: Panteras Ufes

MAIS IGUALDADE

Para tentar mudar isso, as organizações esportivas da Ufes, como as Panteras, da Comunicação Social, aparecem com o propósito de ser diferente. “Desde o início, um dos principais objetivos da gestão é garantir um espaço de igualdade e respeito a mulher, e isso está sendo cumprido.”, relata Andressa Antunes, diretora de esportes da AAACS. Andressa foi perguntada se já havia sido contestada dentro da instituição por ser mulher. Conheça mais sobre a Atlética de Comunicação Social aqui.

As Panteras estão com uma nova gestão, que se iniciou agora em junho. A proposta do grupo é dar protagonismo ao feminino, por isso, cinco dos seis cargos da diretoria são ocupados por mulheres. 

Apesar do desejo de aumentar a quantidade de mulheres envolvidas com o esporte, as Atléticas sofrem também com a dificuldade para inscrevê-las nas equipes. Para Vitória Bordon, presidente das Panteras, essa dificuldade é devido a falta de incentivo que elas sofrem desde cedo no meio esportivo. “As mulheres chegam ao ensino superior depois de anos ouvindo que esporte é ‘coisa de menino’. […] Existem muitas meninas interessadas em praticar modalidades, mas existem muitos talentos que não foram descobertos por falta de oportunidade”, disse.

Os principais pontos do Plano de Gestão da Atlética estão elencados abaixo: 

Somente em 2019, um ano e meio após sua criação, as Panteras conseguiram montar um time inteiramente feminino e participar da Copa Ufes, participando do futsal e do vôlei. Em novembro de 2018, a equipe de vôlei feminino foi campeã da Copa das Comunicações, que reúne todas as atléticas de Comunicação da Grande Vitória. Definitivamente, a presença feminina está sendo o ponto alto das Panteras no ambiente esportivo universitário.

Atletas das Panteras em comemoração. Foto: Panteras Ufes

‘AMBIENTE MACHISTA E MISÓGINO’

A presidente das Panteras conta que já teve sua capacidade de gestão questionada diversas vezes por outros grupos da própria Universidade. “Nossa gestão e nossa atlética, de um modo geral, tem como missão dar espaço e voz para as mulheres no ambiente esportivo. E muito embora isso seja um ponto comum entre as pessoas do curso, ainda existem aqueles que questionam se sou realmente eu que estou a frente da gestão e não o presidente da gestão anterior, que é homem. Frequentemente tenho minha capacidade questionada por outras pessoas, como se eu não fosse capacitada o suficiente para o cargo”, confessa Bordon.

O ambiente também não é agradável na relação com outras atléticas. “O desrespeito é ainda mais aparente, já que o universo esportivo de modo geral é extremamente machista e misógino. Tudo isso é agravado pela pouca presença de mulheres na gestão dessas instituições e pela falta de preocupação sobre o modo como essas mulheres são tratadas/representadas nesses ambientes”. Bordon ainda asserta que o principal obstáculo seja a mentalidade retrógrada das pessoas. Isso impede que muitas meninas pratiquem esportes na infância e, a partir disso, uma série de dificuldades surgem. “Fica mais difícil formar categorias de base e quando essas mulheres chegam à Universidade elas naturalmente não buscam preencher esses espaços, já que nunca foram bem vindas ali”.

É mais difícil engajar alguém que, há muitos anos, tem sua existência violada nesses ambientes.”

Chama atenção, também, o fato de as modalidades masculinas receberem todo o tipo de incentivo. Maior visibilidade, mais patrocínios e mais credibilidade, por exemplo. Contudo, essa realidade não diminui a motivação das mulheres participantes. “Vejo que as diferenças estão diminuindo a pequenos passos, mas ainda há um longo caminho. Tudo passa pela diferença entre os incentivos, estrutura e visão sobre o esporte para cada gênero. Temos conquistado cada vez mais espaço e vamos aos poucos mudar essa realidade. Se sentir representada e compreendida nesse meio é muito importante, pois sabemos que as dificuldades enfrentadas pelas mulheres no esporte vai muito além do que aquelas enfrentadas pelo gênero masculino. Mulheres em cargos de liderança significam uma visão concreta sobre essas problemáticas relacionadas ao gênero, então é um facilitador na hora de enfrentá-los”, ressaltou Andressa. 

A mudança de pensamento é a chave para facilitar a presença feminina no esporte. “Tive muita sorte de nascer em um ambiente onde fui encorajada a conhecer e praticar todos os esportes que quisesse. Sempre assisti fascinada as mais diversas modalidades e tive contato com várias delas, e até hoje o esporte representa uma das partes mais importantes da minha vida”, conclui.

É possível perceber, então, como um pequeno incentivo pode fazer toda a diferença na perspectiva de pertencimento das mulheres na Universidade e na sociedade em geral. 

Pódio das equipes de vôlei de praia. Foto: Atlética Central

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