Era uma vez um mundo onde livros falavam e brilhavam nas telas

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Júlia Coelho e Maria Clara Casagrande

Como a evolução tecnológica dos livros gerou a revolução das novas práticas pedagógicas dentro de instituições de ensino

Hora de dormir. Ritual de sempre. A mãe se deita com seu filho e vai ler uma história dos mais belos contos de fadas – com aquela moral no final, para que não falte aprendizado na literatura infantil. Abre o livro e, de repente, não é um livro, mas um Kindle. Familiarizado com a palavra? Kindles são dispositivos móveis criados para leitura de e-books. Outra palavra complicada, não é mesmo? Pois bem, e-books são livros digitais, que podem ser lidos em qualquer dispositivo móvel. Vocabulário atualizado com sucesso.

De fato, é popular a frase de que “os tempos são outros”. Com a chegada dos e-books, livros interativos – através dos quais o leitor não apenas lê, mas tem que exercer tarefas durante a leitura. Os audiobooks são livros narrados e, portanto, escutados. As práticas pedagógicas dentro de escolas e de universidades vêm mudando sistematicamente. Os estudantes aprendem e produzem saberes de formas nunca antes pensadas.

Dania Monteiro Vieira Costa, 45, professora do Centro de Educação da Universidade Federal do Espírito Santo e doutora em Educação e Linguagem, acredita ser natural a mudança. “Nós, do campo da Educação, precisamos trabalhar com esses diferentes materiais e suportes textuais, mostrando as diferenças de uso e trabalhando com os alunos as múltiplas possibilidades, por que se não podemos acabar “fechando” o ensino, nos mantendo muito conservadores e não abrindo as fronteiras para entender as mudanças que estão ocorrendo nos suportes e até nos gêneros textuais”, afirma.

E-books: uma infinidade de possibilidades

A Pew Research Center realizou uma pesquisa em 2016, nos EUA, e os resultados apontaram que a maioria dos norte-americanos prefere os livros impressos, mas que os leitores de e-books tendem a consumir mais obras do que aqueles que limitam sua leitura aos livros de papel: uma média de 24 títulos por ano, contra 15 consumidos pelos leitores do formato mais tradicional.

Isso mostra que as possibilidades para os estudantes que consomem e-books são aumentadas. Sua potência no que se refere ao ensino é maximizada, assim como seu foco em resultados. Basta atentar para as estatísticas. De acordo com o Jornal O Globo, 40% das escolas particulares do Brasil já usam a tecnologia dos livros digitais para ensinar as crianças. Não seria diferente nas universidades, onde os jovens já são heavy users (quem faz uso intenso de algo) de tecnologia e internet.

Os livros físicos não estão fadados ao desaparecimento. Segundo o Censo do Livro Digital menos da metade das editoras entrevistadas está investindo no segmento de livros digitais. O livro impresso ainda é responsável por 98,91% das vendas no país. O censo foi realizado em conjunto pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel) pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), em 2016.

Para a estudante do 7º período de Pedagogia na UFES, Suzana Gewehr Gonçalves, 22, são perceptíveis as vantagens do livro digital. Ela afirma que todos os textos acadêmicos que ela consome são digitais, apesar de que, ao ser questionada do que prefere quando vai realizar uma leitura de prazer, declara ser do time do impresso. “A maioria das pessoas que eu conheço tem preferência pelo livro físico, em espécie”, completa.

Audiobooks: ouvindo a qualquer hora, em qualquer lugar

O setor de audiobooks ou livros narrados vive franca expansão. Nos EUA, quase 90 milhões de unidades foram vendidas em 2016, mais que o dobro em relação a 2011. Os números mostram que a praticidade de se ouvir enquanto realiza outra atividade é algo muito valorizado pela sociedade contemporânea.

No Brasil, este tipo de formato ainda engatinha com empresas recém chegadas no mercado, como o Google Play e as já firmadas, como a multinacional Audible e as nacionais  Tocalivros e Ubook. Vê-se que o país está atento às mudanças de cenário.

O Ubook foi criado por um grupo de investidores. Darla Almeida, 33 anos, coordenadora de marketing da empresa, relata que os fundadores tinham como propósito a idealização de uma organização que levasse informação, cultura e entretenimento de forma simples, ágil e barata para o maior número de pessoas.

Darla Almeida
Darla Almeida, 33 anos

“Por todos os lados, é possível encontrar pessoas com fone de ouvido, curtindo músicas, assistindo a vídeos e usando seus aparelhos para se comunicarem com o mundo. Foi pensando nessa junção de conhecimento e entretenimento que o Ubook surgiu: um aplicativo que permite ao usuário ouvir milhares de audiolivros onde e quando quiser. Dessa maneira, as pessoas não precisam mais carregar livros pesados de centenas de páginas ou deixar de ler um livro por falta de tempo: é possível ouvi-lo pelo celular ou tablet, com o conforto de estar com o aparelho sempre à mão e o prazer de acompanhar uma obra, mesmo durante o trânsito”, diz ela.

Quanto ao público alvo o enfoque está em pessoas que desejam se manter informadas e otimizarem o tempo em suas vidas. Além disso pode haver uma clientela mais específica que são deficientes visuais. É também notável que a aplicação deste recurso em escolas tem proporcionado uma experiência enriquecedora para as crianças em diversos sentidos. A estudante de Pedagogia, Suzana, teve a oportunidade de estagiar em escolas e sempre utilizava audiobooks de histórias infantis com seus alunos pois, na sua visão, ajudava no estímulo à imaginação das crianças.

Se são olhadas as estatísticas, vê-se que este segmento vem avançando nos últimos anos: em 2017, o número de downloads e assinaturas no mercado americano de audiolivros totalizou mais de US$ 2,5 bilhões, alta de 22,7% em relação ao ano anterior, informa a levantamento da Audio Publishers Association (APA), organização que consolida os dados do segmento. Foi o quarto ano consecutivo em que as vendas de audiolivros no país se expandiram em dois dígitos.

Percebe-se então que há uma forte adesão ao formato. Mas será que há mudança do livro físico para o audiobook?

“Na verdade, acreditamos que todos os formatos vão coexistir. Então, não é uma questão de que um formato irá substituir o outro, mas o fato de que cada um tem o seu momento. Por exemplo, não é possível dirigir ou fazer uma atividade que exige esforços físicos e ler um livro, mas você pode ouví-lo. Quando a pessoa tem tempo para sentar no final do dia e ler uma obra, o formato impresso é uma opção. Em transportes públicos, carregar um livro muito grande e pesado pode ser incômodo, nestes momentos, o e-book é uma excelente alternativa”, diz Darla.

A pedagoga Dania também acha que não é necessário falar em substituição de um método por outro. Sobre uma possível perda de conteúdo durante o processo de aprendizado no suporte virtual, ela nega e contrapõe dizendo que tudo depende da relação do leitor com o texto. Qual o interesse que ele tem naquele momento específico? Não é o suporte que vai determinar se ele vai aprender com o livro ou não, é a relação que ele tem com o material, com o tema. Se ele tiver afim dessa escuta, de entender o que o autor está colocando, eu acho que isso independe.”

Darla afirma que como os estudantes estão cada vez mais conectados é comum a adoção de dispositivos digitais nas salas de aula, o que além de otimizar o tempo, impulsiona os estudos. Exemplo disso é o lançamento do Ubook no ano passado: O Enem Para Ouvir, que reúne audioaulas com duração de oito a 20 minutos de todas as matérias que caem no vestibular. Segundo a coordenadora de marketing, a aceitação e a procura foram muito interessantes.

A implementação de recursos como e-book e audiobook é, de fato, uma estratégia bem sucedida do mercado que tenta de toda maneira acompanhar o ritmo acelerado da sociedade atual. Isso não implica na substituição de um método pelo outro. No mercado literário existe espaço para todos os suportes e isso proporciona a possibilidade de escolher o método que seja mais eficaz para cada um.

O panorama para os anos seguintes

Há de fato uma expectativa muito positiva quanto ao crescimento desses novos formatos de leituras e, portanto, de práticas pedagógicas dentro de instituições de ensino. No caso dos audiobooks, Darla comenta que existem dois fatores que contribuem para a expansão deste mercado.

São eles: o fato de as pessoas terem cada vez menos tempo sobrando para sentar e ler um livro a necessidade de se informar ou o prazer de ouvir uma boa obra. E a questão de as pessoas estarem cada vez mais conectadas, e poderem ter acesso a milhares de títulos na palma da mão. Para dar um panorama geral, em termos de Brasil, o país tem hoje dois dispositivos digitais por habitante, incluindo smartphones, computadores, notebooks e tablets. Em 2019, o País terá 420 milhões de aparelhos digitais ativos. Os dados são da 30ª Pesquisa Anual de Administração e Uso de Tecnologia da Informação nas Empresas, realizada pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP) divulgados. Entre os aparelhos, o uso de smartphone se destaca: segundo o levantamento, há hoje 230 milhões de celulares ativos no País.

É visível, portanto, que o formato digital é um potente acessório que já vem sendo usado dentro de instituições de ensino. Qualifica pessoas, otimiza o tempo e torna a experiência do usuário mais leve e agradável, tornando o ensino mais prazeroso.

Logo, espera-se que a mãe que hoje deita com a criança com Kindles, audiobooks e livros interativos, futuramente poderá ter projetos holográficos para ilustrar histórias, entre outros recursos tecnológicos. Da mesma forma, o jovem universitário em sala de aula poderá interagir com as aulas e conteúdos textuais e visuais de forma muito mais dinâmica. O universo da tecnologia está em constante expansão. Basta observar, estudar e acreditar.

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