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Isabella Altoé, Laiza Nicodemos e Luísa Perdigão.

Em uma quarta-feira após uma semana intensa de estudos para finalizar a dissertação de mestrado, Alexandre Bissoli dormia sua primeira noite de sono tranquilo quando acordou e se surpreendeu com várias chamadas perdidas de seu orientador Teodiano Freire Bastos Filho, que estava no exterior. Na hora pensou: “deu uma treta pesada!”, mas ao retornar as ligações veio a boa notícia: seu projeto “Domótica Assistiva Multimodal com Sistema de Comunicação Aumentativa e Alternativa” havia sido premiado no Google Research Awards for Latin America, oferecido pela sede latino-americana da gigante Google.

A pesquisa foca no desenvolvimento e programação de um sistema que possibilita a interação entre pessoas com sérias deficiências motoras e equipamentos da casa, como televisão, ventilador e lâmpadas. Alexandre aprimorou o sistema após um ano de pesquisa e criou um ambiente virtual com realidade aumentada que simula uma residência para que o usuário possa testar e se adaptar ao equipamento. A fim de superar os avanços já alcançados, Bissoli também desenvolveu um sistema de comunicação aumentativa e alternativa que permite cadeirantes com perda residual da fala fazer ligações, enviar SMS e mensagens mecânicas para pessoas próximas.

Foi um longo e cansativo período de muita entrega no Laboratório de Automação Inteligente 2 da Ufes que, ao fim, trouxeram-lhe uma grande conquista. “Foi uma reviravolta na minha vida, fora o prestigio de ter ganhado o prêmio”. Ao marcar um horário para a entrevista com o Universo Ufes, em mensagens trocadas pelo Facebook, Alexandre Bissoli já nos alertou sobre sua rotina cheia, a correria ao conciliar trabalho, projetos pessoais e vida acadêmica. “As últimas três semanas foram uma loucura! Além das atividades que já tenho, jornalistas me ligaram o dia inteiro”.

O caminho para a conquista de reconhecimento internacional é longo. Disciplina, foco e dedicação são palavras que sempre estiveram presentes no vocabulário e no cotidiano de Alexandre. Sua trajetória começou há muitos anos em Afonso Cláudio, sua cidade natal. Quando menino, Alexandre acreditava que se tornaria jogador de handebol, e tinha motivos para isso: foi eleito o melhor jogador da modalidade no Estado por dois anos consecutivos. “Minha vida era essa. Eu tocava guitarra em uma banda, estudava e fazia esporte”, conta. Mas ainda nessa época, Alexandre já cultivava o amor pelos estudos exatos, que floresceu no ensino médio quando planejou estudar Eletrotécnica em Vitória. As despesas da vida na capital, entretanto, não se encaixavam no orçamento dos Bissoli e, então, o jovem estudante se mudou para Alegre, onde fez técnico em Agroindústria no atual Ifes da cidade.

Alexandre Bissoli e seu orientador Teodiano Freire Bastos Filho com o certificado do prêmio da Google.

Alexandre Bissoli e seu orientador com o certificado do prêmio da Google.

Com a chegada da época de vestibulares, o desassossego típico da adolescência tomou conta do estudante. “Desde a oitava série eu queria fazer Engenharia Elétrica ou Civil. Quando o Ensino Médio chegou ao fim, eu estava tão preocupado em passar em uma universidade que tentei 7 vestibulares”. 100% de aprovação? “Não”, ele exclamou antes de concluir com a maior naturalidade: “Passei somente em seis”. Destaque para o somente. Impossível não se impressionar.

Bissoli decidiu matricular-se em dois cursos da Engenharia: Civil na Ufes e Elétrica no Ifes, ambos em Vitória. Durante os cinco anos e meio em que esteve na faculdade, o estudante conseguiu a proeza de conciliar as duas graduações com projetos de iniciação científica e, por um tempo, estudos avançados em Matemática no PICME, programa oferecido a alunos que se destacam nas Olimpíadas de Matemática.

Com uma carga horária dessas, não é de se espantar que Alexandre tenha passado muitas noites em claro para conseguir alcançar seus objetivos. O então universitário não deixava os números de lado nem nas poucas horas de sono, sonhando com exercícios e fórmulas antes das provas. “Eu confundia os sonhos e a matéria, sem saber se tinha estudado de fato tudo aquilo ou se era algo que eu tinha sonhado. Professores já questionaram os meus métodos, e nem eu mesmo conseguia entender o que tinha escrito (risos)”.

Munido de dois diplomas, Bissoli deu mais um passo em sua carreira acadêmica ao ingressar no mestrado de Engenharia Elétrica na Ufes, onde seguiu realizando pesquisas em robótica assistiva, área em que começou a atuar ainda na graduação.

Alexandre na cadeira de rodas testando o sistema que desenvolveu.

Alexandre na cadeira de rodas testando o sistema que desenvolveu.

Ainda em êxtase por ter um projeto premiado, o engenheiro, que construiu sua carreira acadêmica estudando apenas em instituições públicas, tem o futuro aberto para inúmeras possibilidades. Alexandre recentemente obteve mais uma conquista ao ser aprovado no Doutorado da Engenharia Elétrica na Ufes. Bissoli foi da robótica para o outro extremo da Engenharia Elétrica e agora tem como objeto de sua tese a energia alternativa fotovoltaica, com que já trabalha em sua empresa: a Bissolar, que surgiu do desejo de diminuir os custos de energia da pousada de seus pais, em Afonso Cláudio.

Em meio a tantos anos de trabalho, Alexandre – que não dorme e nem bebe café (!!!) – faz com que seja difícil acreditar que seu dia tenha só 24 horas. Além do doutorado, ele divide seu tempo entre um cargo de Engenheiro Civil na Prefeitura Universitária e a administração de seu empreendimento. Quer mais? Ele ainda encontra tempo para assistir, reassistir e decorar as falas de seus seriados favoritos, Friends e How I Met Your Mother. Tudo isso aos 25 anos.

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