Diário de um viajante

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De perrengues a descobertas amorosas, quatro mochileiros compartilham experiências de viagem que nos fazem já começar a preparar as malas – e, com nossa ajuda, você pode conhecer cinco países e ainda economizar. 

Por Jonathas Gomes e Hayom Tovi

O primeiro imprevisto aconteceu logo no início. Já era noite em Paris, a primeira capital do roteiro de um brasileiro em que nunca havia feito um mochilão. Acompanhado do amigo de infância Rubens Augusto Corrêa, o capixaba Darkio Siqueira perde seu vôo para Dublin, capital da Irlanda. Inglaterra, Bélgica, Holanda, Alemanha e Espanha ainda o esperavam. Podia ter dado um problema que afetaria o roteiro e o orçamento de uma viagem de mais de 30 dias de férias. Felizmente, não foi o caso. Mas imprevistos também são esperados em uma viagem, certo? Em um primeiro mochilão, alguns até podem ser bons. Nesse tipo de viagem, um planejamento muito fechado e pouco flexível pode i a vivência impedir a sensação mais cobiçada entre os “mochileiros”: a de liberdade. 

Uma das escolhas de Darkio foi fazer um “stopover” (conexão planejada) em Paris antes de ir para Dublin. 

“Mochilão” e “mochileiro” são palavras que ainda não estão no seu vocabulário? Então, é provável que aqui você descubra sua paixão pela “cultura mochileira”. É uma forma de viagem em que o próprio viajante organiza, independentemente e com pouco dinheiro, seu roteiro para conhecer diversos destinos de uma só vez. Ou, pelo menos, essa é a definição original da prática, que se tornou popular ao ponto de ser apropriada por grandes agências de turismo e passar por algumas flexibilizações. A ciência já constatou que viajar pode trazer muitos benefícios, desde o aumento da inteligência à felicidade comparada à de um casamento. Agora, se um viajante decidisse escrever um diário sobre seus mochilões, o que podemos esperar de bom e de desafiador nessas histórias? 

De volta ao primeiro mochilão do Darkio. Após perder seu vôo para Dublin, ele conseguiu remarcá-lo para a próxima manhã. “Planejamos voltar para o aeroporto às 4h30min”. Mais uma noite na cidade luz. Pode ser o ponto inicial de um roteiro de cinema. Com as malas já despachadas, os mochileiros foram para um hostel perto de uma estação de metrô. A escolha foi de um lugar que tivesse um bar e “rock”, diz o capixaba. “Daria tudo certo se as coisas em Paris não terminassem tão cedo. Deu 1h30min e tudo fechou”. Por sorte, os rapazes continuaram bebendo em uma boate que fecharia às 3h30, no subsolo do hostel. Ou seja: ainda teriam 1 hora e meia para dormir, levantar e voltar ao aeroporto. Tudo sob controle.

“Beep, beep, beep”. “Beep, beep, beep”. “Beep, beep, beep”. Os dois brasileiros não acordam no horário e o despertador não para de tocar em um quarto compartilhado com turistas de todo o mundo. Só os dois não acordam. O resultado, a esse ponto, já é previsível: Darkio e o amigo são praticamente expulsos do local. Mais um voo perdido.

Depois de barganhar um pouco e conseguir uma remarcação gratuita, o roteiro para o segundo destino dos amigos, ao final, não sofreu muitas alterações. “Poderia ter prejudicado a viagem porque o nosso período em Dublin era curto e já tínhamos perdido uma noite na cidade, que é um destino para aproveitar o fim de semana. Felizmente, não foi o caso”, conta Darkio, que comemorou pelo imprevisto não afetar também o orçamento da viagem. 

Mas em uma viagem por sete países, um imprevisto é o mínimo esperado. Pessoas realistas imaginariam imprevistos diários – talvez, os que escrevem sejam até um pouco pessimistas. Darkio tranquiliza: foram poucos imprevistos, que poderiam causar grandes problemas, mas isso não aconteceu. Entre as histórias de imprevistos, algumas foram até boas. O roteiro da viagem mudou de 2 para 6 dias em Barcelona. Isso porque durante a passagem por outros destinos, a cidade da Espanha foi apontada diversas vezes como um destino imperdível. Os dias em Madrid foram reduzidos, mas Darkio garante que a mudança valeu a pena.

“Não ter um roteiro muito planejado também pode ser muito bom para aproveitar melhor a viagem do jeito que você quer. Tem que ser um planejamento aberto a adaptações para não ficar com aquele sentimento de ‘e se..?’”, recomenda o capixaba Darkio Siqueira, que conhece mais de 40 países.

A primeira experiência como mochileiro exigiu um bom plano orçamentário para curtir as cidades, e também para pensar na acomodação e na alimentação durante os mais de 30 dias. “O orçamento foi a parte mais difícil”. Ainda que existam muitos blogs, grupos e perfis em redes sociais dedicados a ajudar mochileiros de primeira viagem, poucos oferecem informações detalhadas de como planejar um orçamento, conta o capixaba.

Fora as variações de câmbio, que dependendo do momento político-econômico, podem ser muito instáveis. “Na época, o euro subiu bastante por causa da crise na Grécia. Gastamos entre 80 e 85 euros por dia. Para o nosso tipo de gasto foi suficiente. Voltei com 405 euros e ainda fiz compras lá”. O valor inclui hospedagem, transporte, alimentação, compras, entrada em atrações, “rocks” e quaisquer outros gastos, com exceção de passagens internacionais e do seguro saúde. 

Ter uma certa “flexibilidade planejada” nesse ponto é importante para curtir melhor a viagem. Os hostels permitem conhecer pessoas de todo o mundo, em um clima mais propenso a amizades e um ambiente de troca de experiências. Viagens noturnas, embora não sejam bem uma hospedagem, são uma forma de economizar e de descansar, na medida do possível.

Mas, em certo momento dos mais de 30 dias de viagem, o cansaço viria, e Darkio sabia disso. “De vez em quando, nos permitimos um quarto privativo, para tirar as coisas da mala e descansar melhor. Hotéis foram uma outra opção de hospedagem”, conta. 

O ideal é sempre viajar com dólar, exceto se for para a Europa (Ocidental). Até para viajar para o Leste Europeu.”, diz. 

Essa flexibilidade também é esperada para uma das partes mais apreciadas por mochileiros: a alimentação. Viajar para a Espanha e comer em fast foods em vez de saborear o melhor da culinária mediterrânea não parece uma opção aceitável. “Gosto muito de comer, pelo menos uma vez, em um restaurante bom de cada lugar, para garantir que estou comendo bem e que aproveitei a gastronomia do local”, conta o brasileiro.

Experimentar a culinária local pode até não ser tão caro. Darkio conheceu muitos restaurantes do tipo “prato/menu do dia”, muito acessíveis e frequentado por moradores locais. Geralmente, eles oferecem uma entrada, um prato principal, uma bebida e uma sobremesa – e ele pagou por volta de 10 euros nas refeições desses restaurantes. Nada mal para conhecer como um típico morador local se alimenta. Mas este também dá a famosa “enganada” na fome durante a correria do cotidiano, e para os mochileiros, que passam o dia andando, essa estratégia é mais importante ainda.

Petiscos cumprem bem esse papel e Darkio tem mais de um motivo para ir a um supermercado e comprá-los. “Eu compro bastante snacks para a fome durante as caminhadas. Deu fome, já abro um biscoitinho ou barra de cereal e dou aquela enganada. Gordice não tem erro. Eu gosto muito de conhecer os supermercados locais e ter uma ideia do custo de alimentação do lugar. Quem sabe algum dia eu vá morar naquele lugar? É uma forma de conhecer melhor o custo de vida dos locais.”

Em uma viagem de mais de um mês, por sete países europeus, passando por vários hostels e tendo que atentar às diferenças de cada lugar, o que você levaria em sua bagagem? “O básico que eu carrego depende muito da estação da viagem. Nesse primeiro mochilão, fui no inverno, então levei muita roupa de frio. Tênis confortável é muito bom, pois sempre andamos muito, além dos produtos de higiene e do protetor solar – ainda em destinos de inverno, o sol reflete na neve e queima muito a pele”.

Veja mais alguns itens listado por Darkio que não podem faltar na sua mochila e dicas importantes:

Cadeado: “Para quem fica em hostel, é bom levar o próprio cadeado para trancar o locker. Eu não uso o locker, mas concentro minhas coisas de valor na mala e tranco com cadeado.”

Doleira: “É muito útil para quem vai utilizar mais dinheiro em espécie. Na carteira fica só o que vai ser utilizado no dia, enquanto na doleira deixo o resto. Em caso de assalto, ninguém vai conferir uma doleira também.”

Toalha de microfibra: “Ela ocupa um volume menor e seca muito mais rápido. É ótima para mochilão porque trocamos de lugar frequentemente e, às vezes, você toma um banho e já tem que sair, então dá para dobrá-la úmida mesmo e já guardar. A probabilidade de ela dar mau cheiro é menor.”

Extensão: “Eu acho mais útil do que ter vários adaptadores. Alguns hostels não têm tomadas individuais. Então, com a extensão, você consegue utilizar seu celular no seu espaço, sem precisar de muitos adaptadores, porque a extensão é adaptada à tomada do seu país. Um adaptador para conectar a extensão à tomada já é o suficiente.”

Pasta com cópias de documentos: “Por prevenção, pois em situações de emergência, ter cópias de seus principais documentos pode ser muito útil.”

O primeiro mochilão de Darkio “serviu para quebrar máximas que o mundo nos coloca e me mostrar que tudo depende da experiência.”

Acredite, se perder em um mochilão é normal

Eles (perrengues) sempre vão acontecer. O importante é no auge do estresse tentar buscar a melhor maneira de sair daquela situação ou tentar tirar algum proveito dela!”, recomenda a – otimista – estudante de Publicidade Klara Colodetti. Sim, é verdade. Darkio Siqueira, em seu primeiro mochilão, provou que os perrengues contribuem para eternizar uma viagem, com sua história de uma noite a mais na cidade luz. Mas… E se esse perrengue for desembarcar de um trem e descobrir que está no destino errado? Este foi o roteiro estrelado por Klara.

Na histórica cidade de Salzburg, Áustria, Klara se deparou com um dos maiores desafios daquela viagem. Sem saber, pegou um trem completamente diferente ao que deveria. O vai e vem comum de funcionários naquele trajeto não aconteceu. Sem ter a passagem checada, continuou até Mattighofen, ainda na Áustria. Ao final de 90 quilômetros e uma hora de viagem, enfim desembarcou. O primeiro choque se deu quando a cidade não se parecia nada com que ela havia imaginado. Pelo contrário: era mal cheirosa e vazia. Perdida e quebrada, Klara não sabia onde estava e muito menos tinha dinheiro para comprar outra passagem. Foi aí que decidiu, como única solução, colocar seu “jeitinho brasileiro” no jogo e tentar contornar a situação. Encontrou um funcionário, chorou, explicando, em inglês, o que havia acontecido até que ele, tocado pelo aperto passado, não cobrou outra passagem de volta à estação onde embarcara. De lá, seguiu viagem à Hallstatt, cidade que havia planejado desde o início.

Não obstante, além do longo desse cansativo e extenso percurso, seu maior problema foi ter deixado uma mochila de um mês de viagem no armário de outra estação. “Fiquei com medo de não conseguir voltar e ter que deixar tudo meu por lá. Mas deu tudo certo, aqui estamos para contar a história”, brinca. 

Depois de muito sufoco, enfim a tão esperada selfie na encantadora cidade de Hallstat.

Existem problemas mais sérios, mas vencê-los é preciso

Infelizmente, alguns problemas estruturais comuns a diversas culturas podem afetar o planejamento de um mochilão. Antes de viajar, a publicitária Mariana Simões já pensava em como o machismo traria empecilhos para a realização de uma viagem. A sensação de insegurança e o medo de sofrer algum tipo de violência começa já na própria cidade, afirma ela. Mas sua educação familiar, voltada à liberdade e à independência, não lhe permite dar espaço à repressão de viver a vida e buscar novas experiências. Ainda que “tomar conta das desigualdades” seja um processo que demande um certo tempo, principalmente quando esse tema não é amplamente debatido e alguns comportamentos já estão cristalizados, como evitar andar sozinha à noite e buscar em locais mais movimentados. 

Ela, contudo, reafirma que não deixaria de viajar por conta desse problema, e defende que outras mulheres façam o mesmo. “Conheci muitas mulheres viajando e isso me encorajou a ir cada vez mais além. Seja nos roteiros ou na vida em geral.

“O mais triste é perceber que no Brasil, minha própria casa, é o local em que menos me sinto segura dos países que já estive”, lamenta Mariana Simões, que já realizou mochilões pela Europa, Argentina e Sudeste Asiático.

Porém, ela admite que tem algumas ressalvas com alguns países, como a Índia, que gostaria de visitar, mas prefiro ir com um pequeno grupo de pessoas para se sentir mais segura, já que a cultura “é extremamente machista”, diz Mariana. Ela comemora o fato de suas viagens terem sido sempre muito boas e sem graves problemas, nos mochilões pela Europa, Argentina e Sudeste Asiático. “Viajaria novamente?” “Com certeza! Aliás, mal posso esperar pela próxima!”, diz, sem titubear.

 Conheci muitas mulheres viajando e isso me encorajou a ir cada vez mais além. Seja nos roteiros ou na vida em geral!”, exclamou Mariana Simões.

Amores quase impossíveis

Como todo bom mochileiro, histórias de amor sempre sussurram pelos corredores de hostels e albergues. Muitos viajantes, já saem de seu país  para se encontrar pessoalmente e amorosamente. Sem raça, etnia ou gênero, amar é um ato comum entre mochileiros. Em suas hospedagens, quase sempre, nesses lugares, acontecem festas ou ‘welcoming party’, dentro e fora dos quartos compartilhados.

Essa é a história de Ana Júlia Araújo, uma mineira de 21 anos. Seu primeiro encontro com um viajante aconteceu depois de uma dessas festas no hostel em que estavam hospedados. O rapaz passava a maior parte do tempo no fumódromo, e ela, na pista de dança.

O encontro dos dois aconteceu por intermédio de seu amigo em comum, que ela também conhecera nesta viagem aos Estados Unidos. Após ter tido ciência de que “um cara muito gato” estaria nos fundos, ela foi até ele a fim de cumprimentá-lo. De primeira, a espontaneidade típica  da brasileira espantou um pouco Bae, um tímido coreano recém chegado e pouco imerso na cultura ocidental.

        “De lá pra cá, ele acostumou com meu jeito ‘pra’ frente. Conversamos o resto da festa inteira, primeiro como amigos e depois resolvemos dar uma chance. Ele ficou no Texas e eu continuei minha viagem. Acontece que eu não retornei para o Brasil e resolvi passar mais tempo em Dallas”, lembra Ana Júlia.

        O final desse caso de amor inesperado e quase impossível ainda está para acontecer. Os dois ainda estão no Texas juntos. Pelo fato de ter documentação americana, Ana Júlia iniciou os estudos em um ‘Community College’, com o intuito de estudar Artes. Bae ainda está em período de mochilão pelo estado americano e sem data para retornar à Coreia do Sul, seu país de origem.

Viaje com rumo certo

Ainda que o momento econômico brasileiro não esteja propício a viagens de lazer, há opções acessíveis de roteiro de mochilão na América do Sul, com direito a ampla diversidade cultural e passagens por diversos países. Veja nossa sugestão de 20 dias de mochilão, com orçamento de R$ 4 mil, com exceção de passagens de ida e volta ao Brasil.

Uruguai

Com chegada em Montevidéu e estada de quatro dias no país, recomendamos conhecer o centro, notável por sua culinária regada ao toque cultural de um show de Tango. Isso mesmo, o Uruguaios também bailam ao som Gardel. No dia seguinte, um city tour pela cidade e seus vilarejos. Punta Del Leste, é uma ótima pedida para passar o terceiro dia na cidade. Já no quarto dia, traslado de ferryboat para Buenos Aires.

Argentina

O roteiro segue para a Argentina, do quinto ao oitavo dia. Museus e monumentos tomarão um dia inteiro para serem vistos. No dia seguinte, o passeio para Colônia do Sacramento, no Uruguai, mas de fácil acesso por ferryboat em Buenos Aires, fará o mochileiro não querer voltar mais para casa. No penúltimo dia, em Buenos Aires, vale conhecer as redondezas de bicicleta aproveitando mais tarde a vida noturna agitada. No último dia, traslado para Santiago. Recomendamos ir de ônibus.

Chile

Para descansar da extensa viagem – de ônibus – até Santiago (Chile), que será do nono ao décimo segundo dia, sugerimos uma excursão em ônibus panorâmico pela cidade. No dia seguinte, excursão de um dia em Valparaíso e Viña Del Mar. No décimo primeiro dia de mochilão, aproveite a tarde ensolarada para conhecer a culinária impecável em contato com paisagens exuberante no centro de Santiago. No décimo segundo dia, traslado para a Bolívia.

Bolívia

Em La Paz, destino do décimo terceiro ao décimo sexto dias, o ideal é conhecer a cidade. Por ser uma capital um tanto quanto curiosa, por suas estradas sinuosas e por possuir o maior deserto de sal, sugerimos caminhar pelos bairros. No último dia, durante o translado para Lima, faça algumas paradas para conhecer a estrada mais perigosa do mundo que conta com uma vista incrível.

Peru

Já em Lima, último destino dos quatro dias restantes, aconselhamos conhecer alguns do inúmeros centro culturais da cidade. No antepenúltimo dia, ida à Cusco. No penúltimo dia, aconselhamos um bate-volta para Machu Picchu. No último dia de intercâmbio, translado de volta ao país de origem.

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