Folha de SP abandona Facebook e reduz a presença de jornalismo profissional na rede

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Mudança nos algoritmos de visualização que dá mais visibilidade a conteúdo pessoal e familiar é a justificativa.

Por Giovanni Werneck

O canto das sereias resume o momento vivido nas redes sociais, onde as chamadas fake news tomaram conta do feed de notícias. Na mitologia grega, a sedução provocada pelo canto desses seres atraía os marinheiros despreparados para o fundo do mar. Hipnotizados por esses sons, morriam afogados e naufragavam. Da mesma forma, os internautas que desconhecem as armadilhas desse tipo de conteúdo, acabam se perdendo num mar de desinformação.

Em anúncio feito em sua página oficial no dia 08 de fevereiro, o jornal Folha de SP destacou, na chamada de capa, que está interrompendo a atualização de notícias e a divulgação de suas colunas na rede social Facebook. O motivo desse desligamento é descrito pelo veículo como uma resposta à falta de visibilidade pelo Facebook dada aos conteúdos de notícias ou provindos do jornalismo profissional. Os algoritmos da rede social foram atualizados no início de 2018 e passaram a dar mais relevância às postagens pessoais do que a publicações de páginas e grupos.

Jornalismo na rede social perde credibilidade com a saída da Folha.

A guerra do jornalismo profissional contra as notícias falsas e a desinformação vem sendo perdida na internet. Em relação ao mesmo período no ano passado, os 10 jornais mais lidos no Brasil tiveram os acessos e as visualizações de notícias factuais reduzidos em 32%. Em contrapartida, a interação com páginas e conteúdos disseminadores de fake news cresceu mais de 60%, de acordo com uma pesquisa publicada pela própria Folha.

A decisão de ausentar-se do Facebook, foi tomada unilateralmente pela Folha. Em resposta, a rede social afirmou que está “comprometida em construir uma comunidade informada” e “está adotando uma série de medidas para garantir que as notícias que as pessoas veem no Facebook sejam informativas e de alta qualidade”. Anunciou, ainda, que os novos algoritmos contribuem para que a sua timeline tenha mais momentos pessoais.

Em uma de suas colunas no jornal Mídia Ninja, Renata Mielli salienta que a atitude do jornal é uma tentativa de reposicionar-se na disputa por audiência, transparência e credibilidade. Essas características indispensáveis para o jornalismo estão sendo ofuscadas pela absurda quantidade de informação sem controle no Face, afirma. “O Facebook quer fagocitar a internet. Nosso modus operandi dentro da rede é computado, retido e analisado para que o algoritmo entregue aquilo que curtimos e compartilhamos com mais frequência. Essa medida facilita o aparecimento de bolhas de opinião”.

O Facebook viu-se mais uma vez envolvido num escândalo de vazamento de dados sobre usuários para uma companhia privada, a Cambridge Analytica. A rede social foi acusada de ter uma frouxa segurança no que diz respeito à privacidade. Mark Zuckerberg, CEO, foi chamado para depor perante o Senado dos Estados Unidos no mês de abril. Após críticas e acusações, Zuckerberg retratou-se e se comprometeu a reforçar sua segurança. A empresa de mineração e análise de dados Cambridge Analytica fechou no fim do mesmo mês. Alguns dos dados que foram vendidos para a empresa eram relacionados à opinião e ao espectro político dos internautas.

“O Facebook quer fagocitar a internet. Essa medida facilita o aparecimento de bolhas de opinião.”

Renata Mielli, colunista do Mídia Ninja

Essa coleta de informações por parte do Facebook aliada à maior visibilidade dada a conteúdo de “fake news”, torna a rede menos útil para a divulgação de notícias. A decisão tomada pela Folha não veio sozinha. Uma emissora de TV dinamarquesa (TV Midtvest) interrompeu um mês antes, de forma experimental, a partilha de suas notícias no Facebook. Foi notado que os leitores que acessavam o site diretamente ficavam mais tempo lendo as matérias. Uma queda de 27% do número de visualizações também ocorreu, mas foi superado por um alcance mais uniforme em todas as editorias. Anteriormente ocorriam picos de audiência. Para esta pesquisa, quatro pessoas deixaram de usar o Facebook durante duas semanas numa tentativa de entender como elas obtinham informação. Após o tempo, os avaliados afirmaram que se sentiam mais informados do que antes, visto que eram obrigadas a receber notícias unicamente de jornais de qualidade.

Renata lembra o caso que aconteceu em 2016, nas eleições presidenciais norte-americanas. Várias redes sociais, inclusive as mais utilizadas, como Twitter, Facebook e Instagram, foram acusadas de manipulação de dados para mascarar a figura do então candidato Donald Trump. A repórter tem desconfiança em relação à utilidade que essas mesmas redes terão nas eleições brasileiras neste ano.

A sedução, portanto, pelo canto emitido pelas fake news, deve ser combatida veementemente pelo jornalismo. “Um tiro no pé”, analisa Mielli, que reconhece no Facebook uma impotência em querer mudar. Sem as empresas de comunicação, o combate à informação falsa nas redes vai enfraquecer ainda mais. “É necessário aguardar para entender melhor a situação. Pode ser positivo, porque [a Folha de São Paulo] deixou sua crítica. Mas também pode ser negativo, porque deixou a ferida aberta”, encerra.

Existem várias formas de acessar notícias e reportagens do jornal.

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