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Quando o usuário percebe prejuízos na execução de tarefas do dia a dia e desenvolve sentimentos nocivos à autoestima, o uso da internet pode estar enquadrado em um vício.

Por Jonathas Gomes e Hayom Tovi
jonathasgomesdsilva@gmail.com
hayom-tovi@hotmail.com

Dos transportes às filas de espera. Das salas de aula aos espaços de trabalho. Das refeições às mesas de bares. Em todos os lados, é perceptível o quanto os brasileiros utilizam a internet no cotidiano das grandes cidades. E um levantamento feito pela plataforma Data Reportal com dados da agência de social media We Are Social demonstra esse quadro. Segundo a pesquisa, em janeiro de 2019, os brasileiros passaram 9 horas e 29 minutos utilizando a internet diariamente, o que coloca o país em segundo lugar no ranking dos maiores usuários, apenas atrás das Filipinas. O uso excessivo da internet pode, contudo, ser caracterizado como um vício em algumas situações. O problema já afeta a saúde mental de parte dos usuários e desafia a utilização consciente em uma sociedade cada vez mais conectada.

Ainda que recente, este tip de vício já é objeto de estudo e de tratamento em alguns centros especializados. Este é o caso do “Instituto Delete – Uso Consciente de Tecnologi@s”, o primeiro núcleo brasileiro especializado em detox digital (que inclui a internet e outras tecnologias), fundado por Anna Lucia Spear King, psicóloga e professora da Pós-Graduação em Saúde Mental do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPUB/UFRJ).

King destaca que é preciso avaliar se há algum quadro patológico por trás do uso excessivo da internet. “No Instituto Delete, o paciente passa por avaliação psicológica e psiquiátrica. Essas avaliações buscam identificar se o problema parte da falta de educação em relação ao uso consciente da internet ou se há algo de patológico por trás do problema, como ansiedade e depressão. Em seguida, inicia-se o tratamento psicoterapêutico e psiquiátrico. Há também o grupo de consciência, que educa os usuários quanto ao uso saudável da internet e de outras tecnologias”, explica.

No Instituto Delete, o tratamento é multiprofissional e conta, por exemplo, com psicólogos, psiquiatras e fisioterapeutas. “Os psicólogos participam como psiterapeutas, os psiquiatras realizam a intervenção medicamentosa e os fisioterapeutas identificam consequências físicas do uso abusivo de tecnologias e da internet, como problemas de articulação e de postura”, explica King. Diferentemente de centros voltados ao tratamento das dependências química e alcoólica, não há a proibição do uso da internet e de outras tecnologias, principalmente porque o uso consciente destas é benéfico e faz parte da vida contemporânea de todos.  

Ainda não há, na saúde pública brasileira, políticas públicas bem elaboradas que visam intervir no problema, analisa a fundadora do Instituto Delete. Segunda ela, há demanda de pessoas que não vivem na região metropolitana do Rio de Janeiro para o tratamento oferecido pelo instituto. “Só conheço mais um centro de tratamento desse problema, que funciona na Universidade de São Paulo (USP). Quando recebemos solicitações de outros estados, por exemplo, recomendamos a leitura de livros sobre o assunto. As pessoas ainda têm de aprender muito por conta própria”, diz a psicóloga, que é autora de obras sobre o tema, como o livro “Nomofobia” (expressão que descreve o desconforto de estar sem o celular disponível), produção conjunta com os professores do Instituto de Psiquiatria da UFRJ Antonio Egidio Nardi e Adriana Cardoso.

Os prejuízos em relação à aprendizagem e ao desempenho acadêmico foram sentidos pela estudante e assessora de vendas Stéfane Goulart. Usuária das redes sociais Twitter, Instagram e Whatsapp, Goulart conta que gostaria de utilizar menos as plataformas. “Sinto que a internet, apesar de ser uma ferramenta incrível de conhecimento (se utilizada da forma correta), vem me atrapalhando de modo considerável no dia a dia quando se trata de absorver conteúdos acadêmicos e culturais em geral. Grande parte do meu tempo é desperdiçado nas redes sociais e não sinto que isso seja um acréscimo na minha intelectualidade como um todo. Pelo contrário, me faz desejar passar menos tempo imersa nessa rede”.

A assessora de vendas notou mudanças de hábitos que cultiva desde a infância. “Sempre fui uma leitora voraz. Meu gosto por livros vem desde a infância. E é um hábito maravilhoso que tem sido afetado diretamente pelo tempo excessivo que gasto com a justificativa de distrair a mente do estresse do dia a dia passando horas no celular sem fazer nada de relevante. Meus estudos também são afetados, pois de 15 em 15 minutos acabo pegando o celular para espairecer e quando reparo o tempo passou sem eu ter estudado verdadeiramente“, conta.

Prejuízos à percepção da autoimagem

Outros hábitos do uso excessivo da internet podem afetar diretamente a saúde mental dos usuários. Nas redes sociais, onde jovens representam grande parte do público, problemas relacionados à própria autoimagem podem se desenvolver, dependendo da forma como o internauta lida com as informações que recebe. “A autoestima está ligada a estarmos seguros de quem somos, de nossos valores e de nossas convicções. Quando estamos seguros, não precisamos  entrar em nenhum tipo de disputa para provar que somos felizes. Agora, quando comparamos nossa vida com a dos outros nas redes sociais, entramos em um círculo de frustrações. São gerados sentimentos nocivos à autoestima do indivíduo, que por sua vez começa a se depreciar por não ter o carro que o outro tem, assim como a casa, as viagens, entre outros pertences que são expostos na internet”, aponta a Psicóloga.

O estudante de Design de Moda Junior Loureiro se identifica com o problema e teve que criar estratégias para utilizar melhor as redes e evitar comparações de estilo de vida com os influencers que acompanha. “Às vezes, eu desativo o Instagram para ter um tempo para mim, para não ficar tão mal. Se deixar, começamos a viver uma vida que não é nossa, consumindo muitos produtos de marcas caras, ainda que a gente não tenha dinheiro suficiente para isso. Isso pode prejudicar muito a percepção que temos de nós. Eu tento fazer um uso equilibrado hoje, porque essas coisas já me afetaram muito. A internet é ótima e todos nós podemos fazer um uso muito benéfico dela, mas em excesso, pode fazer muito mal”, desabafa o estudante, relatando também que deixa de levar seu celular para momentos de lazer como forma de se manter desconectado.

Loureiro lembra que a forma como utilizava a internet também afetou sua vida acadêmica. “Já tive que excluir o aplicativo (do Instagram) para fazer minhas tarefas da faculdade porque eu passava o dia vendo a vida da Kylie Jenner e de outras celebridades. Ficava vendo a rotina de casais influencers e isso prejudicava o meu desempenho acadêmico. Eu utilizava a todo o momento as redes sociais”.

Onde buscar ajuda?

Foto: Jonathas Gomes


Atendimentos psicoterapêuticos em clínicas dos cursos de graduação em Psicologia, como no Núcleo de Psicologia Aplicada da Ufes (foto), são opção acessível ao tratamento.

Embora não haja centros de saúde especializados na dependência digital e de internet na Grande Vitória, a psicoterapia é o tratamento mais comum para o problema. Para quem não pode arcar com os custos desse serviço, há opções gratuitas ou de baixo custo disponíveis nas clínicas de psicologia das universidades e faculdades da região. Confira:

Núcleo de Psicologia Aplicada (NPA) – Ufes

Aberto a todos. Crianças e jovens de até 17 anos devem se inscrever mediante a autorização do responsável. Atendimento gratuito.

Endereço: Av. Fernando Ferrari, 514 – Goiabeiras, Vitória – ES, 29075-910

Telefone: (27) 4009-2509

Clínica de Psicologia – UVV

Aberta a todos. Crianças e jovens de até 17 anos devem se inscrever mediante a autorização do responsável. Atendimento a baixo custo e gratuito (para pessoas carentes).

Endereço: Avenida Comissário José Dantas de Melo, 21 – Boa Vista II, Vila Velha – ES, 29102-920

Telefone: (27) 3421-2161

Clínica de Psicologia – FAESA

Aberta a todos. Crianças e jovens de até 17 anos devem se inscrever mediante a autorização do responsável. Atendimento a baixo custo.

Endereço: Av. Vitória, 2.220, Monte Belo, Vitória – ES, CEP 29.053-360. Bloco VI – PILOTIS

Telefone: (27) 2122-4168

Núcleo de Práticas em Psicologia (NPP) – Multivix

Aberto a todos. Crianças e jovens de até 17 anos devem se inscrever mediante a autorização do responsável. Atendimento a baixo custo. Os atendimentos acontecem nos campi de Vitória e da Serra.

Campus Vitória

R. José Alves, 135 – Goiabeiras, Vitória – ES, 29075-080

Telefone: (27) 3335-5669

Campus Serra

Rua Barão do Rio Branco, 120 – Colina de Laranjeiras, Serra – ES, 29167-172

Telefone: (27) 3041-7070

Centro de Psicologia Aplicada – FAVI

Aberto a todos. Crianças e jovens de até 17 anos devem se inscrever mediante a autorização do responsável.

Endereço: Av. N.S. da Penha nº 1.495 Ed. Corporate Center sala BT 202, Bairro: Santa Lucia – Vitória/ES – CEP: 29056-905

Telefone: (27) 3325-3576