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Por Bárbara Azalim, Caroline Kobi e Débora Sonegheti

“Para conquistar a igualdade de gênero é preciso igualar a forma de tratamento direcionado para homens e mulheres, respeitando as diferenças.” A primeira frase do Trabalho de Conclusão de Curso de Hyasmin Nascimento, recém-formada em Jornalismo pela Ufes, expressa de forma sucinta o que é o feminismo: uma busca incansável por isonomia. O trabalho de Hyasmin fez parte das apresentações do segundo dia de Grupo de Trabalho (GT) da XI Conferência Brasileira de Mídia e Cidadania.

A pesquisa de Hyasmin sobre o modelo idealizado de beleza no telejornalismo foi um dos trabalhos apresentados nessa tarde na Conferência Brasileira de Mídia Cidadã, reforçando o coro da discussão em torno da representação da mulher na mídia. Durante o evento, dez pesquisas trataram diretamente de temáticas ligadas ao feminino – falaram de representação nas redes, dos movimentos sociais, do audiovisual e até de política.

Ao entrevistar 11 jornalistas da TV Gazeta no Espírito Santo, Hyasmin colheu dados relacionados a questões subjetivas como “O que é beleza?”, buscando entender melhor, com a opinião das profissionais, os estereótipos e demandas para uma mulher nas redações. “Para elas a apresentadora deve estar sempre bem vestida e maquiada. Existe uma sala bem grande na TV Gazeta, cheia de luzes, para se prepararem. A mulher tem sempre muitas opções para se vestir, regras de saia até o joelho, nada de muito brinco e brilho”, disse.

O trabalho da estudante fez parte de uma mesa de apresentações recheada de temáticas que vão à contramão do que é imposto pela mídia tradicional, apresentando outras formas de enxergar a comunicação. Uma delas é o Fórum Capixaba em Defesa da Bahia do Rio Doce, plataforma criada para dar voz às populações atingidas pelo desastre ambiental de Mariana.

A mestranda em Comunicação e Territorialidades, Elaine Rodrigues Dal Gobbo, apresentou o projeto do Fórum, mostrando de que forma a comunicação pode ser ferramenta capaz de minimizar a exclusão social do mundo globalizado.

A pesquisadora mostrou que ainda há muita desinformação em relação às tragédias ambientais recentes – os meios não funcionam como plataforma de informação eficiente para os cidadãos afetados pelo problema, o que gera a demanda por novas formas de comunicar e encontrar soluções. De acordo com Elaine, as mídias sociais trazem oportunidades para essas populações, ao permitir que expressem suas opiniões e falem sobre a sua realidade.

Um novo olhar sobre o cinema

Buscando estimular o debate sobre as produções audiovisuais brasileiras e provocar processos criativos dentro das escolas, foi criado o Cine Uno Itinerante. Através de oficinas de cinema, exibindo filmes e mostrando que não é preciso ser especialista para produzir, estudantes secundaristas foram conduzidos a conhecer o universo do cinema mais de perto.

Os pesquisadores Leonardo Alcides Zancheta e Felipe Kamphorst contaram com a participação até de amigos e família dos alunos durante o projeto. “A gente teve que estudar muito para conseguir ensinar. Passar conhecimento não é tão fácil como pensávamos”, contou Leonardo, enfatizando que o engajamento foi tão ativo a ponto de superar as expectativas iniciais.

Para a produção final do projeto, os alunos sugeriram temas como a violência contra a mulher, descarte de lixo e homofobia, optando finalmente pelo último. Os pesquisadores contaram sobre a experiência durante a filmagem e da relação dos participantes do projeto com o tema, que acabou sendo encarado com muita maturidade pelos adolescentes.

Também na Unochapecó, o Núcleo de Iniciação Científica em Mídia Cidadã desenvolveu o projeto “Olhar além das telas: O adolescente como receptor audiovisual”. Segundo Ilka Goldschmidt, coordenadora do projeto, a ideia é promover um olhar crítico entre o público adolescente, que não tem o hábito de assistir filmes que estão fora do circuito comercial (blockbusters).

“Foi preciso conhecer os estudantes primeiro: trabalhar com pesquisas socioeconômicas, grupos focais e entrevistas. Tudo isso para entender de que forma o consumo de mídia fazia parte da vida dos participantes”, pontuou. Durante os grupos focais, conta Ilka, os temas discutidos surpreenderam: machismo, gênero e curiosidade em conhecer lugares alternativos pela cidade.

Afirmações como “Filme bom é filme feito nos EUA” faziam parte das conversas. Porém, falas como esta de uma aluna participante – de 13 anos – tocou os pesquisadores. “O cinema para mim é algo mágico. Eu amo cinema. Com ele é possível viajar, viver em outros mundos. Em minha opinião, é como os livros, você sente tudo, você vive tudo”, confessou a jovem em uma das reuniões do projeto.

Ao final da tarde de apresentações e debates, a discussão final ficou centrada nas responsabilidades do profissional da comunicação para com o público receptor, e a sociedade. A informação transmitida pelos meios, seja na TV, rádio, jornais ou internet, atinge um público indiscriminado. Por ser – idealmente – tão democrática, é que deve assumir sua responsabilidade em representar as mais diversas populações, gêneros e opiniões de forma igualitária.

 A comunicação na promoção da cidadania

A pesquisadora Maytê Ramos Pires, da Unisinos, apresentou o trabalho intitulado “Cidadania comunicativa e midiatização cinematográfica na recepção de sessões com Debate”, que faz parte da dissertação do Mestrado. No trabalho ela investiga a recepção de cinema em sessões comentadas na perspectiva da cidadania comunicativa pensada para o âmbito cinematográfico. O objeto de estudo são os três cinemas com maior frequência e participação nas sessões de debate, em Porto Alegre.

Para ela, há um potencial cidadão no cinema e nas particularidades da sessão comentada. “As mídias atravessam campos, instituições e sujeitos. As mídias estão atravessando os sujeitos com distinção de intensidade e modo, mas ainda assim criando vínculos, estando inseridas na cultura, no cotidiano das pessoas”, comentou. Pires mencionou também como a experiência dos expectadores mudou com a transição do cinema do espaço da rua para os espaços considerados “universais” dos shoppings, e como há uma reconfiguração do consumo cinematográfico com o surgimento de locadoras e, agora, sites de reprodução streaming, por exemplo.

Para ela, pensar a cidadania não só pensando em deveres e direitos, mas pensá-la pela ação do sujeito, como ele age, se situa, se coloca. “A cidadania exige uma formação cidadã. Trabalhar com cultura é compreendê-la e garantir espaço para que ela se manifeste”, concluiu.

Já a estudante de mestrado da Ufes, Renata Fernandes Rocha Marcelino, apresentou o trabalho “Território e poder: a relação prática entre os campos da Saúde e da Comunicação”, no qual busca entender como as assessorias de imprensa e de comunicação têm levado à população as informações de interesse público na área da Saúde.

A comunicação se afirma como elemento essencial para a promoção da cidadania. “Primeiro a gente precisa entender o indivíduo, para depois entendermos o coletivo e a comunicação com o outro na sociedade. E não existe vida individual ou coletiva sem comunicação. Nós nos comunicamos desde que nascemos”, disse. Para ela, não existe comunicação sem informação, mas para que exista comunicação é preciso existir relação.

Renata diz que pensar em território e territorialidade é pensar no homem concebendo a si mesmo. “Cada homem é um território, formado por um corpo que funciona tecnicamente como uma máquina, mas pensa, tem desejos, necessidades, sonhos, enfim, tem sentimentos além do trabalho e da busca pelo sucesso”, completou. Para a pesquisadora, é preciso pensar na comunicação respeitando as diferenças. Renata finalizou o trabalho lembrando que a Saúde e a Comunicação são direitos fundamentais de todos, e a comunicação é o elemento essencial para a promoção da Saúde na sociedade.

A superintendente de comunicação do estado do Espírito Santo, Andreia Silva Lopes, também compareceu ao evento, para expor um relato de experiência baseado nos desafios enfrentados no fazer de uma comunicação a nível estadual, e para apresentar algumas ações tomadas pelo governo do Estado para se aproximar o cidadão. Entre os exemplos de ações citados, Lopes comentou da parceria feita com a Secretaria de Saúde para a criação do “Movimento 21 Dias”, em prol da criação de novos hábitos positivos na vida do cidadão capixaba, e o desenvolvimento do aplicativo “Fiscal Cidadão”, em parceria com a Secretaria de Transparência, facilitando as sugestões, reclamações e denúncias sobre o governo por parte dos cidadãos.

 Meios de comunicação e a participação das comunidades

O trabalho de Bruno Fuser e Rodrigo Galdino Ferreira, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) sobre o “Jornal de Chiador: a participação direta e virtual na elaboração de um veículo comunitário” visa verificar como se dá a participação dos colaboradores da cidade no jornal, analisando o processo de produção e o produto (conteúdo). “Para uma cidadania ativa, a participação colaborativa é essencial”, disse.

Os pesquisadores definiram como “colaboradores” os moradores e ex-moradores da cidade de Chiador, e usaram como objeto de pesquisa quatro edições do jornal local. No trabalho, é feita uma reflexão sobre as diferenças entre a participação direta e a participação virtual dos colaboradores do jornal. “Os diálogos são diferentes? Será que na participação virtual os diálogos são menos intensos, menos sensíveis, se comparados aos diálogos pessoalmente?”, questionou Bruno.

Segundo Bruno, todas as pautas enviadas por colaboradores são publicadas no jornal, exceto aquelas que configuram calúnia, difamação e injúria. Ao observar os conteúdos do jornal de Chiador, foi possível observar que o veículo conseguiu uma aproximação com os moradores da cidade, cumprindo um papel de sociabilidade, mas ainda tem falta de matérias mais críticas. “Só o papel de sociabilidade, apesar de importante, ainda é pouco”, relatou Bruno.

A pesquisadora Maiara Orlandini, com formação na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e na Ufes, participou do evento contando um “relato de experiência da primeira edição do jornal Pisa Ligeiro: entre a comunicação comunitária e a mídia-educação”.

O jornal Pisa Ligeiro é produzido na ocupação Nova Primavera, localizada na Cidade Industrial de Curitiba, periferia da capital do Paraná, e é feito para a comunidade. O jornal foi criado após várias tentativas frustradas de meios de comunicação na ocupação, e após uma mídia-educação. “A mídia-educação apresenta para aquela população os meios de comunicação como uma ferramenta pedagógica. É uma educação para, com e através dos meios de comunicação. São feitas análises críticas e produções midiáticas”, disse.

Maiara disse que uma suposição foi que seria um desafio descontruir a visão de “mídia hegemônica” na comunidade, mas comentou que essa visão não existe entre eles e que essa foi uma surpresa boa. “A população que reside nas ocupações sabe que a grande mídia não fala deles. Eles veem as coisas acontecendo na comunidade o tempo todo e sabem que isso não é relatado pelos jornais”, relatou. O jornal Pisa Ligeiro é formulado e consumido dentro da própria ocupação, e tem a possibilidade de se expandir para duas comunidades próximas, tratando sobre problemas vividos pela ocupação, questões sociais, de meio ambiente, o positivo de viver em comunidade, etc.

#ColetaDoAssédio

Entre os diversos projetos apresentados no último dia do Mídia Cidadã, o “Coleta do Assédio” foi apresentado pelos estudantes do sétimo período de Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda da Ufes, Ivana Correa Ribeiro, Layana Nogueira Silva, Matheus Vieira Barcelos Thuler, Morgana Rodrigues Inocencio, orientados pela professora Flávia Meyer.

O projeto é de uma campanha com o objetivo de chamar a atenção para problemas estruturais dentro da universidade, além de transmitir uma mensagem de conscientização sobre a violência contra a mulher. “Pensamos nesse projeto quando vimos que não estávamos seguros na Ufes, após o caso preocupante que ocorreu com uma estudante de Cinema na saída da universidade, que sofreu uma tentativa de estupro. Buscamos formas de pensar em dois problemas. Precisamos falar da estrutura física dos lugares, que é precária, por exemplo, por faltar iluminação e segurança, e também em como esses problemas estruturais acabam piorando outros, como é o caso do assédio. Queremos chamar atenção para tudo isso e também fomentar o diálogo entre todos, homens e mulheres”, relatou o grupo.

A campanha tem o nome pensado a partir da coleta seletiva de lixo que há na sociedade. “A coleta seletiva pega o lixo, que depois é transformado e reutilizado de forma positiva pela população. A ideia é fazer com que as pessoas enxerguem o que acontece, debatam essa realidade e se transformem para melhor. Queremos que surja algo bom a partir dessa campanha”, comentaram. Além da produção audiovisual, a campanha pretende colar cartazes com uma frase de impacto para chamar a atenção de quem passa perto. “A comunicação ajuda em lutas como esta, tanto pela propagabilidade, quanto pela forma de expressão visual. As pessoas são visuais, e podemos chamar atenção assim. E também podemos usar a internet para que as pessoas possam discutir. O alcance é maior. Como comunicólogos, temos várias ferramentas em mãos e podemos usar esses conhecimentos em prol de uma causa como esta”, completaram.

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