Métodos alternativos de auxílio psicológico ajuda vítimas de grandes desastres

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Sobreviventes e profissionais das cidades afetadas após os rompimentos das barragens pertencentes a Vale e a Samarco Mineração S.A receberam auxilio e conforto com a aplicação de técnicas pouco conhecidas

Gleiciane Marriel

Há três anos, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente (Ibama), mais de 19 pessoas morreram na tragédia que chamou a atenção de todo o mundo. Começava em Mariana, Minas Gerais, o medo da população que vivia próximo às barragens da mineradora Vale. 

Em janeiro de 2019, a pequena vila do Córrego do Feijão, em Brumadinho, onde ficava umas das 691 barragens de Minas Gerais, enfrentou o maior desastre já visto no Brasil. Segundo nota da Polícia Civil de Minas Gerais, 246 pessoas morreram e 24 desapareceram após o rompimento da barragem que chegou de surpresa para os moradores. 

O ecossistema dos locais onde aconteceram os rompimentos também sofreu com os rejeitos de mineração que, de acordo com uma análise realizada pelo Centro Nacional de Monitoramento e Informações Ambientais (Cenima) do Ibama, devastaram cerca de 133,27 hectares de vegetação nativa de Mata Atlântica e 70,65 hectares de Áreas de Preservação Permanente (APP). O que ocasionou a necessidade de uma série de acompanhamentos e restaurações.

CIDADE ABALADA

A cidade de Brumadinho não estava preparada para o ataque que abalou tanto as estruturas dos órgãos públicos, que não esperavam um desastre de tamanha proporção, quanto lado material, psicológico e emocional dos moradores, profissionais e pessoas em todo o mundo que se mobilizaram.

Como conta a enfermeira e coordenadora das práticas integrativas  da Secretaria de Saúde de Brumadinho, Zurma Borsac: “No começo, estávamos assustados e nos desestruturamos um pouco, também tínhamos conhecidos na área afeta, havia velórios sem parar”.

Zurma lembra que os profissionais que estavam na linha de frente ficaram fragilizados e muitos adoeceram. A enfermeira, que estava na direção das práticas integrativas, se preocupou e viu a necessidade de ampliar o trabalho que prestavam: “Tiramos os trabalhadores de seu ponto de atendimento e outros terapeutas trataram deles. Foi muito comovente ver como eles nos receberam. Diziam: “Graças a Deus alguém se lembrou de nós”.

A prática que a Secretaria de Saúde de Brumadinho aplicava era diferenciada: “Com a tragédia, terapeutas elaboraram uma fórmula emergencial, que tornou mais eficaz técnicas que aplicávamos há 12 anos. Oferecemos aos moradores a terapia floral, que no primeiro momento traz aconchego e as pessoas se sentem mais tranquilas, tendo força para lidar com o que vem pela frente”, explica a coordenadora.

Enfrentando grande trauma, a população de Brumadinho  contou não só com a ajuda da Secretaria do município, que se mobilizou para atender a grande demanda, mas também de inúmeros voluntários.

Entidades e Organizações não governamentais (ONGs) foram essenciais para estabelecer um trabalho em conjunto com os profissionais de Brumadinho: “As ONGs que estavam ali com projetos sinceros e organizados, ajudaram a nos recompor”,  comenta Zurma. 

A secretaria atendia os trabalhadores e depois de um tempo começaram a atender também aos moradores. Mas a coordenadora, que trabalha há 19 anos na área, e a sua equipe, também receberam esse auxílio. Em meio a grandes demandas, Zurma recebeu de uma vizinha uma técnica de estimulação neural, treinamento que obteve com a ONG Mãos Sem Fronteiras.

Visando auxílio psicológico às vítimas de Brumadinho, ONGs que mantinham projetos na área aplicaram técnicas que atenderam aos afetados pelo rompimento da barragem e aos profissionais e voluntários que trabalhavam no local.

Foto: Vitor Hugo Bigoli/Transforma Brasil

A ATUAÇÃO DAS ONGS

Uma das maiores preocupações que Zurma e a Secretária de Saúde de Brumadinho tinham era que as práticas fornecidas pelas ONGs fossem de fácil aplicação, para que mesmo após os períodos de ajuda de pessoas de outros estados, o município conseguisse continuar executando as técnicas.

A ONG Mãos sem Fronteiras (MSF), com sede em Curitiba, é um exemplo de como foi a atuação dos voluntários em Brumadinho. As sementinhas, como são chamados os voluntários da MSF, utilizam uma técnica que pode ser aplicada universalmente e que, uma vez aprendida, as pessoas podem se tratar ou tratar outras pessoas.

A técnica de estimulação neural, que acelera a atividade dos neurônios e os regenera através da meditação e do uso consciente das mãos em pontos específicos do corpo, segundo os aplicadores, auxiliou a população de Brumadinho que passou a receber, durante as sessões alívio em relação à situação que vivenciava.

Guilherme Mascarenhas Dalle Jr, o Leleco, foi um dos coordenadores da ONG enquanto atuavam em Brumadinho. Ele diz que “na primeira semana, a cidade tinha muitos voluntários aplicando diversas técnicas para auxiliar as vitimas. Havia padres, bastante gente ajudando e várias outras precisando dessa ajuda. As sementinhas do Mãos sem Fronteiras exerceram a técnica em moradores, voluntários de outras regiões e até em bombeiros”.

A demanda por auxílio psicológico era tanta que cada vez que um carro da igreja local saia para resgatar alguém, um voluntário era convidado a ir. Quando a demanda dos moradores diminuiu, a ONG Mãos sem Fronteiras aplicou a técnica em bombeiros, guardas, voluntários e profissionais de saúde da cidade. 

De acordo com estudos realizados pela Fiocruz (Instituição de ciência e tecnologia vinculada ao Ministério da Saúde), o rompimento das barragens em Mariana e Brumadinho podem gerar o agravamento de problemas crônicos de saúde, como hipertensão, diabetes e doenças mentais (depressão e ansiedade). Por isso a importância do auxílio psicológico para as comunidades afetadas.

TREINAMENTO

A importância do auxílio da ONG gerou a necessidade de um treinamento para que voluntários e profissionais continuassem perpetuando a técnica em Brumadinho. A MFS já previa um treinamento gratuito para a comunidade, porém pela demanda em um final de semana 22 pessoas da área, incluindo a equipe de Zurma, foram formadas no curso.

Voluntários e profissionais realizam curso do Mãos Sem Fronteiras (Foto: enviada via Whasapp/ Leleco)

A técnica, segundo Leleco, traz simplicidade e sabedoria e a ONG faz de tudo para ser o mais simples possível. A coordenadora Zurma diz que utilizam da prática que ajudou muito a Nupic (Núcleo de Práticas Integrativas Complementares) e mostrou que precisavam mudar o modo de atender a população, ampliando a capacitação da população através das técnicas que já possuíam e as que aprenderam com a MSF.

O trabalho em conjunto dos voluntários e profissionais da área da saúde pode ajudar os sobreviventes a suportar a dor que sentiam no momento. O atendimento com as técnicas usadas, de acordo com Zurma, está sendo aplicada em várias áreas de Brumadinho, não sendo necessário buscar o ponto onde a secretaria atua: “Basta procurar o profissional de família da sua área”.

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