Relatos do envelhecimento populacional e os desafios que acompanham os idosos no Brasil

Share Button

Entre o direito à cidadania e as condições de trabalho, as mudanças na estrutura etária do país demandam atenção especial das autoridades brasileiras

Alexandre Barbosa e André Carlesso

Foto: Reprodução. Cláudio Reis/Eleven / Agência O Globo

Flávia Siqueira, 44 anos, dona de casa, é mãe de quatro filhos. Juliana Siqueira, 23 anos, estudante de Administração, nem pensa em maternidade. Juntas, mãe e filha carregam mais de 21 anos de diferença em suas idades.

Flávia se casou aos 18 anos. Sua intenção era sair de casa. “Na minha época tinha um ditado: quem casa quer casa. Então, o casamento era uma forma de ter a própria vida e sair das asas dos pais. Uma coisa natural”, explica ela. 

Aos 20, teve o primeiro filho, Fernando. Antes dos 30 já era mãe de outros três: Juliana, Luís Felipe e Beatriz. “Sempre tive o desejo de ser mãe. Gosto da minha família grande”, conta.

Ao contrário da mãe, Juliana não se casou e nem pensa em ter filhos a curto prazo. “Meu foco agora é terminar a faculdade e me dedicar ao trabalho. Imagino que no futuro vou ser uma profissional capacitada”, justifica a jovem.

Há seis meses, a Juliana saiu da casa dos pais e alugou um apartamento mais perto da faculdade. “Entendo que a situação da minha mãe era diferente. As mulheres existiam pra construir uma família grande, mas acho que não funciona comigo. Talvez eu tenha um [filho], mas não agora”, planeja.

A família Siqueira acompanha o trajeto das estatísticas no Brasil, que correspondem a lares com menos filhos, logo, com mais adultos e idosos. Além da redução do número de integrantes de uma família, o caso ilustra uma mudança estrutural que vem ocorrendo na sociedade brasileira: o envelhecimento da população.

Uma das explicações demográficas para o processo é a redução da taxa de natalidade e o aumento da expectativa de vida, como destaca o chefe da Unidade Estadual do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) no Espírito Santo, Max Athayde Fraga.

A queda da taxa de fecundidade das mulheres ocasiona um estreitamento da pirâmide etária. Ao longo das décadas, diminui-se a quantidade de jovens, como visto recentemente. Além disso, há um aumento da expectativa de vida, ou seja, a população acima de 60 anos vive cada vez mais, o que faz com que o topo da pirâmide se alargue”, explica Fraga.

Comum aos países em desenvolvimento, o envelhecimento populacional é o caminho projetado da realidade brasileira, como indica o IBGE. Com base em dados publicados no ano passado, no período de 2012 a 2017, o número de idosos no país cresceu 18%, alcançando 30,2 milhões de habitantes. A partir de 2040, a estimativa é de que este número atinja quase o dobro, isto é, por volta de 2042, a marca baterá 57 milhões. Por fim, em 2060, um em cada quatro brasileiros será idoso.

O crescimento deste número é oposto à diminuição de outra faixa etária: a de 0 a 14 anos. Ou seja, a previsão da pesquisa aponta para um país com cada vez menos crianças e mais idosos.

No Espírito Santo, 14,7% da população, isto é, 584 mil pessoas, são consideradas idosas. Para Fraga, esse quadro “requer uma série de mudanças nas políticas públicas do estado e do país, desde o acesso ao serviço de saúde até a acessibilidade física, que inclui calçamento e arborização”, afirma.

Segundo ele, a questão da aposentadoria é um tema atual e sua discussão acompanha as transformações da sociedade. “De fato, a população está envelhecendo e o número de pessoas contribuindo para a previdência tem diminuído. Nessa inversão da pirâmide etária, a tendência é de redução do número de contribuintes para cobrir esse déficit”, atesta.

Quando a aposentadoria não é o fim do trabalho

Auxiliar de serviços gerais, ocupando a função de servente em uma escola pública de Cariacica, Amélia Sabino Braga é contratada de uma empresa terceirizada há seis anos. Há dois meses, garantiu sua aposentadoria, mas não o fim do trabalho. 

Ao longo de 61 anos de vida, o trabalho sempre foi seu sustento. “De tudo que você imaginar eu já fiz”, brinca ela.  Nascida no Córrego do Café, em Ecoporanga, Amélia logo aprendeu a trabalhar na roça, capinando quintal e lidando com a terra. Ainda jovem, mudou-se junto com a família para a Grande Vitória, onde exerceu as mais diversas funções: foi operadora de máquinas em uma fábrica de tecidos e arrematadeira em uma fábrica de costura. Além do serviço fabril, trabalhou em lanchonete e supermercado, vendeu doces e foi empregada doméstica. 

Sobre esta última profissão, ela não guarda boas recordações e relembra uma época de dificuldades. Seus horários eram irregulares: “Quando eu trabalhava em casa de família, era trabalho quase escravo. Pra fazer comida eu tinha que esperar eles [os patrões] comerem pra depois almoçar. Dormia lá pras 3 ou 4 horas [da madrugada] de tanto serviço”.

Amélia e o retrato das trabalhadoras brasileiras. Na imagem, aparece ao lado de sua filha, Lorraine. Foto: acervo da família

As condições de trabalho eram igualmente precárias à época em que vendia doces na rua. Desde a rotina árdua de trabalho, que começava às 6 horas e terminava às 18 horas, até a convivência com o racismo, a atividade deixou marcas na memória da então jovem de 20 anos.

Eu tinha quase que implorar pra pessoa comprar o doce. Fora que eu sou negra, aí você já viu como é, né? As pessoas olhavam pra gente com cara feia. Não foi moleza não” (Amélia Braga)

Morou com os pais no distrito de Santa Isabel, em Domingos Martins, onde engravidou de sua única filha, Lorraine. Com o falecimento do pai, voltou para a Grande Vitória novamente, dessa vez passou a morar em Cariacica, acompanhada da mãe e com a filha ainda nos braços. 

Amélia está aposentada há dois meses, contudo, o pouco tempo recebendo a aposentadoria já foi o bastante para saber que a renda no final do mês não é suficiente para cobrir as despesas da família. “O salário da aposentadoria que eu recebo não dá pra me manter, por isso eu continuo trabalhando. É uma renda a mais que eu ganho”, explica.

Ainda mantém fôlego para exercer suas atividades. “Faço coisa que uma pessoa de 20 anos não sabe fazer”, mas confessa o cansaço. “Pretendo trabalhar até uns 65 anos, depois disso acho que não tenho condições mais”.

Caso isso aconteça, Amélia será exceção de uma estatística alarmante. De acordo com dados do Ministério da Economia, por meio da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), em 2017, 649,4 mil brasileiros acima dos 65 anos continuavam no mercado de trabalho com carteira assinada. O número aumentou 43% em quatro anos. Em 2013 existiam 484 mil trabalhadores nessa faixa etária. 

Como o governo brasileiro trata sua população idosa

Anvisa estima que Brasil, em três anos, seja quinto maior mercado farmacêutico no mundo.
Foto: Alexandre Barbosa

Seja no âmbito municipal, estadual ou federal, uma população em crescente processo de envelhecimento demanda atenção específica por parte das autoridades.  Dessa forma, com o intuito de garantir às pessoas com idade acima de 60 anos o cumprimento de seus direitos, o Governo Federal criou, em outubro de 2003, por meio da Lei 10.741/2003, o Estatuto do Idoso. A lei resguarda o idoso da violência, da discriminação e do abandono, enquanto promove a segurança, a saúde, o lazer, o esporte, a cultura, a educação, entre outros pontos essenciais para a plenitude da condição humana.

No que se refere à saúde e à qualidade de vida dos idosos, a Farmácia Popular e a Academia Popular são exemplos de iniciativas existentes que prestam atendimento, em especial a essa faixa etária. Conheça um pouco cada um desses programas.

É com a caixinha de remédios na mão que Celi Maria, 72 anos, mostra um dos sinais de seu envelhecimento. “O dia que precisar de remédio pra dor nas costas é só me pedir que eu tenho”, oferece sorrindo. Hipertensa desde muito nova, criou o hábito de tomar remédios quase que religiosamente. Além da pressão arterial elevada, regularmente sente dores na coluna e nas articulações. 

Celi vive com dois salários mínimos por mês. O primeiro é de sua aposentadoria, que recebe desde quando atingiu a idade mínima de 65 anos e parou de trabalhar, ironicamente, como cuidadora de idosos. O outro salário corresponde à pensão de seu marido, falecido em 2016.

População idosa tem gasto intenso com medicamentos, sendo a principal consumidora deste mercado.
Foto: Alexandre Barbosa

Há pouco mais de três anos, ela compra seus medicamentos com desconto de 50%. “É ótimo porque economizo no final do mês. Se botar na ponta do lápis, sai muito caro”, diz.

Celi está certa em sua afirmação. O Brasil oscila entre a sexta e a sétima colocação entre os maiores mercados farmacêuticos do mundo. Previsões da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) do ano de 2018 apontam para a ocupação do quinto lugar em menos de três anos, ou seja, o consumo de medicamentos por parte dos brasileiros, principalmente na vida idosa, é intenso e crescente.

No mês de março de 2019, a Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma) estimou um aumento de 4,46% no preço dos medicamentos, o que fará com que esses produtos fiquem mais caros já neste ano.

Zeca, perfeitamente aposentado

É justamente para evitar o consumo excessivo de remédios que José Carlos, ou Zeca, como prefere ser chamado, iniciou sua rotina de exercícios físicos. Aos 65 anos, idade que se aposentou, ele largou a marcenaria de vez e hoje, aos 71 anos, vive perfeitamente como aposentado, segundo suas próprias palavras.

De acordo com ele, a aposentadoria mudou sua rotina em muitos aspectos, dos quais se orgulha. “Hoje eu posso tirar um tempo pra cuidar do quintal e visitar meus netos. Antes, era só pauleira no trabalho”, desabafou. Em meio a tantas mudanças, manteve um costume que carrega consigo a vida inteira: o de acordar cedo e ver o dia nascer. Às cinco horas da manhã já está de pé. Entre o cuidado com as galinhas de seu quintal e um copo de café preto, já se prepara para sair.

Hoje eu posso tirar um tempo pra cuidar do quintal, visitar meus netos. Antes era só pauleira no trabalho” (Seu Zeca)

Todos os dias, ele caminha de sua casa, em Porto de Santana, Cariacica, até as proximidades da Polícia Federal, em São Torquato, Vila Velha. O trajeto é feito pela chamada orla de Porto de Santana, localizada na baía de Porto Velho, e totaliza aproximadamente 3 km. Zeca não é o único. A Prefeitura de Cariacica estima que de 1 mil a 1,3 mil pessoas caminhem diariamente pelo calçadão.

O hábito de caminhar passou a ser constante na vida de Zeca desde quando se aposentou. Inicialmente, fazia uso da Academia Popular, mas desistiu da atividade devido à falta de manutenção dos equipamentos. Muitos estão enferrujados após dias expostos ao sol e à chuva. 

Além das condições da academia, ele se queixa da falta de um profissional responsável por dar orientações à população quanto ao uso dos equipamentos disponíveis. No local, aponta para um aparelho e reclama: “Esse aqui eu não sei usar, não sei pra que serve”. 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *