O sonho de chuteiras

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O difícil caminho rumo à profissionalização e a disparidade entre oFutebol de audiência, que movimenta bilhões de dólares, e o futebol fora das telas, que emprega muitos atletas, mas que carece de atenção, investimento e estrutura.

Ana Clara Bianchi
Heitor Mateddi
Vitor Santos

Cafu, em 2002, erguendo a taça da conquista do penta. Foto: Luca Bruno/AP

O mundo para a cada quatro anos para assistir a bola rolar na Copa do Mundo. Trinta e duas seleções nacionais disputam o título mais cobiçado do mundo enquanto mais de 1 bilhão de pessoas assistem aos jogos pela televisão – ao menos foi o que divulgou a FIFA (Federação Internacional de Futebol). Segundo a Organização, apenas a decisão da Copa do Mundo no Brasil, em 2014, que foi disputada entre Alemanha e Argentina, teve audiência equivalente a 13 mil Maracanãs lotados. Ali, no palco verde e gramado, os melhores atletas do mundo colocam sangue, suor e lágrimas em busca de redenção, sucesso e glórias. A cada quatro anos o ciclo se repete e novos jogadores ganham destaque; viram heróis, vilões ou ídolos.

Esses atletas, no entanto, representam uma parcela muito pequena e privilegiada de pessoas que vivem de futebol e pelo futebol. Mesmo em um país, como o Brasil, que tem o futebol em seu DNA. Aqui, na terra de Garrincha e Pelé, o futebol está em todas as esquinas. Nas escolas. Nos bairros. Na televisão. Segundo o Ibope Repucom, em 2015 os jogos de futebol tiveram o triplo do tempo de transmissão na televisão – aberta e fechada – do que o vôlei, o basquete e o tênis juntos. Não é de se espantar que ser jogador, ou jogadora, de futebol seja o sonho de muitas crianças brasileiras. Ainda que o sonho seja guiado pelo que vemos na televisão – a final da Copa, os jogos mágicos do Brasileirão, a cobrança de pênalti que vai definir o campeão da libertadores -, a realidade do futebol para a maioria dos atletas que tentam viver do mundo da bola é restrita e muitas vezes cruel.

A disparidade entre os sonhos juvenis e a realidade é abissal. O levantamento da CBF, a Confederação Brasileira de Futebol, mostra que, em 2015, dos 28.203 jogadores sob contrato no futebol, 23.238 deles (82,4%) ganhavam até R$ 1.000,00 de salário registrado na carteira de trabalho. O número melhora um pouco para 3.859 atletas, que representavam 13,68% do total, e recebiam por mês entre  R$ 1.001,00 e R$ 5.000,00. Apenas 0,12% dos atletas registrados no BID recebiam entre R$ 200 mil e R$ 500 mil. No balanço de 2017 divulgado pela CBF, que traz um raio-x do futebol brasileiro, mostra que há 24.841 atletas com contrato definitivo com clubes brasileiros e 26.874 atletas com vínculos não profissionais, grande parte destes vínculos firmados com alguns dos 354 clubes de futebol amador do Brasil (são 722 clubes profissionais registrados na CBF).

Existe o futebol de audiência que beira meio mundo, que movimenta bilhões de dólares, e o futebol que emprega igualmente muitos atletas, mas que carece de atenção, investimento e estrutura. Em comum entre eles está a bola redonda e o fato de que todo grande atleta no Brasil passou pelo campo de terra batida em algum momento de sua formação, até ser descoberto por um grande clube. É isto que faz com que os sonhos dos jovens atletas continue vivo. Apesar das dificuldades.. A bola, ainda assim, gira.

Em busca do sonho

O cenário do futebol no Brasil é tão desigual quanto as questões econômicas e sociais que marcam o país. No Espírito Santo, estado periférico em termos de futebol, o sonho de se tornar jogador profissional requer ainda mais empenho por parte dos aspirantes a atleta. Mesmo para quem alcança esse objetivo, profissionalizar-se, o cenário capixaba de futebol não é em nada parecido com a audiência e os milhões que giram em torno do esporte nos estados vizinhos, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia.

Os principais times capixabas, embora centenários e com passado glorioso, oferecem pouco aos atletas que jogam nos campeonatos locais – inclusive em termos de campeonatos. No Espírito Santo, não existe um campeonato, ou vários campeonatos, que dure o ano todo. Existe o Campeonato Capixaba, que acontece entre janeiro e abril, e a Copa ES, que ocorre entre julho e outubro. Nos cinco meses de intervalo entre os dois campeonato locais, os clubes capixabas têm por hábito renovar toda a equipe técnica e rescindir os contratos com os atletas. Quem opta por jogar profissionalmente no Espírito Santo, pode ficar até cinco meses sem receber por falta de contrato. Ainda assim, a bola gira, e o sonho permanece.

Marcio Martinelli, meia atacante de 20 anos, é um desses jovens que segue sonhando.“Desde crianças meus avós e minha família sempre me apoiaram e pagaram as escolinhas para eu poder treinar. É meu sonho ser jogador profissional”, disse o atleta. Marcinho, como é conhecido no mundo do futebol, treina desde os sete anos de idade. Ainda trocando os dentes de leite, o menino fazia parte da escolinha de futebol da AERT, em Bairro de Fátima, na Serra. Alguns  começam a treinar futebol ainda mais jovens. A franquia Ronaldo Academy, que leva o nome do pentacampeão Ronaldo Nazário, aceita crianças a partir dos quatro anos de idade.

Marcinho marca um golaço durante o campeonato capixaba sub-20, em 2017

A caminhada de Marcinho no futebol já dura 13 anos. O meia passou por seis times, entre eles a escolinha da AERT, o clube de base Porto Vitória, o Santo André-SP, e o Espírito Santo FC – quando assinou seu primeiro contrato como profissional. Recentemente, Marcinho teve uma passagem pelo sub-23 do Grêmio-RS. Agora, o meia voltou ao Espírito Santo e deve assinar contrato com o Vitória Futebol Clube, para disputar a Copa Espírito Santo, que começa no segundo semestre deste ano. Ainda que a caminhada seja difícil, e a vida de jogador de futebol não reserve muitas oportunidades, além da possibilidade irrestrita de sonhar, Marcinho consegue listar as principais conquistas da carreira – até agora, como ele frisa.

Marcinho, aos 15 anos, disputando competição patrocinada pela Cola-Cola.

“Em 2013, participei da Copa Cola-Cola aqui no Espírito Santo. Fomos campeões representando a escolinha do AERT. Fizemos as oitavas, quartas e semifinal da fase nacional em São Paulo. E lá conseguimos avançar para a final. O jogo da final foi contra Santa Maria, um time do Rio Grande do Sul. A final foi no Estádio Mané Garrincha, estádio de Copa do Mundo! Naquela partida, acabamos perdendo de 1 a 0. Mas, mesmo com a derrota, tivemos uma boa surpresa: a Marta, jogadora da Seleção Brasileira, escolheu alguns atletas para jogarem amistosos na Argélia e no Egito. Outra grande surpresa foi o meu nome ser o primeiro a ser chamado. Pude conhecer dois países que eu nunca imaginei que iria conhecer aos quinze anos. Além de ter conhecido a Marta, uma das grandes jogadoras do mundo, ao final da competição, recebi as medalhas das mãos de Pelé. Foi uma conquista muito grande para mim. Mas espero ter outras para contar”, disse Marcinho.

O meia Marcio Martinelli, dando entrevista ao final do jogo, quando defendia as cores do Espírito Santo FC.

O jovem meio-campista treina agora para quando a bola rolar pela Copa Espírito Santo, enquanto espera por um futuro tão cheio de oportunidades, conquistas e sonhos realizados, como quando tinha 15 anos. Como muitos jogadores brasileiros, Marcinho sonha em jogar profissionalmente defendendo as cores de um grande clube na maior competição do país, o Brasileirão.

Uma escolha difícil
A zagueira capixaba Sabrina Marques durante competição

 

O caminho rumo à profissionalização no futebol é  difícil de percorrer. No futebol feminino, os desafios são ainda maiores. Mesmo no Brasil, que dizem ser “o país do futebol”, mas claramente ainda não é o país do futebol feminino. A barreira que separa o futebol feminino do masculino, já foi expressa em lei. Em 1941, o governo brasileiros institucionalizou a opressão às mulheres no futebol através do Decreto-Lei 3.199,  vigente até 1975.

Foram 34 anos de proibição da prática de futebol para as mulheres no Brasil. Até 1981, elas ainda estavam proibidas de se profissionalizar. Foi na década de 90 que o futebol feminino começou a conquistar espaço na mídia e nas conversas de bar. Em 1996, o futebol feminino foi incluído na lista dos esportes olímpicos e o Brasil conquistou o 4° lugar na olimpíada de Atlanta, fato que ajudou a impulsionar a modalidade feminina do país, principalmente depois da eliminação histórica sofrida pela seleção masculina pela seleção da Nigéria.

Em 2007, foi criada a Copa do Brasil de Futebol Feminina, que ainda hoje se mantém como principal torneio de futebol feminino do país. Em 2017, a Fifa, a Conmbol e a CBF passaram a exigir que os clubes de futebol masculino também investissem na modalidade feminina, sob pena de multa ou não-participação na Libertadores – a competição continental que reúne os principais clubes da América do Sul. Até 2019 os clubes  Apesar dessa movimentação das entidades que comandam o futebol, as mulheres ainda precisam driblar o machismo, a falta de financiamento e apoio para conseguirem como profissionais do esporte.

A capixaba Sabrina Marques, de 23 anos, sabe bem sobre quão difícil pode ser escolher ser jogadora de futebol. Mesmo representando o estado no futebol feminino, seja no fut7 ou futebol, os times do estado não tem apoio ou patrocínio recorrente. “Às vezes é até difícil participar de competições que exijam que a gente fique um tempo fora. As meninas que trabalham precisam negociar com o patrão, quem estuda precisa conversar com os professores. Algumas inclusive têm o ponto cortado”, diz a Zagueira.

Às vezes, as barreiras do futebol feminino começam em casa.  O desejo deSabrina de treinar futebol começou aos 11 anos, e inicialmente a família não foi muito receptiva à ideia. “Quando eles viram que isso me fazia feliz, começaram a me apoiar”, conta. A trajetória dela no futebol dura 12 anos. A zagueira já defendeu as cores do Vitória de Santo Antão, time de Pernambuco, e conta que as atletas que sonham em se manter como jogadoras de futebol, devem mesmo procurar por oportunidades em outros lugares, que não o Espírito Santo, ou mesmo o Brasil. “ Aqui no estado não vejo muitas oportunidades [para jogar profissionalmente]. Não por falta de jogadoras talentosas, mas sim por falta de apoio. Aqui, o nosso único retorno é a alegria de jogar futebol”, diz Sabrina.

As mulheres que ousam sonhar em jogar futebol profissionalmente no Espírito Santo e no Brasil tem uma escolha difícil pela frente: sair do país em busca de reconhecimento e melhores condições de trabalho, como fez inclusive a Marta, eleita cinco vezes a melhor jogadora do mundo pela FIFA, ou ficar no Brasil e tentar conciliar a rotina de trabalho, treino e estudos em busca do sonho de se tornar jogadora profissional de futebol.

O outro lado do sonho: o futebol amador

O futebol amador é uma prática muito comum Brasil afora, e não é diferente no estado do Espírito Santo. O sonho de se tornar jogador profissional ou até vivenciar a rotina desses poucos privilegiados, mesmo que por alguns instantes —no preceder das partidas e sentindo a grama nas chuteiras a cada 90 minutos em campo— é presente no coração de milhares de jogadores, que dão um tempo de sua realidade habitual, seus trabalhos e afazeres “comuns” para se sentirem no mesmo patamar dos grandes do esporte por um curto período de tempo, afinal somos o país do futebol.

Matheus Ambrosio, zagueiro do Itaguaçu e estudante de Administração exalta a importância dada ao esporte “Nós jogamos na várzea desde muito jovens, isso é realmente uma paixão, tratamos como se fosse profissional mesmo, a grande diferença, infelizmente, é que não conseguimos viver financeiramente do futebol amador, por isso muitas vezes acontece de deixarmos de jogar pra trabalhar em outras coisas, mas a partir do momento em que entramos no campo é pra valer, sempre com muita seriedade e compromisso”.

Mas não é só dos rostos desconhecidos nas quatro linhas que vive o futebol amador, uma prática muito comum é a direção dos times trazer para atuar em um jogo ou até mesmo em um campeonato, ex jogadores ou até jogadores profissionais em atividade, que aproveitam para ter atividades ao longo de todo o ano, já que os contratos profissionais oferecidos pelos clubes capixabas em maioria são curtos, normalmente delimitados ao fim de um determinadas competições.  

Diferentemente de como é com o atleta amador, David Gregorio, zagueiro que atualmente defende as cores da Desportiva Ferroviária, vê a parte financeira como um dos grandes atrativos para o jogador profissional nesse âmbito e lamenta a situação do futebol capixaba. “No futebol amador já cheguei a jogar até três vezes numa mesma semana, por clubes diferentes. Obviamente o suporte e as condições de trabalho não são as mesmas, por isso o cuidado para não se lesionar ou ter algum problema grave é redobrado, mas na questão salarial consigo uma renda muitas vezes maior do que a que os clubes capixabas me oferecem em contratos”. Razões como essas tornam cada vez mais comum nos depararmos com figuras conhecidas no cenário futebolístico do estado, participando de partidas amadoras.

Outra marca registrada quando se fala em futebol de várzea é a torcida característica que assim como manda o figurino incentiva, pega no pé, comparece ao estádio mas ainda tem um algo a mais. É aquele tipo de adepto que tem um relacionamento muito mais íntimo com seus ídolos do que estamos acostumados a ver nas grandes ligas, é o torcedor que cobra a defesa em linha quando vê o seu zagueiro caminhando na rua indo pro trabalho ou parabeniza o centroavante pelo golaço do jogo passado enquanto está atrás dele na fila do banco. Orli Vitorio, torcedor do Itaguaçu comenta a importância de incentivar a modalidade para que ela se mantenha viva nas cidades. “Nós tentamos sempre comparecer aos jogos para que o esporte na cidade nunca morra, ter a torcida apoiando é muito importante e a gente acaba se envolvendo e criando uma identificação com os clubes”.

O torcedor ainda destaca que é a paixão que move a torcida e fala da intimidade com os membros do clube.  “Costumo sempre falar que primeiro nós escolhemos um time nacional e depois um municipal, por ser uma cidade pequena, você acaba criando vínculos com os atletas e dirigentes do time e de fato torcendo por eles”

Fato é que a modalidade vem crescendo no estado. No dia 30 de junho, ocorreu a grande final do primeiro Campeonato Rural de Futebol Amador do Espírito Santo, competição que vinha acontecendo desde março e contou com 74 equipes e aproximadamente 1.500 atletas amadores. O Anchieta se sagrou o primeiro campeão da competição depois de bater o jaguaré nos pênaltis, após um empate por 1×1 no tempo regulamentar, em jogo que ocorreu no Kleber Andrade em Cariacica, estádio que recentemente vem sendo palco de jogos da série A do campeonato Brasileiro e já foi usado de base de treinamento pela seleção brasileira campeã olímpica de 2016 e a seleção de Camarões na copa do mundo de 2014, fatores que serviram para abrilhantar o espetáculo e valorizar os atletas, que em sua maior parte provavelmente nunca tinham jogado num estádio de tamanha proporção.

O crescimento dessa vertente do futebol atrai cada vez mais os olhos de grandes clubes e mantém o sonho vivo, com cada vez mais atletas esperando ser o novo Gabriel Jesus (Manchester city) ou Leandro Damião (Internacional), atletas que iniciaram suas carreiras no futebol amador e hoje em dia são jogadores de sucesso com participações na seleção brasileira.

 

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