Quem não sonhou em ser um jogador de futebol?

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Mas antes é preciso passar pelas peneiras, onde nem sempre o talento fala mais alto

Robson Silva

‘Quem não sonhou em ser um jogador de futebol?’.  Já dizia Skank em uma de suas músicas mais conhecidas músicas, Partida de Futebol. Esse é o sonho que corre em milhares de veias brasileiras. O Brasil, mundialmente conhecido como país do futebol, é celeiro de milhares de craques que brilham mundo à fora, como Neymar, Phillipe Coutinho e Gabriel Jesus.

Gabriel Jesus pintava ruas na Copa de 2014; hoje é titular da Seleção Brasileira. Foto: Repodução/Facebook

Obviamente, a caminhada que fazem todos os atletas de sucesso é completamente distinta. Entretanto, todos eles alcançaram a glória máxima: representar a Seleção Brasileira em uma Copa do Mundo. O questionamento que se faz nisso tudo é: por que, em um país com tanto talento, muitos não despontam ou, ao menos, chegam à carreira profissional?

Corrupção

Tradicionalmente associado à corrupção, o Brasil não se vê muito distante dessa característica no quesito esportivo. Antes o futebol ficasse limitado à beleza dos espetáculos das quatro linhas e às festas nas arquibancadas. O processo de formação de inúmeros jovens é marcado, muita das vezes, por situações que os submetem a subornos, esquemas de favorecimento e até mesmo de abuso.

Processo de seleção envolve dezenas e dezenas de atletas.
Foto: Globo Esporte/Reprodução

Iury Demuner é um exemplo de que tais situações ocorrem de fato no mundo futebolístico. No seu último ano de ensino médio, com quase 17 anos (idade considerada avançada para o entrar em um clube), o jovem se viu em uma situação de estranhamento.

Ao prestar teste nas categorias de base de um clube carioca, após um processo de ampla preparação e adequação física, foi reconhecido como um dos melhores participantes da seletiva pelos presentes e por alguns pais que estavam no ambiente. “Fui jogar de zagueiro, que, normalmente, é uma posição pouco disputada nessas peneiras. Fui bastante elogiado pelos companheiros e pelos pais que estavam lá. Quando anunciaram o resultado, fiquei bastante surpreso, pois um garoto que não havia ido tão bem foi convocado e eu não. Claro que não posso afirmar que houve um empresário facilitando ali, mas a sensação que ficou para todos foi essa”, afirmou.

Mas chegar a realizar o teste já é sinônimo de vitória para muitos. Há quem esbarra no fator financeiro, como o caso relatado por Felipe Hoffman. Durante toda a sua infância, foi goleiro de vários times do interior do Espírito Santo. Com um nítido talento, foi, aos poucos, sendo alvo de empresários que passaram a fazer propostas para levar o jovem goleiro a peneiras nas categorias de base de grandes clubes do futebol nacional.

Entretanto, havia toda uma compensação financeira a ser feita. “Quando se era destaque em algum campeonato regional, como a Copa Gazetinha, frequentemente apareciam esses empresários interessados em nos levar pra fazer testes em clubes de ponta. Mas sempre cobravam uma compensação financeira para isso. Eu não lembro ao certo os valores cobrados, mas faziam esse ‘intermédio’ pra gente”, afirma Hoffman, que agora se forma em Jornalismo na Universidade Federal do Espírito Santo.

Empresários gananciosos marcam este ramo.
Foto: Reproduçaõ/Internet

O problema central nesse aliciamento de atletas é, em primeiro plano, tornar os que conquistam o desejo de ser jogador refém dos interesses de uma pessoa voltada ao lucro. Em segundo plano, limita as pessoas que terão acesso a essa seletiva, tornando-a elitista e, principalmente, desperdiçando inúmeros talentos que poderiam somar para o futebol brasileiro.

Contradição

As peneiras e entradas em clubes ficam tão reféns de empresários que acabam criando situações em que os próprios pais os procuram para conseguirem alcançar os desejos dos seus filhos. É o caso de M.A., que prefere não se identificar. Atualmente seu filho atua em equipe mineira comandada por empresários, por isso tem receio da exposição. “A gente que procurou esse empresário porque sabemos que é assim que o futebol funciona hoje”, afirmou. Quando questionado se esse empresário realizou a tradicional cobrança de uma compensação financeira, o pai permaneceu um longo tempo em silêncio, negando posteriormente. “Não houve cobrança de taxa, houve um processo que precisamos ajustar e que ele levou o M.J. para formar o time”, disse.

Fatores de Avaliação

Em conversa com um dos responsáveis pelo processo seletivo de um clube do interior de Minas Gerais, que preferiu não se identificar, foi possível traçar os elementos estabelecidos como critério para que os atletas sejam convocados. Segundo G.E., existem três elementos centrais em que uma comissão avalia: os fatores psicológicos, físicos e técnicos.

O fator psicológico é o nível de concentração que o candidato chega para o teste. Segundo G.E., percebe-se logo de início o nível de tranquilidade e seriedade do atleta. O segundo fator fica por conta do aspecto técnico, que é a habilidade ou talento, como definido pelo entrevistado. “Isso já é algo que o garoto nasceu. Obviamente que alguns melhoram e os que já são bons aprimoram, mas conseguimos enxergar o potencial deles”, afirmou.

Por último, o fator físico é outro elemento levado em consideração. Para cada posição, por exemplo existe um critério. De goleiros e zagueiros, por exemplo, são requeridos um certo nível de estatura e porte físico. Assim, esse fator segue sendo um dos cruciais. “Eu avisto um garoto alto e vislumbro ele na defesa. Se tiver qualidade para isso, conseguimos moldar e aprimorar”, informou.

Quando questionado sobre se já vivenciou alguma situação de corrupção nas peneiras ou conhece alguma história, G.E. preferiu não comentar sobre o assunto por receio de processos, mas destacou que isso é ‘normal’ no futebol.  “Isso aí é o que mais tem”, constatou.

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