Share Button

Bruna Vermeuln, Caroline Pinna, Kayque Fabiano e Nadine Alves – Em 1996, o então estudante de psicologia Fernando Braga da Costa trabalhou como gari no campus da Cidade Universitária da capital paulista, por meio de estudo etnográfico, por cinco anos. O estudante não foi reconhecido por colegas ou professores, apesar do convívio cotidiano dos mesmos. Em seu livro “Homens Invisíveis: Relatos de uma Humilhação Social”, resultado da sua dissertação de mestrado, Fernando Braga narra as características da invisibilidade social. A invisibilidade seria, para ele, uma espécie de cegueira psicossocial, que elimina do campo de visão da maioria da população aqueles que são condenados a exercer uma atividade dita subalterna, desqualificada, desumanizante e degradante o dia inteiro, às vezes, uma vida inteira.

Dez anos após o início desse estudo, vemos que, na sociedade brasileira, a situação de vários trabalhadores de setores considerados subalternos não mudou muito, e que eles ainda enfrentam o preconceito e a invisibilização social. Uma das profissões que passam por essas situações todos os dias é a do gari. E é a história de dois destes profissionais, com seus altos e baixos, que vamos contar.

Segundo a socióloga Lohaine Jardim Barbosa, as próprias pessoas produzem a invisibilidade da população em situação de subemprego e trabalhos braçais, de forma geral, como os profissionais de limpeza, domésticas e meeiros do campo. “Nós produzimos isso, produzimos invisibilidade, criminalização e miséria, e a crise econômica agrava isso”. Ela ainda completa que o fato de dar “bom dia” ao gari e outras ações, poderiam ajudar a fomentar uma mudança de comportamento. Descrente, ela afirma “sou pessimista em relação à qualquer tipo de sensibilização dos indivíduos de nossa sociedade atual, cada vez mais centrados em si mesmos”.

Os queridos invisíveis
Chegamos ao centro de Vitória no local e horário marcado com nossos entrevistados. Na movimentada Praça Costa Pereira, nos aguardavam dois funcionários da Vital Ambiental, que é uma empresa terceirizada responsável pela limpeza da cidade de Vitória, e dois garis – e estes últimos foram nossos entrevistados. Nos aproximamos e fomos logo saudados amistosamente com apertos de mão e abraços, sendo formalmente apresentados para o Seu Osmar e Flaviano, que trabalham de segunda a sábado na equipe de limpeza pública na região e nos contaram a respeito de sua profissão e das dificuldades encontradas.

20160623_095810

Os garis Osmar e Flaviano

Sentamos na praça e começamos a ‘‘sabatina’’. Osmar Silvério de Souza, de 51 anos (que, inclusive, estava fazendo aniversário exatamente no dia da entrevista), e Flaviano Barbosa de Menezes, de 46. Ele, que é conhecido e querido por várias pessoas que frequentam o centro, carrega o título de ‘‘famoso disfarçado de gari’’. ‘‘Eu tô há trinta anos nesse trabalho! Antes, trabalhei quatro anos lá na Vale do Rio Doce, na limpeza de usina’’, conta seu Osmar. Já Flaviano, como ele mesmo diz, é mais ‘‘rodado’’. ‘‘Já trabalhei no transporte público por 10 anos. Foram sete anos como cobrador e três como assistente de arrecadação. Trabalhei muitos anos também de almoxarife em construção civil’’.

Os funcionários da empresa que os acompanhavam, Fabiane e José, ficam próximos da gente, mas nos deixando bem à vontade em todo tempo, inclusive participando da entrevista que estava mais com cara de uma descontraída reunião.
Pedimos então para que eles nos contem sobre suas rotinas, e então Flaviano logo responde que entra no serviço às 9 da manhã, mas acorda às 6. ‘‘Minha esposa e minha filha saem pra trabalhar. Quando elas levantam eu já levanto junto. Arrumo a casa de manhã porque eu tenho mais tempo. Arrumo a casa, tomo um café. Às vezes venho de ônibus da empresa, às vezes de bicicleta. Chego ali e a gente tem um lanche. Pego e guardo pra mais tarde’’. Flaviano também diz que gosta de chegar mais cedo ao trabalho porque dá tempo de interagir com os colegas, separar os materiais que vai usar no dia de limpeza. Seu Osmar também acorda cedo, por volta de 5 da manhã, pois o trabalho dele é mais cedo, às 7.

Entre uma conversa e outra, alguém chega para saudar Flaviano ou brincar com seu Osmar. ‘‘Vai ficar mais famoso que já é!’’, grita um rapaz que passava pela praça, e ele rapidamente atende com um largo sorriso e aceno de mão. Osmar é bem conhecido também por ser o ‘‘Gari Simpatia’’ do Carnaval de Vitória. Apesar de ser bem expansivo com as pessoas e dito por muitos como ‘‘famosinho’’, ele se acanha um pouco com nossas perguntas, coisa que não pensamos que iria acontecer.
Voltando ao nosso papo, Flaviano nos diz que fez o Ensino Médio incompleto. Após uma pausa, parecendo que ia continuar uma história, recua. ‘‘É…põe aí. Pode explicar a situação toda? Não vai justificar, mas vai explicar. Eu casei novo…19 anos. Minha esposa já tinha dois filhos. Aí você acaba tendo que cuidar, depois acabou vindo minha filha, aí meu sonho eu transferi pra ela’’. É visível o orgulho nos olhos dele ao falar da filha que é pedagoga, está fazendo pós-graduação, e subindo na carreira. Flaviano também ressalta que, graças a Deus, ele é bem tranquilo, com as contas em dia, casa própria, tudo certinho. Logo seu Osmar afirma basicamente a mesma coisa, exaltando o fato de ter conseguido uma casa própria, um carrinho e poder ajudar os três filhos.

Os queridos invisíveis

Em seguida, o assunto em foco é a invisibilidade e o preconceito que muitos trabalhadores do setor de limpeza urbana sentem. ‘‘Olha, não é nem pra dramatizar não, mas é difícil um dia que a gente não sofre. Não é todo dia, mas é a maioria’’, conta Flaviano. Osmar concorda de pronto, e a Fabiane e o José também, lamentando tais coisas. ‘‘Ali no Zé Coxinha, tá vendo? Tinha uma senhora sentada, numa cadeira de rodas, se alimentando. Caíram umas moedas dela no chão. As pessoas passavam e ela chamava para pegar as moedas, mas elas não pegavam não. Eu estava varrendo a rua, fui pegar as moedas, já que ninguém pegou. Então a senhora gritou comigo: ‘’Não! Não bota a mão no meu dinheiro não!’. Eu falei ‘‘eu só queria ajudar’’, aí encostei a mão nela assim perto dos ombros. Ela deu um grito, dizendo ‘‘tira a mão de mim! Mexe com lixo e vem botar a mão em mim!’’. Mas é o tipo de coisa que tem que entrar num ouvido e sair pelo outro’’.

‘‘A gente só aparece só se parar dois ou três dias. Aí o gari, o coletor, o pessoal da limpeza pública aparece”, relata Flaviano. Já Osmar conta que enfrenta o problema por trabalhar como gari na própria família. ‘‘Eu tenho umas sobrinhas que, infelizmente, quando me veem elas finge que não estão vendo, ficam com vergonha. Tenho outros parentes que também passam perto e fazem isso’’. Neste momento a Fabiane entra na nossa conversa para contar um momento interessante pelo qual passou. ‘‘ Um dia, saindo da faculdade, o caminhão da coleta estava passando e eu, como trabalho na empresa, conheço muita gente que trabalha lá. Um dos rapazes que estava no caminhão me gritou. Eu, rapidamente, respondi, gritando eles também. Todo mundo que estava perto ficou olhando com uma cara estranha pra gente’’, conta ela, sorrindo e afirmando que toda essa questão de ter preconceito e ignorar essas pessoas é lamentável.

Flaviano e Osmar ainda ressaltam que para eles na rua é “oito ou oitenta”, não tem meio termo. ‘‘Metade da população ama a gente e a outra metade num é chegada não. Bom dia da gente nem sempre é respondido. Lugar que pedir um banheiro às vezes não vai servir, mas se chegar uma pessoa com uma gravata eles vão servir. Aqui a gente passa o dia falando dessas situações que a gente passa de ser ignorado ou tratado assim’’, dizem. Ambos acham que esse tipo de situação ainda ocorre por falta de conhecimento das pessoas, e analisam que já foi bem pior. ‘‘Não é como antigamente, já melhorou bastante. Eu, graças a Deus, no Centro de Vitória, não tem uma pessoa que não goste de mim’’, relata Osmar.

page

Como mensagem para aqueles que acham que o pessoal da limpeza pública não é gente nem digno de respeito, eles deixam um recado: ‘‘olhem para a gente com outros olhos. Passem realmente a acompanhar, procurem conhecer. Tem gente de todas as classes que faz amizade com a gente, mas a maioria não é assim. Aos que são nossos amigos, que continuem assim’’. Já sobre o orgulho e motivação que tem para trabalhar todos os dias, a resposta, de acordo com Flaviano, é ‘‘estar sempre deixando a cidade limpa’’. Osmar completa: ‘‘é deixar os outros alegres também, né? Porque se a gente for olhar, os problemas tem, não vive bem com ninguém. Então sempre tô brincando, rindo’’.

 

 

Share Button

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *