Para pensar o jornalismo online

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No Espírito Santo, 39 publicações produzem conteúdo jornalístico em sites na internet; segmentados ou de massa, os jornais online desenvolvem sua estratégia de aproximação com o público e abrem novas possibilidades de atuação para o jornalista.

Por Ana Clara Bianchi

A transição do analógico para o digital não marcou apenas uma revolução tecnológica, mas transformou a sociedade: novas profissões surgem, novas formas de sociabilidade aparecem – como as redes sociais, o smartphone -, há a transformação do modelo antigo de fazer as coisas para um novo modelo, agora digital, online, instantâneo. Essa onda de transformação também chegou para o jornalismo. No final da década de 90, duas décadas depois do início da era dos microcomputadores, na década de 70, surgiu nos EUA o Personal Journal, uma versão digital do The Wall Street Journal. No Brasil, a década de 90 também marcou a criação do Jornal do Brasil Online, a primeira publicação nacional na internet. Hoje, segundo o site Guia de Mídia, que faz auditoria das páginas de jornais online do Brasil e  do Mundo, existem 39 jornais online produzidos no Espírito Santo, grande parte no interior do estado, embora as grandes empresas de mídia estejam na capital. O maior impacto das transformações do jornalismo, contudo, não foi apenas a transição do papel para o digital – mas a lógica da produção da informação e o estilo da linguagem jornalística nesse novo meio.

 

O online, o estilo e a linguagem jornalística

“O mundo se transformou totalmente e o jornalismo online não ficou fora disso”, diz Roberto Teixeira, mestre e professor de Jornalismo há 14 anos. O jornalismo online ao mesmo tempo evidencia e pauta a transformação na maneira de fazer jornalismo. Roberto é enfático ao apontar quais são essas mudanças: “Houve uma mudança em relação à linguagem, transmissão de informação, apresentação das informações, as funções que os jornalistas exercem e as expertises que lhes são exigidas”.  

Até que o jornalismo online atingisse esse grau de maturidade, enquanto nova linguagem jornalística, foi necessário percorrer um longo caminho. “No começo, o jornalismo online não tinha uma linguagem própria. Era uma transposição do jornal impresso. Depois, o jornalismo online foi evoluindo para uma linguagem própria, principalmente com a  utilização dos hipertextos. Aprendeu-se a usar links para matérias anteriores, links para vídeos, infográficos animados. Em relação à linguagem, especialmente depois das redes sociais digitais, o jornalismo online encontrou uma forma mais amigável de escrever, uma linguagem de maior aproximação com o leitor”, analisa Roberto.

Essa nova linguagem, no entanto, não cabe apenas ao jornalismo online, ela impera no universo web. É o que vemos nos blogs, vlogs e nos memes que circulam pela rede – há uma tentativa de aproximação com o leitor e recirculação de conteúdo. Essa dita linguagem web, que coloca em evidência a produção audiovisual, sinaliza uma importante mudança capitaneada pela tecnologia de informação, que impacta fortemente no jornalismo: “o polo de emissão mudou. Qualquer pessoa hoje pode criar conteúdo, disseminar na internet porque tem acesso à ferramentas de produção e disseminação de conteúdo gratuitamente, como as redes sociais digitais”, afirma a jornalista e doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal de Minas Gerais, Marcela Tessarolo.

Essa mudança coloca em xeque um dos pilares do jornalismo – o jornalista enquanto produtor de conteúdo e de informação – e altera os fluxos da informação. De repente, parece que o jornalista não é mais tão necessário. Uma vez que há produção de informação circulando na rede, uma informação que normalmente é postada em primeira mão: é a experiência do usuário que ganha espaço. Como resposta a esse movimento, os jornais desenvolveram uma tática básica de sobrevivência: flexibilizaram a linguagem, apostaram em produções visuais, mais fáceis de ler e compartilhar, além de envolverem a audiência desde a pauta até a produção.  “Hoje o jornalismo se pauta muito pelo que está na internet, que julgam ser de interesse das pessoas. Tanto na pauta como na produção do jornalismo há uma grande participação dos interagentes”, analisa Marcela.

As transformações na produção jornalística

Formada desde 1999 pela Universidade Federal do Espírito Santo, Marcela relata outra transformação do jornalismo catapultado pelo online: “Antes, o jornalista precisava saber apurar e saber escrever. Existia toda uma equipe para revisar o conteúdo, outra equipe para diagramar. Hoje o jornalista precisa entregar a matéria praticamente pronta, com sugestão de título, sugestão de intertítulo. Com a expansão do jornalismo para o online, que dá possibilidade de conteúdos transmídia, o jornalista precisa ter noção de vídeo, noções de iluminação, saber fotografar”, afirma.

Esse fator é justamente o principal desafio no ensino do jornalismo hoje. Roberto Teixeira, que há seis anos leciona aos estudantes de jornalismo da faculdade Estácio de Sá, no Espírito Santo, diz que é preciso fazer com que os alunos tenham uma vocação para aprender as novas tecnologias – mesmo que alguns deles já tenham nascido sob a lógica do online -, para que possam usar essas habilidades em consonância com os  pilares éticos da profissão.

O fundamental permanece

Apesar das mudanças, há ainda algo que permanece no jornalismo, um núcleo duro que sustenta as teorias, os preceitos éticos, e um certo saber-fazer profissional, que cabe tanto ao online como ao analógico. “Apesar de toda evolução que aconteceu no jornalismo, na nossa sociedade, o texto continua  reinando. Os profissionais ainda precisam escrever, e escrever bem, porque é assim que eles conseguem conquistar uma presença na sociedade” que disse isto?. O texto, a apuração e a checagem são elementos básicos que o jornalista precisa dominar – é isto que o diferencia dos outros tantos produtores de conteúdo na web, e são essas as habilidades que ajudarão os profissionais a enfrentarem a onda de fake news.

Ainda que se exija muito mais dos profissionais atualmente, tanto dos que estão se formando, quanto dos que já estão no mercado, há espaço para uma percepção otimista para o futuro da profissão. Mesmo para quem atua como jornalista e formador de profissionais do jornalismo há quase duas décadas, como é o caso de Roberto. “Eu tenho uma percepção até certo ponto otimista a respeito da profissão, que parte de uma visão mais ampla do profissional – o jornalista como gerador e disseminador de conteúdo. Com os novos aparatos tecnológicos, a gente pode conquistar novas searas de produzir conteúdo que não existiam. Searas independentes da grande mídia. O jornalista que tem um bom texto, que consiga ouvir seus leitores, e consiga acompanhar a evolução tecnológica, tem condições de produzir um bom material e disseminar o conteúdo no seu próprio veículo”.

O desafio que os profissionais enfrentarão nos próximos anos está ligado à inovação e ao empreendedorismo. É tempo de o jornalista entender e dominar a lógica de produção voltada para o meio online,  e, possivelmente, se afastar dos grandes conglomerados de mídia em busca de uma posição de destaque junto ao público de nicho – jornais locais, agências de produção e checagem de conteúdo e publicações segmentadas despontam no horizonte dos profissionais de jornalismo. No Espírito Santo, há poucas empreendimentos inovadores no campo do jornalismo – o destaque fica para os jornais locais do interior do estado que constroem sua notoriedade perante a comunidade local e fideliza os leitores, apostando numa linguagem que se aproxima da fala coloquial das redes sociais, associada ao básico do jornalismo: a apuração e checagem de conteúdo.

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