A luta contra o câncer de mama vira arte

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Durante o mês da conscientização sobre o câncer mais comum entre mulheres, artistas se juntam para contar suas histórias.

Por Carla Nigro, Heitor Mattedi, Laís Santana e Vitor Pinheiro

Sandra Motta se apresentando no espetaculo “Virgula”

Em 2018, foi registrado aproximadamente 1130 casos de câncer de mama em mulheres espírito-santenses, de acordo com o Inca (Instituto Nacional de Câncer), sendo 55 casos a cada 100 mil habitantes no estado. Nesse mesmo ano, o Instituto contabilizou que um terço de todos os diagnósticos oncológicos em mulheres do Brasil era de câncer de mama. Por mais que o Estado cubra amplamente ações de tratamento e prevenção do câncer de mama, ainda há um alto déficit no número de exames preventivos por ano. 

Em contrapartida, o tratamento quimioterápico no Espírito Santo possui números acima da média. O contraste dos dados expõe que a maioria das mulheres se apresenta às unidades de saúde com quadros avançados da doença após  exames tardios. A campanha do Outubro Rosa, com finalidade de incentivar a prevenção do câncer de mama, ainda não atinge uma quantidade satisfatória de exames preventivos em mulheres. Resta à arte trazer vivências e conscientização popular a respeito da seriedade do câncer de mama.

Cada mulher vivencia o diagnóstico de câncer de mama de uma forma diferente. Algumas transformam a experiência em dança, teatro ou livros. A bailarina Sandra Motta relatou sua história para o público no espetáculo “Virgula”, que busca fazer o público se emocionar e enxergar as adversidades da vida com mais naturalidade. “Uma mulher mastectomizada, que fica careca durante um tratamento de câncer de mama, por exemplo, pode descobrir que sua essência feminina vai muito além de símbolos, como peito e cabelo” conta.

Motta descobriu o câncer em Abril do ano passado, e no início de 2019 já estava curada. “Descobri o câncer por acaso. Fazia 7 anos que eu não fazia a mamografia.  Eu estava conversando com a minha irmã, toquei na mama sem querer e, percebi um nódulo. Foi quando fui fazer exame” relata. A história de Sandra se repete pelo Espírito Santo inteiro: apenas 70% das mulheres maiores de 50 anos realizam a mamografia anualmente.

O espetáculo foi desenvolvido durante o projeto “Peito Aberto”, do artista plástico Caio Cruz, que retrata, através de pinturas, mulheres mastectomizadas que conseguiram enfrentar o tratamento do câncer sem dramas e sem se sentirem “mutiladas”. Durante a exposição, Motta apresentou “Trilha”, uma dança com duração de 12 minutos. A peça era curta devido  à  quimioterapia que impedia maior esforço físico da artista. Segundo ela, o sucesso foi tão grande que decidiu montar “Virgula”. 

“A arte sempre fez parte da minha vida. Para mim, o objetivo do espetáculo, além de levar de uma forma criativa uma maior conscientização sobre o câncer de mama, foi o de inspirar outras pessoas a viverem seus diagnósticos de uma forma suave, como eu consegui viver o meu. O câncer é um quadro de saúde que pode levar à morte. Procurei me focar na vida”

Como uma menina

Durante o período em que fazia o tratamento, a coreógrafa e dramaturga Patricia Eugenio participou do coletivo “Elas tramam”, um núcleo de dramaturgia capixaba só para mulheres. Foi lá que escreveu a dramaturgia “ENTRE”, que faz parte do 1º e-book do coletivo.

“Como eu estava em um grupo de dramaturgia eu não poderia escrever sobre outra coisa, por que era isso que estava perturbando os meus pensamentos o dia inteiro. Ao mesmo tempo, algumas coisas que eu observava me remetiam a um estado poético, do ponto de vista que minha filha ia crescendo e perdendo características de bebê. Enquanto o cabelo da minha filha ia crescendo, eu ia perdendo cabelo, sobrancelha, cílios” compartilha Patrícia. 

A mudança corporal foi sensível: o inchaço da quimioterapia e a retirada das mamas transformou o corpo de uma mulher de 36 anos a algo similar ao corpo de um bebê: “Tinha um corpo muito próximo do dela [minha filha]. Um corpo infantilizado, sem seios, sem cabelo. Enquanto que ela ia criando esses elementos, eu sentia o inverso. Por isso “ENTRE” começa de trás para frente. Eu trago tudo isso para o texto“ comenta.

O texto retrata o impacto que o diagnóstico trouxe para a relação de Patrícia e sua filha, que ainda amamentava a criança de um ano e três meses. “Foi o que mais me abalou em saber que eu tinha câncer: quando a médica me deu a notícia de que eu tinha que interromper a amamentação da minha filha. Minha filha ainda mamava bastante, ela ainda tinha 50% da alimentação pelo peito. Toda a nossa relação era com o peito como intermediário. Não era só alimentação, era carinho, consolo, tudo. Foi uma interrupção no nosso relacionamento, eu tive que criar outro vínculo com ela” recorda Patrícia, emocionada com a lembrança.

Trecho da dramaturgia “ENTRE” de Patricia Eugenio

Patrícia descobriu o câncer de mama em 2016, ao mesmo em que estava no auge de sua atividade como artista, envolvida com diversos projetos, como a produção de uma ópera, três peças de teatro e preparando seu primeiro show de música popular. “O lugar da arte na minha vida é muito maior do que eu imaginava” percebeu. “Eu estava bem com morrer, até o momento que eu descobri que iam fazer testes para uma ópera. E eu pensei, eu não posso morrer, eu tenho que cantar nessa ópera. Então, eu pensei, se eu conseguisse continuar cantando enquanto eu fazia tratamento, estava tudo bem pra mim. Eu acho que a arte salva não só as pessoas que estão assistindo, como aquelas que estão produzindo”. 

O ebook pode ser acessado no link abaixo: 

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