Cuidados com os idosos: é importante que a família esteja preprada

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Questões culturais, políticas, sociais são importantes para o envelhecimento com qualidade de vida, porém o preparo familiar é determinante nessa questão.

Leonardo Miranda e Miranda Perozini

O envelhecimento com qualidade de vida da população idosa é um assunto que permeia muito dos debates atuais e se tornará ainda mais relevante nos próximos anos. Segundo uma pesquisa divulgada pelo IBGE, em 40 anos a população de idosos irá triplicar no país. Mudanças como essas implicará alterações nas políticas de saúde pública, segurança, previdências e mobilidade.

Os idosos ainda sofrem com problemas de saúdes típicos de sua faixa etária, e uma pesquisa realizada pela USP, conduzido pelo médico geriatra Alessandro Gonçalves Campolina, apontou que os idosos estão vivendo por mais tempo doentes. Foto: Reprodução

A pesquisa em questão revela uma virada de perfil da população brasileira. A partir de 2030, o número de idosos acima de 60 anos será superior ao número de crianças entre 0 e 14 anos de idade. A pesquisa ainda relata que em cinco anos a população de idosos cresceu 19%.

Um ponto a ser levantado nesse debate é a situação de parte da população idosa a partir da reforma da previdência que está sendo discutida pelo Congresso Nacional a partir de proposta enviada pelo presidente Jair Bolsonaro.

Atualmente, a população idosa mais pobre possui o benefício do BPC (Benefício de Prestação Continuada), que paga um salário mínimo para idosos que não conseguiram se aposentar, acima dos 65 anos, e que possuem a renda de um quarto do salário mínimo para cada pessoa da família. Com a proposta da Reforma da Previdência, o valor do salário mínimo seria pago para idosos a partir de 70 anos, e uma nova faixa etária de idosos entre 60 e 70 anos seria criada, para que recebessem um total de R$ 400,00. 

Questões econômicas e políticas como essa compõem o debate a respeito do envelhecimento com qualidade de vida da população idosa. Porém, assuntos como saúde, cultura, família e segurança também fazem parte dessa pauta. Ainda se luta e se discute sobre questões de acessibilidade e respeito ao idoso em situações rotineiras, como, por exemplo, assentos e filas preferenciais. Apesar de muitas pessoas apoiarem estas medidas, é possível notar certa resistência de parte da população. 

Esse tipo de comportamento e pensamento reflete diretamente no tratamento que esses idosos receberão nas ruas e em lugares públicos, e até mesmo nos ambientes privados como asilos, casas de repouso e também cuidadores particulares. Uma pesquisa de 2017 feita pelo Ministério dos Direitos Humanos contabilizou cerca de 33 mil denúncias de violências contra idosos.  

Os idosos ainda sofrem com problemas de saúdes típicos de sua faixa etária, e uma pesquisa realizada pela USP, conduzido pelo médico geriatra Alessandro Gonçalves Campolina, apontou que os idosos estão vivendo por mais tempo doentes.

O problema se torna ainda mais grave quando diz respeito à população idosa mais pobre, que muitas vezes precisa contar com serviços públicos de saúde precarizados e demorados, tanto para atendimentos como para tratamentos.

Não somente essas questões são importantes na construção de uma boa qualidade de vida para o idoso, mas também o cuidado familiar. Nesse caso são necessários esforços tanto do cuidador como de quem é cuidado. Ou seja, este cenário refletirá em consequências positivas e/ou negativas para ambos.

Estar preparado psicologicamente é fundamental

Exige-se um preparo físico e psicológico por parte da família que cuidará do idoso, mas principalmente psicológico. É o que diz Liliane Cardozo, dona de casa, 50 anos, que cuidou de seus pais, antes do falecimento de ambos.

Foram muitas noites como acompanhante em um hospital após a mãe, Marly,  ter sofrido um Acidente Vascular Cerebral (AVC). “Também tive de cuidar do meu pai, mas o primeiro choque foi entender tudo o que estava acontecendo com minha mãe”, disse.

Antes do AVC, Marly, na época com 77 anos, começou a apresentar sintomas de Alzheimer. Esquecimentos recorrentes, agressividade sem motivo, mudança de comportamento. Tudo isso afetou diretamente Liliane e sua família, que, até então, não conseguiam compreender a doença como um todo, e só sabiam sobre ela o que já ouviram falar. “Por mais que a gente consiga imaginar passar por uma situação deste tipo, nunca estaremos preparados”, contou.

E despreparada foi como ela e a família se viram ao entenderem também o estado do pai, Olival, 74 anos. “Meu pai tinha mudanças de comportamento muito bruscas, assim como minha mãe. Em um minuto, estávamos normais e, no outro, ele perdia completamente a razão, no sentido literal. Lidar com esquizofrenia é e sempre vai ser muito complicado. Entretanto, no caso do meu pai, lidamos não só com ela mas como a demência. Eram, tanto ele como minha mãe, pessoas instáveis. Ele mais que ela”, destacou.

Liliane buscou, então, enfrentar a situação, por mais que nunca tivesse esperado por ela – não desta forma. Afinal, segundo dados do Relatório de 2015 da Associação Internacional de Alzheimer (ADI), há cerca de 46,8 milhões de pessoas com demência no mundo. Este número praticamente irá dobrar a cada 20 anos, chegando a 74,7 milhões em 2030 e a 131,5 milhões em 2050. Só no Brasil, é 1 milhão e 200 mil pessoas.

De acordo com uma pesquisa do IBGE, as patologias que mais levam os idosos à morte são infarto, insuficiência cardíaca, acidente vascular cerebral e sequelas, doenças neoplásicas, pneumonias e doenças pulmonares obstrutivas crônicas, demências e outros fatores externos.

É o mesmo caso de Richard Vieira, 24 anos. O cientista da computação recém-formado descobriu que sua avó, Janete, atualmente com 81 anos, também desenvolveu a doença. Com isso, a rotina da família mudou consideravelmente. Agora, Richard cuida diretamente dela e oferece suporte intensivo aos pais, Érika e Marcio. Além deles, Richard também mora com seu irmão, Anjel, de 15 anos. Para o jovem, o Alzheimer é uma doença muito cruel.

“As vezes minha vó não quer tomar banho ou comer por achar que já fez, ficando realmente estressada por entrarmos em contradição com ela. O temperamento muda muito, e essa é nossa maior dificuldade”, disse.

“Estar com ela me ajuda a pensar no sentido da vida, me faz querer tê-la por perto por mais 30 anos no mínimo, mesmo nos dias mais difíceis” – Richard Vieira, 24. Foto: Érika Vieira / Facebook

Estar com a avó, mesmo que nas mais difíceis situações, é o que o motiva. “Estar com ela me ajuda a pensar no sentido da vida, me faz querer tê-la por perto por mais 30 anos no mínimo, mesmo nos dias mais difíceis. Na relação com minha família, vejo uma distância grande entre ela e os filhos, tendo somente minha mãe mais presente. Meus tios só a visitam uma vez a cada duas semanas, o que a deixa triste por sentir falta, mesmo esquecendo depois. Com minha mãe, é uma relação de amor e impaciência, vejo que minha mãe não consegue ter a paciência que eu e meu irmão temos, isso  gera um estresse muito grande. Apesar disso, o amor nos mantém, sempre. Mesmo sabendo da dificuldade”. 

O amor é o melhor remédio

E foi o amor também que fez com que Liliane, ao ver a mãe no hospital após o AVC tenha ficado muito impactada. “Foram 37 dias de muita tristeza e agonia. Minha mãe estava praticamente em estado vegetativo sobre uma cama e eu não pude fazer nada, porque sabia que mesmo se voltasse para casa, ela não teria mais uma vida normal. A notícia de sua morte foi um choque, e ter de levantar a cabeça para cuidar do meu pai foi o que me manteve de pé, mas também o que me abalou mais ainda”, desabafou.

Liliane não sabia como lidar com aquele novo quadro dentro da sua casa, ainda mais depois do que passou com sua mãe. Brigas eram recorrentes, todos estavam desestruturados. Liliane descobriu, inclusive, uma doença crônica autoimune. Entretanto, precisou seguir em frente. “A preparação psicológica é fundamental. Sua mente pode acabar com tudo. Não pra cuidar do doente em si, dar banho, comida. O problema é conviver com alguém que você ama em condições extremas, de doenças tanto físicas como psíquicas (o caso do meu pai)”, destacou.

Marly e Olival não envelheceram com qualidade de vida. Depois da aposentadoria, não tinham mais vida social. Não faziam atividade física, não tinham mais amigos ou faziam questão de interagir com conhecidos. “Meus pais se entregaram. A questão da qualidade de vida vai muito além de estrutura. As pessoas têm que querer e buscar, e eles simplesmente não quiseram”, afirmou a dona de casa.

A importância de se ter boas condições

Já Sônia Martha, professora de artes de 56 anos, cuidou da mãe, Amélia, durante um problema de saúde. Amélia passou por dois infartos após um longo período de cama devido à uma queda. Quebrou os dois ossos do fêmur e ficou acamada por dois anos, o que a fez desenvolver depressão. Para Sônia, seus pais Amélia e Valentim, ambos com 80 anos, se recuperaram de problemas de saúde e envelhecem, agora, com qualidade de vida apenas por causa de sua condição financeira. 

“O país não está preparado para receber idosos. Não temos estrutura suficiente, muito menos uma educação voltada para isso”, disse Sônia.

“Não temos estrutura suficiente, muito menos uma educação voltada para isso. O idoso não é respeitado, aguarda meses e anos até em uma fila para consulta no sistema unificado, não possui conforto nem para transitar nas ruas por causa da situação de muitas vias e calçadas. Meus pais envelhecem bem porque não dependem do Brasil, do governo, do SUS. Tudo que fizemos foi com nossa renda. Infelizmente boa parte da população não tem como arcar com os custos que um idoso pode gerar e é por isso que tantas doenças e mortes acometem nossa sociedade senil”, declarou.

Ao final, o que todos esperam é poder envelhecer com saúde mas, principalmente, com amor. “Apesar de todas as dificuldades, tanto de encontrar profissionais capacitados como de arcar com qualquer tipo de custo precisamos ser amados e amar uns aos outros. O país precisa entender que os jovens de hoje são os idosos de amanhã. Eu, pelo menos, tenho certeza de que com o amor e a coragem da minha família serei bem cuidada. Mas e aqueles que não têm nem isso?”, indagou a professora.

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