Influenciadores da Diversidade

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Uma nova geração de influenciadores que são sinônimo de representatividade disseminadora dos direitos humanos.

Júlia Coêlho Machado de Carvalho e Maria Clara Casagrande de Araújo

Fato: os influenciadores sempre existiram. Novidade nem tão nova assim: as redes sociais potencializaram, e muito, o número e o poder desses influenciadores, além, é claro, de democratizar a profissão de influencer. Sim, isso se tornou uma profissão rentável para muitos, mais rentável que muitos empregos de CLT. A revista estadunidense Forbes divulgou em 2017 quantos os influenciadores ganham nas redes sociais. Os que veiculam pela plataforma Youtube foram os grandes vencedores, onde um influenciador com mais de sete milhões de seguidores pode chegar a ganhar até US$ 300 3mil, ultrapassando Facebook e Instagram.

As redes sociais tornam tudo que é do meio off-line exponencialmente maior. A questão é: os influenciadores que nascem na internet? Como se dá essa disseminação de informação? De que forma eles impactam a sociedade (positiva ou negativamente)? E mais, hoje em dia em quem as pessoas realmente se inspiram? Quais são seus medos, desejos e necessidades? Muitas perguntas que são difíceis de responder, porque a sociedade é heterogênea e não há um consenso sobre tudo isso. 

Já faz algum tempo que as redes sociais se tornaram uma fonte de renda e inspiração. Meninas procuram looks do dia em blogs, no Pinterest, Google e outras diversas plataformas, meninos saem a procura de jogos on-line, informações sobre esporte. Ou vice versa.

Fonte:  FG Trade/iStock

A psicóloga Carolina Piazzarollo Loureiro (31 anos) entende que “a influência de uma pessoa sobre outra estaria na visibilidade que ela tem, no lugar que ela ocupa para pautar questões, colocar pontos de vista e num papel de visibilidade isso daria uma certa legitimidade ao que ela está falando”. Mas alerta: “Isso não necessariamente funciona para todo mundo. Algumas pessoas têm uma tendência de respeitar mais esse papel do que outras, vai depender da formação, da história de vida, do momento da vida de cada um”.

Usando como exemplo um adolescente em processo de formação de identidade, ela sugere que tem mais chance de ser influenciado do que um adulto que tem mais experiência de vida, uma vez que ele já tem opiniões formadas sobre vários assuntos. Isso, contudo, não significa que um adulto não possa ser influenciado, mas sim de seja menos. 

Mais que curtidas, os influenciadores e as marcas de hoje procuram por engajamento, pessoas reais que se envolvam e dialoguem com eles. E para isso é preciso trabalho duro. Mesmo que hoje em dia as pessoas tenham o poder de se tornarem mercadorias, mais do que vontade, é preciso determinação e muito estudo para se tornar o que hoje se chama de digital influencer.

O influenciador digital nada mais é que uma pessoa muito bem relacionada nas redes sociais e que possui um alto alcance e engajamento em suas postagens. É aí que nasce um novo segmento de mercado, o marketing de influência. Cada vez mais é possível ver marcas apostando neste nicho, contratando influenciadores com milhares de seguidores e apostando suas fichas na credibilidade e influência daquela figura a fim de conseguir o tão esperado retorno financeiro.

Rede social homogênea, sociedade heterogênea

As redes sociais são o ambiente da idealização da perfeição, da felicidade extrema, da padronização estética e social. É um ambiente mascarado, do mesmo modo que, por anos, se tentou mascarar a realidade de uma sociedade que é heterogênea. Grande parte, se não a maioria dos influenciadores, sempre aparece com cabelo, pele e unhas em perfeito estado, fazendo-nos acreditar na existência de uma vida sem defeitos.

Mas há aqueles que vieram para quebrar tabus e paradigmas. A importância deles está justamente no ato de democratizar e dar representatividade para uma população que, desde os primórdios, vem sendo calada e esquecida. Foi hora de dar um basta.

A influenciadora Ingrid Nayara Moreira Martins (23), mais conhecida nas redes sociais como Nayara Martins, é representante de atendimento e mantém o perfil @eunayaramartins no Instagram, onde compartilha suas aventuras de viajante pelo Espírito Santo e pelo mundo. Negra da periferia, ela mostra que existem possibilidades e oportunidades para as pessoas que se identificam com a sua realidade.

Ela lamenta não ter tido inspirações assim quando era mais nova. “Infelizmente, na TV, em comerciais, em brinquedos, até pouco tempo atrás, sempre eram fora da realidade, da menina negra, pobre de periferia”, afirma. No entanto, sempre teve o sonho de crescer na vida, no sentido de estudar muito para ter uma vida estável. Portanto, sua inspiração maior quando criança não era alguém, mas sim a vontade de ser “alguém”. 

Hoje ainda se observa uma grande discrepância no número de influenciadores de expressão que gerem representem os diversos segmentos sociais e os que são tidos como padrão.  Nayara diz que “quando se pensa em influencer já se imagina uma menina branca, magra, rica, dando dica de beleza, essas coisas. O retrato da classe média”. E isso não é mentira, afinal é o que vemos, majoritariamente, quando estamos nas redes sociais. 

Contudo, já se vê uma ligeira mudança de cenário. A seguidora de Nayara, Victória Karoline (19), atua como modelo e se inspira na influencer justamente por ela ser alguém que possibilita “recarregar as energias” e mostra que é possível para qualquer pessoa realizar o sonho de viajar. Logo, é realidade que os influenciadores da diversidade vêm para ficar e, principalmente, para dar voz àqueles que não se encaixam no padrão midiatizado, mas que têm muito a dizer.

A psicóloga Carolina, ao tratar de questões relativas ao bem estar, afirma que ao ser submetida a constantes pressões para ter um certo corpo e padrão de beleza, a tendência é que a pessoa se sinta mal em relação ao próprio corpo.

Carolina ainda fala sobre a diversidade na influência digital: “Temos a oportunidade de termos discursos e pautas não hegemônicas e de provocar debates sobre assuntos importantes e necessários como, por exemplo, o feminismo, o protagonismo negro e a luta da classe LGBTQ de maneira geral. Dessa forma, os influenciadores da diversidade tem um papel essencial na divulgação desses conteúdos, eles acabam sendo um contrapor a um discurso hegemônico dentro de uma mídia também hegemônica que normalmente não abordaria determinadas pautas ou seria mais melindrosa. São outros discursos, outras ideias, outro ponto de vista.”

A influência sob o ponto de vista da sociologia

A socióloga Maria Angela Rosa Soares (65) define representatividade ao que “se refere a algo representativo de alguém ou alguma coisa. No sentido sociológico do termo remete a identificação, uma referência na qual pessoas ou grupos se “enxergam”, se veem representados, o que lhes aponta possibilidades de realização, ou seja, nesse sentido, representatividade se associa a poder, possibilidade de ser”. 

Como exemplo ela cita o caso de do ex presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Ao ser eleito, representou todos(as) os(as) negros(as) americanos, simbolicamente apontou a estes (as) que é possível, sim, um negro chegar ao poder na maior potência do mundo. Isso dá luz a uma outra questão que é, quando as minorias não se veem representadas por quem está no poder, seja econômico, político, religioso, midiático etc., não conseguem se identificar com esses lugares sociais e, por isso, não sonham com eles e não desenvolvem o desejo de ocupar esses espaços. Dessa forma, acreditam que esses lugares não podem ser seus também. 

Maria Angela ainda afirma que “quando a diversidade não é aceita como legítima e se pretende homogeinezar a sociedade, há enormes conflitos que geram exclusões e violências”. Isso é o que se vê no mundo on e off-line. Isso é o que acontece há milhares de anos e que a internet vem possibilitando mudar em larga escala. 

A socióloga em depoimento diz: “não sigo influenciadores digitais, mas, certamente, há influenciadores que contemplam a diversidade e os conservadores que abominam a diversidade. Os que contemplam a diversidade darão espaço para todas as “tribos” se manifestarem e vão respeitar os valores e as crenças de todos. Relativizam, logo entendem que cada um tem o direito de defender o que acreditar. Os que não aceitam a diversidade de crenças e opiniões, vão atuar de forma a coibir manifestações de valores diferentes daqueles nos quais o(a) influenciador(a) acredita. Não relativizam e, portanto, não entendem que “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Tendem, portanto, a “doutrinar” seus seguidores, ao invés de agirem como simples influenciadores.

Não há dúvidas que o processo de influência é complexo. No entanto, a questão da importância de um ambiente on e off-line cada vez mais diverso e representativo é muito simples de entender. Faz-se necessário um filtro de informações da internet e dos influenciadores. Consumir conteúdo de e com qualidade.

Por fim, a socióloga alerta que “é importante que os seguidores tenham visão crítica para identificar eventuais manipulações, que podem acontecer em qualquer espaço de influência. O maior antídoto a qualquer tipo de manipulação é o conhecimento!”


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