O medo como rotina: Os riscos de ser mulher na cidade

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Conheça a história de mulheres comuns que relataram os desafios e riscos enfrentados todos os dias apenas por serem mulheres

Por Isadora Wandenkolk e Sara de Oliveira

Apressar o passo, atravessar a rua ou mudar a rota repentinamente. Precauções como essas precisam ser tomadas todos os dias, seja pela menina, pela mulher ou pela senhora. As motivações são claras, já que segundo um levantamento do Ministério Público Estadual, nos primeiros cinco meses do ano, só o Espírito Santo registrou 40 casos de feminicídio. Conversando com mulheres de diferentes locais do estado, colhemos relatos que revelam o medo vivido diariamente por elas. 

L. diz que costuma ser assediada por homens frequentemente, independente da roupa que esteja usando. Porém, em um desses casos, sentiu tanto medo que chegou a pensar em um possível plano de fuga. “Não eram nem 8h. A rua estava bem vazia, tudo fechado. Um cara passou de bicicleta, parou e disse: nossa, que b#$@# gostosa. O pior não foi ele falar. Foi parar na minha frente”, comenta.

Júlia Vieira, de 20 anos, trabalha como atendente em uma loja. Ela também passa por diversas situações de assédio durante a rotina. “É homem escroto que não sabe diferenciar educação na hora do atendimento, ter que dar a volta pra não passar na calçada por um grupo de homens, não poder usar um vestido sem ouvir gracinha na rua, motoristas buzinando, sem contar os inúmeros comentários desnecessários e olhares que sofremos independente da roupa que estamos vestindo”, enfatiza.

Ela relembra um caso, em que teve que agredir um homem bêbado, após ser agarrada a força. De acordo com Júlia, mesmo em uma rua movimentada, ninguém a ajudou. “Eu estava voltando do serviço, ele, do nada, veio na minha direção e me agarrou. Começou a dizer que eu era linda. Eu pedi pra me soltar e ele não quis. Bati no rosto dele e ele estava tão bêbado que bateu em um murinho e caiu do outro lado”, relata.

Uma senhora de 62 anos, que preferiu não se identificar, é proprietária de um comércio e diz que, na tentativa de evitar perigos durante o dia-a-dia, inclui diversas medidas de segurança na rotina. “Vou andando para a loja porque é bem próximo da minha casa, mas passo sempre por ruas movimentadas e nunca corto caminhos. Procuro não me expor muito com joias, com bolsas que chamam atenção, procuro andar o mais simples possível”, conta.

Há uma grande distância entre ser mulher e ser livre. Até hoje são consideradas propriedades privadas de maridos, pais, namorados.”

Lívia Moraes, professora do departamento de Ciências Sociais da Ufes.

Não é difícil encontrar mulheres que se identifiquem umas com as outras quando o assunto são os assédios sofridos e os cuidados que precisam ser tomados diariamente só por serem mulheres. Perguntamos a um grupo de cinco meninas se elas tiveram, de alguma forma, a rotina alterada pelo medo de sofrerem alguma violência, e presenciamos o seguinte diálogo:

“Dependendo do horário que eu volto no ônibus, eu sempre tento sentar perto do trocador”, iniciou a primeira jovem. “Sim, eu também!”, concordaram as outras, em tom unânime. “Eu sempre faço cara de doida, de boladona. Para tentar intimidar, né?”, continua uma segunda menina. “Uma coisa que eu sempre faço quando estou no Uber, é fingir que estou ligando para alguém para avisar que estou chegando em casa, geralmente finjo estar falando com meu pai”, comenta mais uma, que logo é complementada por outra mulher: “Sim! Quando eu não sinto segurança num motorista do Uber, sempre mando minha localização em tempo real para algum amigo”. E, mais uma vez, ouve-se um coro de concordância entre elas. “Na verdade, eu fico assim em qualquer carro que eu entro. Passando segurança ou não, sempre faço isso. Pois sempre tenho medo. Sempre”, conclui a última menina.

Uma das integrantes deste grupo é a estudante de Química Luísa, de 22 anos, que confessou ter receio de usar roupa de ginástica na rua. Ela conta que faz aula de dança e toda vez que sai da aula, troca de roupa antes de ir para casa. “Na teoria não deveria ter problema eu sair de short da aula de dança, né? Mas teve uma vez que eu saí de short, com a blusa amarrada na cintura, e um cara passou a mão na minha bunda no ônibus. Não foi uma esbarrada, foi um apertão. Desde então, eu sempre troco de roupa antes de ir embora”, relata. 

Segundo a estudante, situações como essa geram um sentimento de impotência que pode inibir qualquer reação por parte da vítima. “Eu mesma não consegui fazer nada, porque estava muito nervosa. O ônibus estava muito cheio, o cara esperou a gente chegar no terminal para me assediar. Eu só comentei com a minha amiga: alguém apertou a minha bunda. Nós procuramos quem era e quando eu olhei para o cara, ele ficou encarando a gente com cara de mau, tentando nos intimidar. Aí eu não consegui fazer nada, fiquei muito nervosa. Ele ainda ficou um tempão nos encarando, só depois que ele teve certeza que a gente não ia gritar nem fazer nada que ele foi embora. Depois foi só choro e desespero” diz Luísa.

Essas diferentes formas de violação a que as mulheres estão diariamente expostas  não só afetam a liberdade de quem passa, ou teme passar, por essas situações, como também as afetam psicológicamente. Uma estudante de Enfermagem de 21 anos, que não quis se identificar, relata que já foi assediada dentro do ônibus enquanto estava indo estudar. Ela conta que um homem sentou ao lado dela e começou a passar a mão em sua coxa. “Minha primeira reação foi querer bater nele. Ele começou a gritar dentro do ônibus, dizendo que eu era doida e estava inventando coisas. Para a minha sorte, tinha uma mulher em pé do meu lado que viu tudo. Todo mundo no ônibus ficou olhando para a minha cara, mas ninguém fez nada”, relembra.

Esse episódio deixou traumas que ainda não foram superados. “Com isso tudo, eu não terminei meu curso até hoje. Entrei em depressão, não saía de casa para nada. Se me dissessem que eu deveria pegar um ônibus, eu começava a chorar. Não tinha mais vontade de estudar, de fazer nada. Fiz acompanhamento com psicólogo e demorei mais de três meses para conseguir voltar a fazer as coisas que eu fazia antes. Mas até hoje eu tenho medo de sair de ônibus sozinha. Não vou sozinha para lugar longe de jeito nenhum”, lamenta. 

Devido a casos como esses, a necessidade de aprimorar os meios de defesa aumentou e, por consequência, a demanda por cursos de defesa pessoal também. O aluno de ciências sociais da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), que também é professor de defesa pessoal, Paulo Mateus Serafim Barbosa decidiu, por um tempo, ensinar técnicas de defesa pessoal no período pós eleições. As aulas eram ministradas no próprio espaço da universidade e tinha como público alvo mulheres e LGBT+. 

Paulo explica que, por considerar uma situação delicada, não procurou pesquisar o porquê as mulheres decidiram fazer o curso, mas acredita que o motor principal tenha sido o medo e a insegurança. “Para mim, enquanto homem, este não era um espaço que eu poderia oferecer algo a mais do que a minha experiência no combate corpo a corpo. Mas acredito que o interesse tenha como a principal razão medo e insegurança, somado aos efeitos dessa intolerância que vem aumentando gradativamente. Há até o próprio medo de se aproximar de homens com interesse afetivo. Então, as meninas tem esse receio de que a relação possa passar por esse momento de agressão, de ameaça” conclui o professor.

Por que temos medo?

A professora do departamento de Ciências Sociais da Ufes Lívia de Cássia Godoi Moraes ressalta que a questão é um problema estrutural da sociedade, no qual o gênero feminino é historicamente associado e restringindo ao  ambiente privado. “Teve de haver muita luta para que as mulheres ocupassem o público”, destaca.

De acordo com Moraes, esse mesmo processo coloca as mulheres como corpos à disposição dos homens, não apenas sexualmente, mas em todos os sentidos. “À disposição para cuidar dos homens, para trabalhar para os homens, para dar suporte emocional aos homens. Mulheres à serviço dos homens”, declara.

A violência sofrida diariamente pelo gênero feminino, segundo a professora, surge no momento em que as mulheres decidem resistir a essa imposição. “Quando não aceitam que são corpos e vidas à disposição dos homens, a violência aparece para tentar recolocá-las nesta condição. Se essa mulher for negra, lésbica, migrante, trans, indígena, tanto pior, porque se aliam a outras opressões estruturadas na sociedade”, pontua.

Das ruas ao âmbito privado

Além de ter que lidar com perigos diários nas ruas, calçadas e vielas, a mulher muitas vezes se vê em risco no próprio lar. A professora Lívia Moraes cita o recém publicado Atlas da violência 2019 que mostra que, só em 2017, mais de 221 mil mulheres procuraram delegacias de polícia para registrar agressões (lesão corporal dolosa) em decorrência de violência doméstica.

Esses números abarcam mulheres como Rita Correia Ramos, de 67 anos. A aposentada foi obrigada a se casar aos 12 anos com um homem que era 16 anos mais velho e mal conhecia. “Fui em uma missa de natal da igreja, e só porque um homem olhou pra mim, chegaram lá na casa da minha mãe contando. No outro dia ela bateu na porta do cara”, conta. Rita declara que então passou por um relacionamento permeado por agressões. “Eu não tive infância, casei e a partir daí minha vida foi só trabalhar. Trabalhei de ajudante de pedreiro e recebia só pancada e filho.  Se eu não abrisse os olhos eu tava com 11 filhos nas minhas costas. Hoje eu sou revoltada com a minha vida”, afirma.

Por causa das agressões sofridas continuamente durante o casamento e a pouca idade, Rita passou por uma série abortos espontâneos e induzidos.  Em um deles, a mulher chegou a ficar com o feto morto por um longo tempo na barriga, apresentando sintomas como febre e perda de sangue. Mesmo sentindo dores intensas, Rita não deixava de realizar os serviços domésticos, com receio das agressões. “Quando dava o horário de ele chegar, como eu tinha muito medo de ele me bater, eu levantava e ficava quietinha na frente do fogão fazendo comida”, relembra.

Rita se casou novamente, mas percebeu que a primeira união deixou marcas permanentes. Após um ano de constantes hemorragias, que não eram resolvidas com nenhum medicamento, ela precisou passar por um procedimento cirúrgico, em que retirou as trompas, que estavam totalmente degradadas por conta dos abortos sofridos. “Com 24 anos arranquei minhas trompas podres, aos pedaços. Hoje eu tô com 67 anos e não tenho trompas, por causa dos abortos que eu sofri”, relata.

Entrevistamos um grupo de pessoas para entender como se dá a insegurança na rotina de homens e mulheres. Confira o vídeo: 

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