A Deep Web e os limites do anonimato

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Por Gleiciane Marriel e Júllia Cássia

A rede que levanta mistérios mundialmente concentra mais do que apenas riscos, porém, seus conteúdos ocultos podem gerar grandes consequências

A ideia do que vem a ser a deep web para muitos é genérica e superficial. Conceitos como “é ilegal e criminosa” ou “possui conteúdos subliminares” podem gerar uma visão distorcida tanto da própria deep web, quanto de qualquer rede que utilize o princípio do anonimato. De fato, algumas afirmações a respeito da deep web – rede que não pode ser acessada através de plataformas de busca ou navegadores comuns, como o Google ou Yahoo – são fato, já outras estão incompletas ou não passam de suposições.  

Retomando as origens dos fundamentos das redes anônimas, o professor do Departamento de Informática e do Programa de Pós-Graduação em Informática da UFES Magnos Martinello explica que “a motivação dos criadores vem da filosofia de que cada pessoa tem o direito de se expressar livremente sem revelar sua identidade”. O uso do anonimato tem como essência ser uma rede de comunicação que criptografa informações a fim de tornar o rastreio algo complexo. Esse princípio é usado também por grupos sociais que são perseguidos em contexto político, como aponta a pesquisadora em Comunicação no contexto da cibercultura e mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Territorialidades (PósCom-Ufes) Leilane Cruz. Ela salienta que “as redes anônimas são uma resistência a este ecossistema é um dos caminhos possíveis para fatias da sociedade que mantém uma voz de protesto conseguirem burlar a criminalização”.

Para que a deep web funcione, é necessário usar serviços específicos de acesso. O mais  conhecido e utilizado é a rede TOR, sigla que deriva do nome do projeto “The Onion Router” (O Projeto Cebola), remetendo à noção de túneis entre as conexões, o que permite distribuir o tráfego de dados dos usuários por vários servidores, criando um circuito criptografado. “O serviço TOR escolhe 3 IPs aleatoriamente na rede para definir uma rota anônima entre cliente e servidor. Em seguida, cria um descritor para enviar ao hidden service (que é um serviço de diretório da rede). Não há uma organização hierárquica nos nomes (ex.: xuxu.com.br) e os nomes são endereços de 16 caracteres com extensão .onion. Essa extensão é uma chave para buscar umas conteúdo, que é encriptado entre o usuário e o site”, esclarece Martinello. Atualmente, a rede TOR possui uma rede de oito mil servidores voluntários espalhados em todo o mundo.

Através de seu tráfego não criptografado, o TOR se tornou uma ferramenta de privacidade e liberdade on-line.

Desde 2006, a organização sem fins lucrativos Tor Project Inc. foi fundada para garantir seu desenvolvimento. Uma das criações da organização, que tornou acessível o acesso de usuários à deep web, é o Tor Browse, um navegador como o Google ou Firefox que pode ser baixado através da rede aberta na web. Em 2010, por exemplo, o Tor foi uma ferramenta de uso durante a Primavera Árabe que protegeu a identidade das pessoas on-line e também permitiu acesso a mídias sociais e sites que foram bloqueados.

De acordo com Leilane, existe um enorme discurso criminalizador sobre as redes anônimas, que reduzem a navegação oculta a termos como “deep web” e “dark web”, definindo que a internet contém camadas e que algumas partes podem ser ‘obscuras’. “Seria como se existisse uma “boa internet”, que as pessoas acessam e uma “má internet”, que apenas hackers criminosos e pedófilos acessam. Mas não se sustenta, pois existe uma só internet. Não existem camadas profundas, afinal, a internet é uma rede”, reforça.

Uma rota ilícita

Por vias legais, a deep web tem utilidade como depósito de banco de dados e para registros de informações privadas ou institucionais. Serviços de streaming e provedores de e-mails são também uma das opções encontradas em rede. Mas o acesso privado a uma internet sem censura também a torna território livre para usuários desenvolverem os mais diversos tipos de práticas criminosas. Através dela é possível ter acesso a sites associados a vendas de armamentos, tráfico de drogas, ações terroristas, pornografia infantil, serviços de assassinos de aluguel, divulgação de vídeos de tortura e ao tráfico humano, entre outros.

Dados de um relatório da Norton Cyber Security, em 2017, mostram que o Brasil foi o segundo país com maior número de casos de crimes cibernéticos do mundo. Apesar de a deep web ser uma rede com uma fiscalização complexa e seus usuários clandestinos atuarem de forma anônima no compartilhamento de conteúdos ilegais, a maioria desses atos criminosos não derivam da rede.

O delegado titular da Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Cibernéticos de Vitória/ES, Brenno Andrade, explica que grande parte dos crimes tratados não são exclusivos da Deep Web, sendo a maioria  crimes comuns que constam no Código Penal ou em legislação específica de crimes virtuais. Mas o acesso livre a material ilegal estimula o usuário a se conectar à rede e por isso “às vezes os criminosos buscam esse conteúdo na deep web em função do anonimato e sua facilidade. Então, eles acabam se utilizando dela para conseguir um conteúdo ilícito”, comenta o delegado.

Fernanda Saqueto/Reprodução

“As psicopatias sociais se sustentam em mentes que perversas”, explica o psicanalista em referência a escolha dos usuários pelo uso ilegal da rede.

Esse lado perverso, que também caracteriza a deep web, é assumido por usuários que a tornam território para práticas desumanas. O psicanalista e professor de Comunicação e membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória José Antonio Martinuzzo aponta uma outra motivação para esse tipo de uso do anonimato distante de qualquer julgamento ético. Ele destaca que os sujeitos que utilizam essas redes para praticar atos imorais “geralmente não foram apresentados ou não absorveram em seus processos de formação subjetiva a questão dos limites e interdições. Mantêm-se como “imperadores” no mundo, como senhores de quaisquer vontades”.

Para manter em circulação o mercado ilícito, a deep web conta com sites comerciais para a venda ou intermediação de produtos ilegais. O Silk Road (em português, ‘Rota da Seda’) foi um mercado operante através da rede TOR que ganhou destaque depois de uma operação do FBI que o tirou de circulação e prendeu seu criador Ross Ulbricht, em 2013. Eram comercializados diversos produtos ilegais como drogas, armas e até contratos do serviço de matador de aluguel.  

Inaugurado em 2011, só possuía acesso ao Silk Road quem estivesse conectado à rede anônima Tor. Após o Silk Road ser desativado, surgiu uma nova versão do site em 2013 – o Silk Road 2.0, operado por antigos administradores e seguindo a mesma linha de mercado. O destaque durou pouco. Em novembro de 2014, por meio da “Operação Onymous”, a segunda versão foi retirada do ar e decretada a prisão de Blake Benthall, de 26 anos.   Autoridades policiais de 17 países participaram da operação e foram apreendidos um total de R$ 2,5 milhões em moeda virtual Bitcoin, ouro e prata.

Apesar de abrigar sites de comércio de substâncias ilícitas e possuir muitas outras vias clandestinas, o acesso à deep web por si só não configura conduta criminosa. Como qualquer rede, a navegação anônima pode servir para vários propósitos e, por isso, o que incrimina o uso é o tipo de conteúdo acessado e armazenado nas informações do usuário, por meio do qual a polícia têm acesso e efetua as medidas cabíveis a esses delitos.


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