Reportografistas – ainda mais com muito menos

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Os “reportografistas” – acrônimo de repórter, fotógrafo e cinegrafista, são realidade nas redações de todo o mundo

Por Álvaro Guaresqui

O Osmo é a ferramenta que acopla a um celular uma câmera com um estabilizador numa espécie de monopod. | Foto: Reprodução Instagram / @kaiquediasben

A tecnologia tem mudado completamente o exercício de determinadas profissões. Com o jornalismo não foi diferente. Atualmente repórteres, cinegrafistas, fotógrafos e outros profissionais que participavam individualmente da cadeia de produção de notícias para diferentes veículos de comunicação, hoje podem ser concentrados em apenas uma pessoa.

A dinâmica mercadológica da internet mudou completamente a forma de veiculação de publicidade, abocanhando parte considerável das verbas antes destinadas à tevê, ao rádio e ao impresso. Além disso, reinventou, mais uma vez, a concepção humana de tempo real e novidade. Em contrapartida, a tecnologia que possibilitou esse avanço passou a contar com ferramentas cada vez mais baratas.

Do outro lado da moeda, estavam os veículos de mídia tradicionais, que, diretamente afetados pela concorrência criada, pelas novas possibilidades da rede mundial de computadores, precisou repensar totalmente seus processos de produção para acompanhar todo esse avanço.

Pode-se dizer que aí surgiram os “repórteres multimídia”. Mas não foi tanta surpresa assim. Pelo menos para Getúlio Costa, que há quase 10 anos já estudava a simplificação de processos na tevê e a convergência de mídias. Hoje repórter da TV Capixaba, em Vitória, Getúlio é o responsável não só pela apuração, mas também pela captação de som e imagens das próprias matérias.

“Quando você tem um câmera na equipe, fica livre para apurar as informações enquanto o colega registra as imagens. Agora isso não existe. Eu tenho que me “virar nos 30” para apurar e registrar as imagens ao mesmo tempo.”

Getúlio Costa, jornalista

Com uma câmera estabilizadora acoplada a um celular, ele faz imagens dos locais, grava passagens e entrevistas sozinho. Ele conta que a adaptação à nova ferramenta de trabalho não foi difícil, já que antes de aparecer diante das câmeras, ele atuou como cinegrafista.

No entanto, relata que a apuração se tornou um desafio. “Quando você tem um câmera na equipe, fica livre para apurar as informações enquanto o colega registra as imagens. Agora isso não existe. Eu tenho que me “virar nos 30” para apurar e registrar as imagens ao mesmo tempo. Não existe, praticamente, anotação de nada, pois minhas mãos estão ocupadas com o microfone e a câmera”, declara Getúlio, que complementa: “Essa mudança na apuração, afeta um dos princípios básicos do telejornalismo que é o tempo. A função do jornalista agora é dobrada, pois faz o trabalho de dois.”

O jornalista Getúlio Costa e o novo instrumento de trabalho: o Osmo. | Foto: Reprodução Instagram / @getuliodacosta

No entanto, se de um lado os profissionais mais experientes precisaram se reinventar para se adequar aos novos tempos, os jornalistas mais jovens encaram essa realidade como trivial. É o caso de Kaique Dias, repórter multimídia do portal Gazeta Online, que ainda quando estagiário da Rede Gazeta, atuou nas áreas de conteúdo colaborativo e até edição de imagens. Mais tarde, já contratado como repórter da Rádio CBN Vitória, conta que enviava fotos e vídeos que pudessem ser utilizados por outros veículos do grupo, que eventualmente não designavam repórteres para pautas. O convite para se tornar repórter multimídia foi natural. Hoje ele produz conteúdo para online, rádio, televisão e impresso, mas relata que a rotina de apuração ainda conta com a colaboração de outros profissionais.

“Não sou obrigado a chegar igual a um louco e publicar algo feito na rua. Eu já mando tudo em tempo real nos grupos (de WhatsApp). Mando vídeos, fotos, informações em áudio e quem está na redação, seja estagiário ou repórter do Gazeta Online, pega essas informações e resume para já colocar no site. Para tevê já mando o vídeo. No caso do rádio, eu já entro ao vivo da rua. Chegando na redação, depois de completar o texto que já está no ar (na internet), eu gravo com as sonoras. O jornal só aproveita. No máximo aprofundam algo com ajuda de outro repórter” relata Kaique Dias.


Afinal, menos com mais dá mais ou menos?

Apesar do acúmulo de novas funções, o salário não tem mudado. Os dois jornalistas entrevistados contam que não tiveram a remuneração acrescida nas empresas em que trabalham. Getúlio acredita que essa questão é uma mudança de paradigma que precisa ser acordada entre donos de emissora e o sindicato da categoria.

Sobre o futuro da profissão, nenhum dos dois vê com receio o que vem por aí. Kaique considera que o mercado, hoje, só vale a pena para quem, como ele,  gosta muito do que faz. “Sinceramente pra quem não quer, não está valendo muito. Para quem tem planos mais ambiciosos, esta é uma passagem, mas independente de onde queira estar, em qualquer lugar, hoje, o jornalista não vai fazer mais uma coisa só. Só escrever, só editar, só gravar. Isso acabou”, considera.

“Sinceramente pra quem não quer, não está valendo muito.”

Kaique Dias, repórter

Para Getúlio o futuro da profissão é a migração de mercado: “Na última década entramos em uma curva descendente no valor do salário e condições de trabalho em relação a outras categorias. O nosso valor caiu muito no mercado, que não está exigindo tanta qualidade. Conheço muitas pessoas que desistiram da profissão, mesmo gostando da cachaça que é lidar com a adrenalina e o “dead line”

Ao mesmo tempo em que sou incrédulo com o futuro do jornalismo, sou otimista com o futuro da comunicação. Acredito que ao mesmo tempo em que uma porta se fecha na redação, outras três se abrem no mercado digital e organizacional. Mercado esse que cada vez mais valoriza profissionais e exige qualidade”, analisa.

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