À luz das culturas esquecidas

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Por Giulia Reis, Lydia Lourenço, Maria Clara Stecca e Sthefany Duhz

Projetos culturais na Ufes buscam promover o debate acerca de tradições e costumes para além dos muros da universidade

Reprodução: Século Diário

Os costumes e tradições tem um grande valor no processo de construção cultural da nossa sociedade. Sejam os regionalismos, sejam os processos culturais que vieram de fora e já integram a nossa cultura, sejam também os novos costumes.

De um modo ou de outro, as diferentes práticas culturais com as quais interagimos nos influenciam e também nos possibilitam influenciar o meio no qual estamos inseridos. O espaço universitário é um ambiente que proporciona experiências e o contato com essa diversidade, se dá não só na vivência com colegas de classe, mas também através de projetos de pesquisa e extensão que trazem a tona culturas invisibilizadas e muito negligenciadas, tanto ao público interno quanto a comunidade externa à Universidade.

A  produtora cultural da Cia de Dança Andora e recém-formada em Educação Física pela Ufes, Laís Loyola,  acredita que além de auxiliar na formação profissional dos participantes, a companhia contribui para o desenvolvimento pessoal de seus membros. O grupo surgiu em 2008 como uma iniciativa de alunas do curso junto ao Professor e atual coordenador do projeto, Antônio Carlos Moraes, a fim de pesquisar e trabalhar manifestações populares do Brasil com foco na dança. 

 “Ao longo de 11 anos de história, o grupo formou dezenas de professores que hoje atuam na divulgação e  manutenção da cultura popular brasileira em redes de ensino públicas e particulares” relata a produtora.

A integração do projeto com a população ocorre através de ações sociais relacionadas à cultura e lazer, e também por meio de pesquisas de campo em comunidades tradicionais. A Andora desenvolve semestralmente oficinas pedagógicas para professores e alunos da rede básica de ensino, além de realizar festivais e apresentações em escolas e espaços públicos.

Assim como o ensino e a dança, a mídia também desempenha um papel importante na nossa formação cultural. Da televisão, passando pelo rádio até a internet com as mídias sociais, diariamente as pessoas consomem conteúdo que vão formando suas vivências culturais

Como forma de ação afirmativa, suprindo uma carência da abrangência da cultura africana dentro da mídia tradicional, surgiu em 2011 o Programa Afrodiáspora, vinculado ao Núcleo de Estudos Afro Brasileiros (Neab) e transmitido pela Rádio Universitária da Ufes. A proposta é toda desenvolvida por estudantes negros, voluntários e bolsistas, com o intuito de divulgar e desmistificar o continente africano e aspectos relacionados à negritude através da música, entrevistas e quadros diversos. 

Reprodução: Facebook/Afrodiáspora

A estudante de jornalismo e integrante do projeto, Aline Almeida afirma que a iniciativa é uma forma de fortalecer o cumprimento da Lei 10.639/03  que foi promulgada pelo Ministério da Educação (MEC) com o objetivo de incluir a temática “história e cultura afro-brasileira” nos ensinos fundamental e médio.

Apesar da obrigatoriedade, a aluna, que era bolsista do projeto antes dos novos cortes de recursos das instituições federais de ensino anunciados pelo MEC na última segunda-feira, crê que na prática isso não é efetivo, e atribui isso ao processo de invisibilidade e embranquecimento da população negra. Com o intuito de mudar o senso comum a respeito do tema, acredita que o Afrodiáspora é uma importante ferramenta.

 “Além de fomentar uma discussão dentro da universidade, o programa dialoga com a sociedade disseminando um saber desconhecido por muitos”, ressalta Aline.

Já é o terceiro corte de bolsas anunciado em 2019 pelo governo Bolsonaro e, segundo a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), até agora já foram extintas 11.811 bolsas de pesquisas e extensão financiadas.

Assim como o Afrodiáspora outras iniciativas de extensão também foram atingidas pelos cortes, é o caso do Cine Clube Aldeia, que perdeu a sua única bolsista. O projeto propõe exibições de filmes produzidos por indígenas e que retratem as identidades desse grupo étnico.

A primeira sessão do Cineclube aconteceu no fim de 2017, e desde então ocorre com uma frequência média de quatro exibições por semestre letivo, sempre de forma gratuita e aberta ao público geral. O professor do Departamento de Comunicação da Ufes e coordenador do Aldeia, Fábio Camarneiro, se preocupa com os próximos passos do projeto, sobretudo pela falta de relevância dada às temáticas trabalhadas.

 “Nós estamos resistindo, não sei como. A gente tem muita vontade de continuar, mas precisamos que as pessoas saibam que é um projeto importante, e entendam que isso demanda dinheiro para trazer as lideranças ou cineastas indígenas para a universidade” desabafa Camarneiro. 

Reprodução: Facebook/CineClube Aldeia

Para ele falta uma compreensão de toda sociedade a respeito de iniciativas como essa, e a valorização da dimensão cultural que se estende para toda a comunidade através delas. A proposta é que haja uma interação entre o espaço acadêmico e a comunidade externa, uma troca de saberes e visões entre as culturas tradicionais e contemporâneas.

“O que mais a gente quer com o cineclube é tirar essa imagem romantizada do índio, e estabelecer um novo imaginário imagético dos povos originários, que na verdade é oculto e esquecido pela maioria da população” conclui.

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