JUBARTES: MORTE E VIDA PEREGRINA

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Amigos da Jubarte se dedicam a preservar essas visitantes assíduas do litoral capixaba, que agora já podem ser observadas de perto

Álvaro Guaresqui
Felipe Khoury
Kelly Lacerda
Suzane Caldeira

Um lindo espetáculo em alto-mar, com acrobacias que encantam qualquer um que esteja assistindo. Assim as baleias Jubarte se apresentam para os turistas e estudiosos que realizam os passeios de visitação. Não há quem não se encante, ou mesmo se questione “como pode um animal tão grandioso saltar de tal forma?”. Uma baleia adulta pode chegar a pesar 40 toneladas e a medir 15 metros de comprimento – o que pode ser comparado ao tamanho de um ônibus e ao peso de oito elefantes – e consegue projetar até dois terços do seu corpo para fora da água durante os saltos

Segundo o professor do curso de Oceanografia da Universidade Federal do Espírito Santo Agnaldo Martins, não se sabe ao certo a função das acrobacias realizadas pelas baleias Jubartes, mas os pesquisadores acreditam que sejam várias. “Pode ser uma forma de chamar a atenção, uma maneira de se comunicar através do som gerado com o impacto na água, ou ainda uma forma de exibição para as fêmeas e um desafio para os outros machos. Mas também pode ser uma maneira de retirar os parasitas que aderem ao corpo desses mamíferos”, conta.

Salto da Jubarte (Projeto Amigos da Jubarte)

Essas gigantes do mar são animais migratórios que podem ser encontradas em todos os oceanos, sendo que no período de inverno elas se deslocam das regiões polares para se reproduzirem nas  águas mais quentes dos trópicos. No Brasil as Jubartes podem ser vistas no período de julho a setembro, em toda a costa, mas principalmente no sul da Bahia (Caravelas e Abrolhos) e no litoral do Espírito Santo.

Enquanto estão em sua área de alimentação nos polos, as Jubartes se alimentam de pequenos crustáceos, chamados Krill. Durante esse período elas procuram acumular o máximo possível de gordura, uma vez que durante a migração para os trópicos e durante todo o período de reprodução elas ficarão em quase absoluto jejum.

A maturidade sexual dessa espécie é atingida entre os quatro  e sete anos, e sua gestação dura 12 meses. As mamães Jubarte dão à luz, apenas um filhote por vez, e seus bebês são amamentados por um período de aproximadamente 10 meses, mas só serão separados da mãe quando atingirem a idade de um ano, quando estão prontos para viver sozinhos. No final da temporada de reprodução, as fêmeas com filhotes são as últimas a partir de volta para as águas geladas dos polos, pois elas esperam seus filhotes crescerem, acumularem gordura e energia, além de desenvolverem a habilidade de nadar, para só assim enfrentar a longa viagem de volta.

Além de ser uma exímia saltadora, outra característica que também gera curiosidade, é o fato de as Jubartes entoarem um dos cantos mais complexos e misteriosos entre os mamíferos. Isso porque, Segundo o professor Agnaldo, cada grupo dessas baleias possui um dialeto próprio, e elas ainda modificam a voz com o passar dos anos. “Durante a viagem de migração elas cantam para manter o contato e durante a fase de reprodução os machos atraem as fêmeas para o acasalamento, também pelo seu canto, que podem ser ouvidos a grandes distâncias e até mesmo fora da água”, explica.

Animais apaixonantes por despertar atenção não só pelo tamanho, mas também pelo fato de serem saltadoras, cantoras e possuírem um comportamento muito dócil, as jubartes podem, eventualmente se tornar agressivas. Mas, segundo o pesquisador norte-americano Robert Pitman, essa reação é uma exceção, e só acontece quando elas percebem que seus filhotes estão em perigo. Fora isso, não oferecem risco, nem são consideradas predadoras, como outras categorias de baleias. Elas ainda podem manifestar esse comportamento para proteger os filhotes de outras espécies de baleias ou ajudando a defender demais mamíferos aquáticos, como a focas e leões-marinhos, de seus predadores.

As Jubartes possuem particularidades que ajudam na fácil identificação da sua espécie. A nadadeira dorsal é de tamanho pequeno e achatado.

Nadadeira dorsal (Amigos da Jubarte)

 

As nadadeiras peitorais são grandes, podendo chegar a um terço do seu tamanho e apresentam coloração mesclada em preto e branco.

Nadadeira peitoral (Shutterstock.com)

A cauda das Jubartes é larga, e apresenta um recorte que se assemelha a uma borboleta, e as marcas brancas e pretas difere em todos os membros da espécie, sendo considerada a impressão digital desses mamíferos.

Cauda Jubarte (ANDA)

MORTE: PESCA PREDATÓRIA

Apesar de, hoje em dia, a ação humana não representar mais uma ameaça direta a esses animais, a população de baleias Jubartes vem se recuperando lentamente do período em que quase foram exterminadas. Atualmente proibida em todo o mundo, a pesca comercial em escala industrial foi responsável por quase aniquilar todos os espécimes. Segundo uma pesquisa do Instituto Baleia Jubarte, pioneiro no Brasil nos estudos e conscientização sobre a importância desses animais, estima-se que a população original de baleias jubarte que ocupavam a costa brasileira beirava entre 25 e 30 mil espécimes. No período mais crítico, desde que as pesquisas começaram, entre 1996 e 2000, foram registrados apenas 2.000 baleias jubartes em território nacional. Os dados mais recentes, de 2008, apontam para a existência de 9.000 indivíduos. O crescimento populacional médio estimado é de 7% ao ano.

Segundo o professor Agnaldo, por conta das grandiosas proporções, a caça de baleias jubartes nunca chegou a ser realizada por pequenos pescadores, e sim por indústrias que detêm  barcos e ferramentas proporcionais ao tamanho do animal. Por conta disso, o processo de conscientização sobre a proibição da caça não chegou a ser um desafio, como para grupos que defendem animais com mais chances de serem capturados. Um exemplo é o trabalho do Instituto Tamar, que há anos realiza campanhas na tentativa de erradicar o consumo de carne e ovos de tartarugas marinhas e a pesca acidental desses animais. Quando capturadas, das baleias jubarte eram consumidas a carne e a gordura, que possuia várias utilidades.

Hoje, as principais  formas de assassinato de baleias que se tem conhecimento, é o  atropelamento por embarcações, captura acidental em redes de pesca, separação do filhote de sua mãe (durante o período de lactação o filhote depende unicamente do leite para sua alimentação.

VIDA: A PRESERVAÇÃO TRAZ ESPERANÇA

Na tentativa de conter o extermínio de baleias jubarte, preservando a espécie a partir do berçário de Abrolhos, em 1996 (mesmo ano em que a caça de jubartes foi proibida no mundo todo) surgiu o Instituto Baleia Jubarte, organização não governamental que é referência mundial em pesquisas e estudos sobre esses animais e em campanhas de conscientização ambiental.

Desde então, novos projetos voltados à preservação dessa espécie foram criados, e hoje compõem uma rede de informações com dados que ajudam nas ações que visam a reverter os impactos da ação humana sobre a morte desses indivíduos. Além disso, é muito comum que essas organizações realizem ações de salvamento de baleias em caso de encalhamento, embora as chances de resgate sejam muito pequenas. Cerca de 80% deles já encalharam, e foram mortas por outros motivos – como a ocorrência de doenças, o ataque de predadores (orcas e tubarões) e a morte devido a idade avançada, segundo o Projeto Baleia Jubarte.

JUBARTES E O ESPÍRITO SANTO: NOVO BOM NEGÓCIO

Criado sob uma ótica de coletivo ambiental, o projeto Amigos da Jubarte surgiu em 2014. O intuito de trabalhar de forma colaborativa em prol do desenvolvimento socioeconômico, ambiental e sustentável aqui no Espírito Santo, fez com que o projeto iniciasse a partir da união das Organizações não-governamentais Instituto Canal, Instituto Últimos Refúgios e o Eco Mares, responsáveis por alguns ambientes naturais do estado.

O Coordenador do Projeto Amigos da Jubarte e Diretor Geral do Instituto O Canal, Thiago Ferrari, contou um pouco do processo de surgimento. “Primeiro tivemos acesso a umas informações de pesquisa do Instituto Baleia Jubarte (IBJ), da Bahia, que já pesquisa baleia jubarte há mais de 20 anos no Brasil. Essas informações indicavam que mais de 17 mil baleias migravam para o Espírito Santo todos os anos, o que chamou muito a nossa atenção. Em outubro de 2014 resolvemos nos unir e fazer uma expedição, saindo do município de Aracruz, do cais de Santa cruz, e navegando em direção ao banco dos abrolhos. E lá avistamos mais de 80 baleias com diversos padrões comportamentais. Naquele momento, no mar ainda, nascia o projeto Amigos da Jubarte”, informou.

De lá pra cá, a proposta foi  entender melhor a presença desses mamíferos em águas capixabas, trabalhando em parceria com o próprio Instituto Baleia Jubarte, que hoje é a maior referência de baleias jubarte do Brasil. A partir de 2015, o Amigos da Jubarte começou a desenvolver uma série de atividades para trazer informações desse grupo de baleias que realmente migram para o Espírito Santo.

O projeto começou a ganhar uma grande importância na área ambiental, econômica e de desenvolvimento social, sendo esta última, através da educação ambiental. De 2014 a 2016, o intuito dos participantes do projeto era trazer conteúdo do mar e sensibilizar as pessoas com as informações a respeito das jubartes que visitam o estado todos os anos (entre junho e novembro).

Assim, o Amigos da Jubarte foi amadurecendo até intensificar em 2017, quando houve a sistematização das atividades devido a novas parcerias e criação de novas plataformas, como, por exemplo, o Jubarte Lab. Essa, é uma plataforma científica em parceria com Instituto Baleia Jubarte que conta com a participação de biólogos e oceanógrafos do Espírito Santo e também com a empresa júnior do curso de Oceanografia da Ufes, a Eco Oceano. Essa plataforma científica tem o objetivo de levantar e coletar dados em campo para poder formular um diagnóstico em torno da potencialidade para o turismo de observação de baleias.

Além disso,  também gera dados para pesquisa científica, como entender melhor o comportamento dessas baleias no estado, sua composição social e sua geolocalização. “Nós fazemos um trabalho em parceria com o IBJ de fotoidentificação na nadadeira caudal. Cada baleia tem um padrão de manchas em sua cauda que as fazem únicas, como se fosse a nossa impressão digital”, afirma Thiago. Segundo ele, esse registro vai para um catálogo que já consta mais de 5 mil baleias registradas. É dentro dessa perspectiva que o Jubarte Lab, desde o ano passado, colhe informações com uma equipe integrada, a fim de entender melhor a presença das baleias no litoral capixaba.

Outra atividade de igual importância é o desenvolvimento turístico. E para isso, o projeto criou uma plataforma virtual, acessada em www.queroverbaleia.com que contém informações, fotos, vídeos do projeto. Também mostra as agências parceiras do projeto que fazem a comercialização do produto final, no caso, um passeio para o avistamento de baleias.

Atingindo um grande sucesso em 2017, hoje o projeto possui seis agências parceiras. Qualquer pessoa pode entrar no site e agendar o passeio. Segundo Thiago, todas as agências são capacitadas e certificadas em curso que eles ministram todo início de temporada. Ele acrescenta que desse curso constam vários módulos, entre eles, norma de segurança no mar, práticas de navegação, além de técnicas e normas de avistamento que devem ser cumpridas.

O turismo vai além da atividade econômica, impactando positivamente a sustentabilidade, que é uma importante ferramenta para a conservação da espécie. Tendo em vista que quanto mais pessoas procuram e fazem esses passeios, maior é a abrangência da mensagem de proteção dos ambientes marinhos capixabas. Então nessa perspectiva, o Whale watching (observação de baleias) trabalha a educação ambiental.

O ciclo permanente de educação ambiental proposta pelo Amigos da Jubarte abrange uma parceria com a Prefeitura Municipal de Vitória que, através dos seus professores e pedagogos, realiza atividades também no mar. O coordenador do projeto diz que eles capacitam os professores e selecionam alguns alunos da rede municipal de ensino fundamental para levar em uma expedição junto com a equipe do Jubarte Lab. “É uma aula de ecologia em campo e na volta eles fazem oficinas como de cinema e desenho, em que trabalham o conteúdo que os estudantes viram. Isso é importante para gerar conscientização nos jovens, e é importante para uma verdadeira transformação de comportamento, que o projeto também visa” afirma Thiago.

Como produto final das oficinas, no ano passado, foi produzido  um almanaque pelos próprios alunos sob coordenação dos orientadores do Amigos da Jubarte. Depois de pronto esse almanaque vai ser distribuído para alunos de outras escolas da rede municipal, sendo trabalhado pelos professores em sala de aula. Outro produto foi cinco vídeos da oficina de cinema, produzidos também pelos próprios alunos, que serão apresentados em sala de aula.

Em 2018, o Amigos da Jubarte vem desenvolvendo mais módulos de ramificação do projeto, como a ampliação da educação ambiental em parceria com o Parque Botânico da Vale, englobando mais escolas, incluindo as particulares. “Preservando a baleia, você está preservando o ecossistema em que ela vive e, conseqüentemente, beneficiando inúmeros corais, algas e espécies que compartilham o mesmo ecossistema que a baleia jubarte”, diz o coordenador do projeto.

No ano passado foi realizado, no Parque Botânico da Vale, o primeiro Festival da Baleia, cuja intenção é marcar simbolicamente o início da temporada turística da presença da jubarte no Espírito Santo. Com uma programação intensa , o festival promoveu uma semana de atividades como um debate sobre  Vitória na rota das baleias Jubarte, com biólogos e oceanógrafos, além de exposições de fotografias e cinema infantil ambiental..

Como atração principal, o Festival trouxe shows nacionais, sendo os cantores Armandinho e Gabriel Pensador como últimos convidados. O coordenador Thiago diz que os artistas são parceiros e estão alinhados com a causa da conservação da baleia jubarte. “Fazem questão de vir para engrossar esse coro em prol da preservação, entendem a importância da jubarte”, afirma. A segunda edição do Festival acontecerá em agosto de 2018.

Em junho deste ano, o projeto começou a produzir uma série de TV com 13 episódios que conta a história da saga da migração que as baleias jubarte fazem todos os anos saindo da Antártida para o Brasil (litoral capixaba e baiano), onde cumprem o seu ciclo de reprodução. A série, que irá se chamar “Incrível Jornada” será lançada em 2019.

OBSERVAÇÃO DE BALEIAS

Existe hoje no Estado do Espírito Santo o turismo de observação de baleias que permite uma maior proximidade com esses animais. O show das baleias é realizado a aproximadamente 20 a 40 Km da orla de Camburi.

Em parceria entre a Prefeitura de Vitória e o Projeto Amigos da Jubarte, algumas empresas realizam passeios de observação de baleias.  O período ideal para a realizar estes passeios é entre os meses de Junho e Outubro, quando elas passam pelo mar capixaba.

Durante os passeios, que duram em média 5 a 7 horas, os turistas podem observar de pertinho, fotografar e se encantar com as acrobacias das grandonas.  

O passeio custa em média R$ 200 por pessoa, mas também é possível fechar pacotes em grupos, o que pode baratear o valor. No último ano, cerca de 700 pessoas, entre capixabas e turistas, realizaram este passeio.

As agências que realizam os passeios devem ser credenciadas e capacitadas pelas empresas coordenadoras – Amigos da Jubarte e Jubarte.LAB – pois é necessário que atendam as técnicas, respeitem as regras e o meio ambiente.

As saídas são realizadas sempre ao sábados e domingos, de acordo com as condições meteorológicas e oceanográficas.

Os interessados podem agendar tudo por um formulário ou e-mail para amigosdajubarte@gmail.com enviando nome, telefone de sua agência de preferência.

 

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