Da cadeira para a piscina: os desafios dos paratletas capixabas

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Paratletas que recebem auxílio do Estado, alertam sobre a falta dele para a maioria dos esportistas.

Lara Favaris e Maeli Radis

Com a aproximação dos Jogos Parapan-Americanos, que acontecerão no fim de agosto, no Peru, os paratletas capixabas entram em uma intensa rotina de treinos para a competição. Sem a mesma atenção que o Pan recebe, a competição dedicada à pessoas com deficiência acaba sendo deixada de lado.

Mesmo enfrentando diversas dificuldades relacionadas à visibilidade do paradesporto no Espirito Santo, esportistas como Patrícia Pereira, 41, nadadora paralímpica, vem representando muito bem o Estado, em torneios nacionais e internacionais, pela Seleção Brasileira.

Patrícia é umas das paratletas com maior destaque no cenário esportivo capixaba, conquistando quatro medalhas de ouro em sua última competição nacional, em São Paulo. Porém, mesmo com todas essas conquistas, a nadadora ainda enfrenta problemas com apoio financeiro.

“Eu sou bolsista do programa Bolsa Atleta, por isso tenho uma certa garantia. Mas viver só de bolsa é complicado, sem isso o atleta não tem vida. Eu não tenho um patrocínio, e não fui contemplada pelo programa do Governo Federal. Se fosse pelo financeiro, eu nem estaria competindo”, disse a nadadora.

O Bolsa Atleta é um programa da Secretaria de Estado de Esportes e Lazer (Sesport), de incentivo a atletas e paratletas de alto rendimento, que teve início em 2010. É também uma forma de reconhecer o mérito de atletas capixabas ou residentes no Estado por suas conquistas. São destinadas bolsas, com pagamentos mensais, nas categorias estudantil (R$ 500), nacional (R$ 1.500), internacional (R$ 2.000) e olímpica (R$ 4.000).

Assim como Patrícia, Nathália Torezani, 40, é outra grande representante do estado. A também nadadora participa de diversas competições nacionais, como o Circuito Brasil Loterias Caixa, mesma competição em que Patrícia ganhou diversas medalhas, que pode classificar atletas para competições internacionais como o Parapan-americano.

Nathália, que iniciou na natação por incentivo da irmã há pouco mais de dois anos, já é medalhista e segue uma rotina de treino focada tanto no esporte de alto rendimento quanto em sua lesão, provocada por uma queda de tirolesa há alguns anos.

“Depois do acidente em 2001, onde fraturei a T12, última vértebra torácica e fiquei paraplégica, sofri muito com a adaptação, principalmente por não ser independente. Como natação já era algo que eu gostava de fazer, não demorei muito para me adaptar, já conquistei medalhas no circuito e sonho em participar de competições internacionais”, contou Nathália.

Também contemplada pelo programa da Sesport, a paratleta alia sua vida nas piscinas com seu trabalho de jornalista. Fazendo freelancers para uma empresa de e-commerce em São Paulo e trabalhando com vendas para uma empresa de Vila Velha, que comercializa produtos na área jurídica, a nadadora consegue arcar com suas despesas nas competições. 

 

Outra realidade
Porém, isso não é a realidade de muitos atletas. O programa Bolsa Atleta não contempla grande parte dos esportistas capixabas, que precisam tirar do próprio bolso os custos de inscrição, viagem e hospedagem. Muitos atletas não têm condições de se manter apenas competindo e acabam deixando os esportes devido a esse problema. A saída desses atletas prejudica e muito o esporte capixaba e brasileiro, que já é bem reduzido

“Eu acho louvável a iniciativa do programa Bolsa Atleta, mas é algo que poderia ser ampliado, principalmente no paradesporto. É muita gente que pode ascender no esporte, mas a maioria não conta com uma fundamental ajuda de custo”, afirmou a nadadora.

Leandro Macedo, 22, aluno de Engenharia Mecânica da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), lutou jiu-jitsu entre 2010 e 2015, foi bicampeão em Alegre, no sul do Estado, mas acabou deixando o esporte por falta de incentivo financeiro. A falta de patrocínio dificultava a participação em competições, já que por ser uma cidade pequena, não havia muitas empresas que poderiam ajudar nos custos.

Os atletas arcavam com os custos necessários para participar dessas campeonatos, mesmo com baixas condições. “Muitos atletas que treinavam na academia comigo tinham grande potencial e vontade, mas não tinham condições para se manter nas competições e acabavam saindo”, relembra Leandro.

Metas

Mesmo com todos os percalços, as paratletas capixabas sonham alto e com a chegada do Parapan, o esforço dobra para representar bem o Estado nos jogos. Patrícia sonha ainda mais alto:

“Sinto que estamos no caminho certo. Minha meta é ir para meu 1° Parapan, daqui um mês e meio e depois o mundial, em Londres. Fazer uma temporada bacana. Eu sou modesta, acredito na humildade, se você perseverar no que você quer, o caminho é um dia após o outro e plantando sempre que uma hora o fruto vem”, sonha a atleta.

Nathália Torezani em treino
Patrícia Pereira

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