Mulheres no jornalismo: a desvalorização das mulheres e o machismo nas redações brasileiras

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Apesar do aumento do número de mulheres no mercado jornalístico, 65% dos cargos de poder nas redações ainda são ocupados por homens.

Brunella Rios e Julia Lopes

O machismo é um comportamento há muitos anos enraizado na sociedade em que vivemos, responsável por afetar diretamente diversas áreas da vida das mulheres, seja desde a roupa que vestem até a profissão que desejam seguir. No jornalismo não seria diferente. Durante muito tempo, o mercado jornalístico foi dominado pelo sexo masculino, quadro que vem sendo modificado de forma lenta ao longo dos anos. Segundo dados do Ministério do Trabalho, em 2006, 52% das vagas de jornalista eram ocupadas por mulheres, o que revela uma tendência feminina na área.

A pesquisa “Mulheres no Jornalismo Brasileiro”, realizada no ano de 2018 pela organização de mídia Gênero e Número, em parceria com a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), investigou as diversas dimensões das vivências e percepções das jornalistas no Brasil. Para isso, eles contaram com 477 profissionais da área para responderem as perguntas sobre o dia a dia das mulheres nas redações brasileiras.

O mercado jornalístico passou por mudanças significativas nas últimas décadas, tornando a proporção de homens e mulheres muito mais equilibrada nas redações.

Porém, segundo o Censo de 2010, as mulheres ainda tendem a receber salários menores do que os profissionais do sexo oposto e permanecem sendo minoria na ocupação de cargos de maior prestígio e remuneração. Esses dados também são confirmados pela pesquisa da Abraji, que aponta que 65% dos cargos de poder nas redações são ocupados por homens.

Apesar do aumento do número de mulheres no mercado, as jornalistas continuam sendo subjugadas pelos privilégios conferidos ao sexo oposto, seja por meio de comentários machistas realizados por colegas de profissão e pelas fontes, pela diferença salarial no final do mês, ou até mesmo pela dificuldade de serem levadas “a sério” como profissionais.

Independente das dificuldades enfrentadas no dia a dia da profissão, a jornalista Yasmine Hofmann, afirma nunca ter pensado em abandonar a área por conta do preconceito e acredita que, por sempre ter trabalhado com homens, acabou se acostumando com as piadinhas machistas, as cantadas e frases tortas.

“No começo da carreira achava até engraçado, mas depois você percebe que são completamente fora de lugar, que nos objetificam. No início parece um elogio, mas depois se torna uma inferiorização da mulher quanto profissional”. Hoje, Yasmine diz que não admite mais esse tipo de comportamento.

Futebol é assunto de homem?

Thaísa Cortes, 28, despertou o interesse pelo jornalismo dentro de casa, por meio do pai, que é jornalista. Mas, quando chegou a época do vestibular, acabou optando por fazer publicidade, já que a ideia de cursar jornalismo havia sido “brecada” pelo pai, que conhecia bem as dificuldades da profissão. Assim que se formou, Thaísa comunicou à família que faria jornalismo, pois sabia que aquele era o caminho que desejava seguir.

No final de 2016, já na faculdade de jornalismo, Thaísa ajudou a fundar o Núcleo Universitário de Esportes da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), mais conhecido como Nude Coletivo. A iniciativa surgiu por meio de uma matéria optativa e virou projeto de extensão em 2017. A partir daí, Thaísa começou a cobrir eventos esportivos e foi também durante essa época que vivenciou os primeiros comportamentos machistas dentro da futura profissão.

“Uma vez fui cobrir um jogo e vi que o técnico tinha escalado a equipe com as numerações diferentes do que ele vinha fazendo, aí questionei: “fulano, por que você colocou o jogador tal (volante) com numeração de atacante/meia?” Ele virou para mim e respondeu: “quer escalar minha equipe também?” E começou a zombar contando para os outros homens que estavam ao lado dele. Foi ridículo. Acredito que se fosse um homem perguntando, ele não teria agido daquela forma”, Thaísa Cortes.

Os casos de machismo continuam presentes no dia a dia da jornalista, mesmo depois de formada. Thaísa conta que, durante um jogo deste ano, foi respondida com um “só vou falar porque você é linda”, depois de perguntar a um antigo jogador se ele poderia conceder uma entrevista a ela. Casos como estes são comuns, ainda mais em ambientes rotulados como masculinos, como o futebol, em que muitas mulheres são subestimadas por “não entenderem do assunto”.

Discriminação de gênero e racial

Segundo pesquisa da Abraji, 65% das jornalistas sentem que suas competências são subestimadas por serem mulheres em seu ambiente de trabalho, por seus superiores ou colegas (veja mais no infográfico abaixo).

A estudante de jornalismo da Ufes, Cássia Rocha, 21, acredita que o ponto mais atenuante do machismo no ambiente jornalístico é a desvalorização da figura feminina. Ela afirma que, subestimar as jornalistas é a principal forma de agredi-las de forma machista.

“As mulheres são subestimadas em vários âmbitos. Eles não admitem que o espaço de fala, que transmite e evidencia fatos e que possui tanta importância para a democracia e para sociedade, seja ocupado por uma mulher”.

Cássia relata que por conta de sua condição racial, é ainda mais subestimada que outras mulheres, algo extremamente comum em nossa sociedade. Ela explica que a pirâmide social é formada por um topo de homens brancos, em seguida mulheres brancas, depois homens negros e por último a mulher negra. 

“Então, o último lugar que eles me imaginam, é em um lugar de tomada de decisão, é em um lugar de fala, um lugar de voz ouvida. Incomoda, no geral, a sociedade ver a pessoa que é a base da estrutura social tendo sua voz propagada, e determinando o que você vai falar, te perguntando e te guiando na sua própria fala, e eu acho que por isso somos mais subestimadas, pela posição que a gente ocupa”, Cássia Rocha.

Noivado falso

Any Cometi, 26, afirma ter escolhido o jornalismo por conta de seu gosto pela escrita, além do desejo que tinha, como toda jovem, de querer mudar o mundo. “Não lembro exatamente como cheguei até aqui, mas mesmo com todos os percalços, não me arrependo. Foi a melhor decisão que tomei na minha vida. Ser jornalista me enche a alma,” conta.

Ainda no seu primeiro estágio, Any relata ter vivenciado a primeira de muitas situações constrangedoras dentro da profissão. Segundo ela, ao dizer para seu chefe que não viajaria com a empresa porque sua mãe não havia autorizado, ele perguntou a mãe ainda acreditava que ela era virgem.

Apesar dos comportamentos machistas já vivenciadas por Any, o pior deles acontecia numa empresa que trabalhou durante um certo período de tempo.

“Meu ex chefe marcava reuniões comigo sozinho no escritório e ficava perguntando sobre meu namorado, dizia que adorava mulheres muito brancas, falava sobre sexo. Depois que saí de lá e consegui algo melhor, me recuso a atender ligações desse cara”, conta. Hoje, a jornalista usa uma aliança dourada na mão direita para fingir que é noiva para evitar esse tipo de situação.

Coisa mais Linda

A série Coisa mais Linda, produzida pela Netflix, se passa no final da década de 50 e relata histórias de mulheres daquela época que são à frente do seu tempo e estão em busca de igualdade de direitos para as mulheres. São quatro mulheres fortes: a protagonista Malu (Maria Casadevall), filha de uma da burguesia paulistana, que decide abrir um bar de música ao vivo no Rio de Janeiro, depois de ser traída pelo marido.

A sócia de Malu, Adélia (Patrícia Dejesus), negra, ex-empregada doméstica, moradora de uma favela carioca, mãe de uma menina, vê nesse negócio a chance de uma vida melhor.

Lígia (Fernanda Vasconcellos), amiga de Malu na adolescência e cantora, era reprimida pelo marido, filho de uma família carioca falida, que a espancava frequentemente e a proibida de realizar seu sonho, que era se tornar cantora profissional e famosa.

Por fim, Thereza (Mel Lisboa) uma jornalista em meio a uma redação de uma revista feminina ocupada por homens que exibiam seu machismo ostensivamente enquanto se passavam por colunistas femininas para escrever as matérias, pois naquela época, as mulheres não tinham espaço algum dentro da profissão.

Porém, Thereza, uma mulher determinada, lutava para conquistar o espaço realmente feminino na revista, e trazer pautas de cunho feminista e não apenas assunto sobre beleza, casa e culinária.

Como podemos observar na pesquisa acima, esse cenário mudou, e hoje, as mulheres têm mais espaço dentro do jornalismo. Mas, também foi constatado que elas ainda sofrem com o machismo na profissão em que elas são maioria, mas os cargos de prestígio e de chefia ainda são ocupados majoritariamente por homens.

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