Violência inspira produção de filme amador na Serra

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Conheça a emocionante história de quem faz cinema amador há 22 anos no bairro Central Carapina, Serra (ES) 

Thauane Lima

Antônio Dias Estevão fazendo cinema. Foto: Arquivo Pessoal

A vontade de fazer cinema  invadiu o peito de um sonhador. Antônio Dias Estevão, 60 anos, mobilizou a família inteira e amigos  para a produção de filmes amadores na Serra, no bairro Central Carapina. 

Marcado pela violência, quase todos dias, o bairro se vê  estampado em capas de jornais, nas histórias de pessoas que foram ceifadas pela violência e pelo tráfico de drogas. Confiante de que a arte transforma vidas, foi com esse cenário de violência que Antônio Estevão conseguiu fazer críticas bem  humoradas com uma câmera na mão e muitas ideias na cabeça. 

Antônio Dias Estevão nasceu  no dia 26 de junho de 1959, no município de Calixto, Estado de Minas Gerais. Aos oitos anos de idade, trabalhou na roça e com muita luta, aos 17, terminou o primário. Aos 18 anos, mudou-se para o município da Serra (ES), e foi trabalhar como ajudante de pedreiro no conjunto residencial em que hoje é o Parque Residencial Laranjeiras. Após terminar o bairro Laranjeiras, ele foi trabalhar numa empresa em Carapina. No ano de 1990, foi transferido para o serviço de modelagem de gesso.  Com muito empenho e humildade  ele foi cada dia se classificando  profissionalmente, mas a ideia de fazer cinema, não saía de sua cabeça.

A sua grande fonte de inspiração até hoje são os filmes de Amácio Mazzaropi. E ele questionava. “Se eles podem fazer, eu também posso”.Foi quando ele disse a um amigo de trabalho que se ele tivesse uma câmera de mão, ele faria um filme amador. E não deu outra.

Antônio Estevão casou-se com Nememias Pinheiro Estevão e do fruto desse amor nasceram: Luciléia, a primeira filha, hoje com 39 anos, Gessé, o do meio, que tem 37 anos e o caçula, parceiro de gravação dos filmes do pai Vitor, que está com 26 anos. Antônio e Nememias já se separarm. Hoje, ele está casado com Maria Aparecida o apoia em tudo. “Eu não entendo nada de câmera, esquiva-se, só faço almoço e café quando a equipe almoça em casa”,

Antônio com a esposa Aparecida, os filhos Vitor, Lucileia e Gessé e o irmão Pedro.

No ano 2000, Antônio Estevão fez o seu  primeiro filme amador, “A volta dos que nunca foram”,  juntamente com o seu irmão Pedro Estevão. Ele narra a história de um mafioso que encontra um tesouro, e todos ficam querendo tirá-lo dele. No final, acabam achando o tesouro, que nada mais é do que uma fita VHS do Mazzaroppi.

Mazarppi e Spielberg, inpiradores de Antônio Estevão e de seu filho Vitor

Antônio é uma pessoa sortuda porque com simplicidade e carisma, consegue convencer todos a participarem de seus projetos, e um dos braços que o ajudam muito é o seu irmão Pedro Dias Estevão. Pedro foi registrado no cartório na roça, e os pais ao registrarem não se deram conta de que Estevam, saiu com m. 

“Tudo começou com uma brincadeira, fazendo videozinhos. Quando lançamos o Violência II,vimos que a parada ficou séria. Agora eu vou sempre ajudar o meu irmão, quando eu tiver uma folguinha. É difícil,às vezes conciliar tempo por que eu trabalho. É feriado? O que a gente puder fazer a gente faz”, explica Pedro Dias Estevão, 55 anos, montador de churrasqueiras.

Em 2007, Antônio Estevão  juntamente com o seu amigo Roberto Cardoso, lançaram o filme Violência I. Quem dirigiu foi o Roberto Cardoso, tendo o filho Vitor Mateus Estevão, na edição e finalização do filme.

Filme completo de Violência 2, sob a direção de Roberto Cardoso e Vitor Mateus.

No ano seguinte, lançaram o filme Violência II contando histórias de violências no bairro Central Carapina. É um filme que dialoga com a realidade dos moradores. Pedro Estevam lembra que “quando lançou o filme Violência II, “ o nosso trabalho começou a ser reconhecido. As pessoas começavam a  nos parabenizar pelo filme”, recorda.

Em 2013, Antônio fez parceria Said Conceição Nunes, 40 anos, motorista. Para produzir o filme Sossego, que conta a história de um traficante bem temido no bairro  Central Carapina. A divulgação desse filme saiu em todos os jornais do Estado. 

Segundo o diretor Said Nunes, “a inspiração do filme  foi a violência vivenciada em nossa comunidade; queríamos mostrar para a juventude atual  de que o crime nunca foi um caminho de futuro e usamos a história de um traficante que na década de 90 foi muito conhecido e temido”, conta.

Antônio Estevão lembra com orgulho da charge que saiu no maior jornal do Estado, A Tribuna, que  retrata a história do filme.

O filme da vida de traficante em Central Carapina, sob a direção de Said Nunes.

O  filho Vitor Mateus, influenciado pelo seu pai ajudou na edição e finalização do filme do filme O sossego.“A parceria com Antônio foi muito importante para a realização do filme, pois ele nos ajudou com a captação de recursos para a realização”, lembra Said Conceição Nunes, 40 anos, motorista.

Assistam como foi a produção do filme Sossego em Central Carapina.

Cinema que mobiliza

O professor de Cinema e Audiovisual do Departamento de Comunicação da Ufes(DEPCOM), Klaus’ Berg Nippes Bragança,37 anos, argumenta que “o cinema amador é um tipo de cinema que mobiliza todos os outros. Em qualquer cinema, sempre vai ter uma tradição no amador. Por que antes mesmo de o cinema se consolidar como linguagem, como instituição, como deficiência econômica, ele foi mobilizado com um tipo de experimentalismo de amador”, comenta.

Klaus’ Berg ressalta que com a possibilidade de fazer vídeos caseiros, acabou se tornando marketing para vender câmeras, utensílios e aparelhos para amadores, para as pessoas registrarem os seus próprios cotidianos. Klaus’ Berg faz um panorama do surgimento do cinema: “Não é coincidência as primeiras imagens serem de um trem chegando na capital, trabalhadores saindo da fábrica, com teor amadorístico”, ressalta. 

Segundo ele, “esses vídeos são chamados legitimamente de amadores, porque  não estão muito vinculados, por exemplo, a um tipo de refinamento técnico ou maneirismo. Estão ligados ao próprio desejo de gravar vídeos para aquela cena. E às vezes, mais apenas do que registrar de tentar criar, ser criativo com aquilo que se gravou”, pontua.

Antônio é aposentado, e nas produções que ele e os seus amigos ajudaram e ajudam  na elaboração dos projetos, sempre foram pagas com dinheiro do próprio bolso. Em todos os filmes produzidos, a equipe não conta com ajuda de custo do governo ou edital de fomento de cultura.“Eu faço tudo por amor. Amor à Sétima Arte”, declara Antônio.

“As pessoas fazem o que amam, é isso que é o cinema amador. É um cara que faz alguma coisa, porque ele ama fazer aquilo. Ele não faz por dinheiro, ele faz apenas por uma obrigação qualquer, a  não ser com ele mesmo”, ressalta Klaus’Berg.

Comando Central

Antônio assite aos filmes do seu inspirador, Amácio Mazzaropi, em fita VHS. quase sempre em companhia do filho caçula, Vitor Mateus, um jovem fotógrafo, diretor, editor, roteirista, cinegrafista e cineasta amador de 26 anos. Atualmente, ele está dirigindo o longa Comando Central, ao lado de seu pai. Um dos diretores que sempre inspirou o jovem cineasta é Steven Spielberg, pelo fato de gostar de ficção, como Jurassic Park e o E.T, o Extraterrestre.

“O meu pai  pediu para finalizar e disse que seria o último projeto. Aí eu acabei ajudando na edição. Ele não  tinha câmera na época, aí eu disse que ajudaria a filmar, porque meu pai, quando precisa de apoio, todos nós ajudamos”, conta Vitor Mateus. 

O  filme Comando Central é uma comédia que conta a história de um mafioso Matuto (Antônio Estevão), chefe de uma gangue no bairro, onde há disputa de território. E ele é um azarado na vida e amor. A locação do filme acontece no bairro Central Carapina, em que muitos moradores se voluntariam para ser figurantes. Há uma participação especial no filme Comando Central, do cantor e compositor Washington José, 61 anos, que, no filme, faz um gringo.  

Confira o trailer do filme Comando Central.

“Eu estava ensaiando com um colega de música sertaneja, e ele disse que estava participando de um filme Comando central. Fui com ele conhecer os integrantes do filme e o Antônio Estevão. A partir daí, nasceu uma amizade grande. Ganhei um amigo para todas horas”,ressalta.

“Na hora que você está filmando, você vê o talento das pessoas,que gostam de arte e de cinema e que  nunca se imaginaria estar ali”, comenta o diretor Vitor Mateus.

Por ser totalmente inovador, muitos moradores  apoiam o projeto. O diretor ressalta que  “quando estão filmando, a rua lota de pessoas, pois fica todo mundo assistindo. Você percebe o respeito e a valorização de seu trabalho.” Para a realização do filme Comando Central, ele está usando  como referência o cineasta José Padilha, porque o filme é periférico e retrata a violência nas comunidades.

Confira a reportagem do Universo Ufes, sobre o filme Comando Central, na Serra.

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