Jornalismo de dados, um campo promissor

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Apesar da ascensão do gênero, o alto custo e a falta de profissionais capacitados trava o seu crescimento

Por Kelly Lacerda

A era digital trouxe consigo significativas mudanças para sociedade, e o jornalismo também foi fortemente impactado por essas transformações. A forma tradicional do fazer jornalístico já não é mais suficiente para entender a grande quantidade de informações disponíveis no ambiente digital, sendo assim, o jornalismo de dados passou a ser um novo conceito promissor, que pode ser entendido como uma adaptação a essas mudanças, uma nova forma de buscar, entender e visualizar as fontes, agora digitais. Porém essas transformações não representam um abandono do modo tradicional, e sim sua ampliação, uma vez que o campo jornalístico está cada vez mais permeado pelos campos tecnológicos.

Nessa nova realidade quase tudo é convertido em dados, que vão de simples planilhas de informações numéricas até emaranhados de informações complexas, que dependem de tempo e conhecimento técnico para serem interpretados e transformados de algo abstrato em algo compreensível ao leitor.

O professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Espírito Santo, Fábio Goveia, destaca que nesse contexto, um bom jornalista nunca foi tão importante. “Não basta ter um batalhão de dados e informações se o repórter não souber pescar aquilo que é importante. Não adianta fazer um infográfico imenso e não saber traduzir aquelas informações para quem vai ler, o que é importante, qual o mote daquela avalanche de dados. Esse é o ponto, a inteligência do profissional de jornalismo nunca foi tão importante como no jornalismo de dados”, ressalta.

O novo profissional exigido pelo mercado deve fazer mais que entrevistar, apurar e escrever, ele precisa saber filtrar e visualizar além do que está diante dos seus olhos nesse grande conjunto de dados armazenados e ao seu dispor. Para isso é necessário que ele esteja conectado às tendências tecnológicas, e saiba interagir com outras áreas, como a matemática, estatística e as linguagens de computação.

Todavia essa nova exigência acaba trazendo à tona um problema enfrentado pelos profissionais na atualidade, a falta de preparo. As universidades, em sua maioria, ainda não possuem um currículo que capacite o aluno para a realidade do mercado. Goveia acredita que ajustes devem ser feitos e analisa a situação. “O jornalismo de dados faz com que a gente tenha que mudar os currículos e as práticas acadêmicas. Nós vamos nos adaptando, mas a gente nunca vai ser tão rápido quanto o avançar da tecnologia. As tecnologias às vezes criam novos processos que não existiam, matam processos que estavam muito consolidados e os transformam completamente. É preciso fazer ajustes com o carro andando; as escolas de jornalismo precisam ter currículos com partes flexíveis de tal modo que consigam incorporar essas novas tecnologias”, pondera.

Os profissionais que estão no mercado também enfrentam dificuldades, uma vez que são de uma geração em que tais mudanças tecnológicas ainda não estavam presentes, sendo necessária uma busca constante por atualização. A repórter de economia da redação multimídia de A Gazeta, Mikaella Campos, faz parte do grupo que não teve essa base em sua formação, mas afirma que está atenta às novas exigências do mercado e procura adaptar-se a elas. “Eu estou tentando aprender algumas coisas de programação, acho importante. Sou de uma geração que não tinha isso, eu sou de uma turma que muita gente não tinha nem computador em casa, não tinha esse contato que tem hoje com a tecnologia”, conta.

O preço pago

Um dos grandes desafios enfrentados para o trabalho com jornalismo de dados é o seu alto custo, uma vez que ele requer investimentos específicos. O tempo médio gasto para construir as histórias através de dados é geralmente maior, durando semanas e até mesmo meses, consumindo durante aquele período o esforço integral do profissional. Para o bom desenvolvimento do trabalho é exigido das empresas que mantenha dentro das redações equipes específicas, que devem contar com jornalistas capacitados e profissionais de tecnologia que os auxiliem a processar os chamados big datas, e isso possui um custo elevado.

Pesquisa realizada pelo Google News Lab em parceria com o PolicyViz, com jornalistas nos Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e França, no ano 2017, aponta para essa realidade, a maior parte das empresas ainda são relutantes a respeito do jornalismo de dados, uma vez que elas sentem que o retorno sobre o investimento realizado ainda não é muito claro.

Para o professor Fábio Goveia, no novo arranjo jornalístico que está sendo elaborado as organizações precisam encontrar uma forma de valorar o trabalho. “Como será o retorno desse tipo de trabalho? Quem vai pagar? Serão feitos projetos especiais com financiamento público, financiamento privado ou coletivo? Essas são perguntas que ainda procuram respostas”, analisa.

Outra solução apontada pelo professor é o trabalho de parceria entre as redações e os laboratórios de pesquisa. “Experiências de colaboração serão cada vez mais importantes para o jornalismo. As redações que não têm condições de ter laboratórios, vão precisar acionar os que fazem esse tipo de trabalho”, constata.

Experiências no Espírito Santo

Apesar de andar a passos lentos o desenvolvimento desse tipo de jornalismo no Espírito Santo, algumas experiências estão acontecendo. A maioria dos trabalhos estão relacionados com a editoria de política, em que gastos dos deputados, vereadores e senadores do estado são avaliados através dos portais de transparência dos órgãos.

Mas existem também trabalhos sendo feitos fora desse âmbito. A série de reportagens, “A caixa-preta dos sindicatos”, realizada pelas repórteres Mikaella Campos e Vilmara Fernandes para o Jornal A Gazeta, demonstra isso. A série, que investigou aproximadamente 300 sindicatos e associações de trabalhadores no Espírito Santo  e constatou fraudes milionárias nas organizações, contou com um minucioso trabalho de pesquisa em dados e demorou cerca de cinco meses para ser produzida.

Para Mikaella, essa foi a matéria mais complicada em que ela já trabalhou. “Não foi fácil, as informações não estavam disponíveis de maneira transparente, tive que fazer um pedido pela Lei de Acesso à Informação, que inicialmente me foi negado. Depois que consegui os dados, a gente estava fazendo tudo na mão, em seis dias eu só tinha conseguido coletar dados de 30 sindicatos. Eu comecei a achar que não iria conseguir entregar a matéria”, recorda a repórter.

Para solucionar o problema na coleta dos dados, as jornalistas tiveram que recorrer a ajuda externa. “Aqui na Gazeta a gente não tinha ninguém que pudesse desenvolver um robô para ajudar a coletar esses dados, então um amigo meu fez um para coletar as informações. O robô coletou em dez horas o que eu ia demorar mais de um mês”, conta.

Todo o trabalho e tempo demandado das jornalistas foi recompensado, uma vez que a série de reportagens, foi vencedora do Prêmio FINDES de Jornalismo, do Prêmio Especial MPT de Jornalismo e ainda ganhou destaque internacional, sendo finalista do Data Journalism Awards 2017, considerado a maior premiação de trabalhos de jornalismo de dados no mundo.

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