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Texto: Jéssyka Saquetto | Edição: Carina Costa | Foto: Rafaela Laiola – Estima-se que há no Brasil 1,5 milhões de pessoas em situação de rua. Na Grande Vitória esse número seria de 600 pessoas.

A maloca tem vinte e três colchões, quatro sofás e cinco televisões. Logo à frente fica a cozinha, onde o fogão improvisado está trabalhando a todo vapor. O endereço é a calçada na Rua Divina Espírito Santo do bairro Rosário de Fátima, localizado no município da Serra, região metropolitana da Grande Vitória. Lá vivem em média 30 pessoas em situação de rua. O lugar se consolidou como moradia coletiva há três anos, quando os primeiros moradores de rua começaram a levar os móveis e se abrigarem ali.

Maloca é a denominação que os próprios moradores de rua atribuem ao local e ao modo de vida deles, significando um modo específico de viver na rua: não construção de proteção aos próprios corpos, embriaguez, mendicância, exposição a violências. O local é uma grande calçada coberta e sombreada por seis árvores constantemente cortadas pela prefeitura. Cada morador tem direito a um espaço mais ou menos correspondente ao tamanho do seu colchão. Ali ele armazena suas coisas, coloca seus móveis e arruma o espaço. A sala e a cozinha são ambientes comuns a todos e de cooperação mútua. Os demais locais precisam ser rigorosamente respeitados sem “colar” muito no colchão do companheiro.

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O sitio da maloca fica na calçada que margeia a até então empresa de cimentos que se instalava ali. Na época, apesar da calçada ser um local público, mas sua conservação de responsabilidade privada do imóvel, a Nassau instalou canos na marquise da extensão da calçada para desencorajar os moradores de rua de se abrigarem ali. De hora em hora, um jato de água era acionado para “espantar” os moradores. Há um ano a empresa se mudou do local.

Cada novo morador, seja de passagem ou com pretensões de ficar, aloca-se da melhor maneira possível, até surgir uma vaga nas áreas mais nobres, correspondentes às regiões próximas à parede. Segundo Paulista, líder intitulado pelos demais moradores, a população da maloca é flutuante e altera constantemente. “Temos em média uma população fixa de 30 moradores de rua, mas como muita gente vive aqui apenas alguns meses, chegamos a ter 100 moradores em algumas épocas”. Ele explica que todos que chegam ali são bem-vindos, mas primeiro há uma conversa sobre respeito ao próximo, comprometimento e limpeza do local.

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Paulista é o apelido de Renner de Souza, que veio de São Paulo para o Espírito Santo em Janeiro de 2015 e vive na maloca há 9 meses. Em São Paulo, Renner fazia parte do Movimento Nacional da População em Situação de Rua. Veio para o Espírito Santo a pedido da Coordenação do Movimento, para poder implantar e mobilizar projetos no estado. Porém, devido a conflitos internos com a coordenação, ele foi expulso do movimento e a perda da renda que recebia o  levou a viver nas ruas novamente. Renner nasceu na Bahia e com cinco anos se mudou para Campinas com os pais. Aos oitos anos fugiu de casa por causa das constantes brigas familiares e passou a viver em abrigos para menores moradores de rua. O abrigo o devolveu ao lar em duas situações, mas Renner tornou a fugir e passou a viver definitivamente na rua com 16 anos. Conheceu o movimento tempos depois, no qual fez parte durante quatro anos até vir ao Espírito Santo.

Agora como líder dos moradores em situação de rua do Divino Espírito Santo, ele mobiliza as pessoas a participarem de reuniões para discutirem com a prefeitura e a secretaria de habitação questões a respeito das políticas públicas voltadas para as condições em que se encontram. As exigências giram em torno de aluguel social, hospedagem noturna e politicas sociais eficazes. “Para recuperar um morador em situação de rua não é dando um banho e uma noite provisória em um abrigo. É preciso dar um emprego, condições de auto sustento. Eles vão para os abrigos e são tratados como animais, não querem mais voltar para lá. Precisamos de políticas públicas que deem condições de uma ressocialização. Não somos bandidos, só não temos condições de pagar um aluguel”, afirma Paulista.

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Paulista veio de São Paulo para o Espírito Santo, vive na Maloca há 9 meses e é reconhecido pelos moradores como líder.

O suporte oferecido pela Prefeitura da Serra é por meio do Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua, o Centro POP. Lá os moradores tinham acesso à saúde, ao lazer, à alimentação, ao cadastro nos programas sociais e acesso aos demais serviços oferecidos. O Centro POP ficava a duas quadras da maloca, mas por pressão popular, sob a justificativa de que o local atraía drogados e assaltantes, o prefeito providenciou a mudança para um novo bairro. Começou então a busca para um novo local do Centro POP. Muitos bairros fizeram abaixo assinado para não permitir a instalação nos seus bairros, até que ele foi realocado no bairro São Diogo II. Quanto ao acolhimento Institucional para população de rua, o município conta com um abrigo localizado em Jacaraípe com capacidade de atendimento para 30 usuários. Trata-se de um serviço que tem por objetivo acolher temporariamente população em situação de rua.

Os banhos e a higiene pessoal que antes aconteciam no Centro POP agora são feitos em um galpão de uma empresa que se mudou do local e cedeu o banheiro para os moradores.

“O preconceito é generalizado e institucionalizado dentro da sociedade. Das pessoas que usam drogas na rua, a maioria possui casa e só usam as ruas temporariamente para o uso do entorpecente. A população em geral acaba confundindo tudo isso, nós moradores de rua dependemos das calçadas para sobreviver, não podem achar que se está na rua é bandido e drogado”, reclama Paulista.

A maioria dos moradores de rua da maloca trabalha fazendo bico como flanelinha nos estacionamentos da Grande Vitória. Segundo eles, o dinheiro é suficiente para sobreviver. Algumas igrejas também se mobilizam para em algumas ocasiões levarem alimentos para eles. Mas assim como as visitas da prefeitura, são todas esporádicas.

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Para garantirem que os poucos pertences que carregam não sejam retirados das ruas, os moradores entraram com uma medida protetiva na Defensoria Pública para que não aconteça como ocorreu na desocupação da quadra de esportes próxima à maloca. Na época, o local estava ocupado por algumas pessoas em situação de rua, que devido a uma ordem judicial para desocupação da quadra, perderam tudo que tinham numa desocupação ostensiva da polícia. Desde então ficou proibido a ação de policiais com esta finalidade, e qualquer tipo de abordagem deste tipo precisa ser feira por agentes sociais.

Os moradores relataram que não é tão perigoso morar nas ruas do Espírito Santo como poderia ser em outros lugares. Nunca sofreram qualquer tipo de agressão física por parte da polícia ou da sociedade em geral. O que sofrem são agressões morais e olhares repreensivos de preconceito e exclusão social. “O fato de sermos moradores de rua nos coloca em igualdade com usuários de drogas, assaltantes e bandidos perante os demais, independente de sermos ou não uma dessas coisas. Não ter casa e não consumir compulsivamente me exclui da sociedade e eu passo a ser um ser desprezível e invisível perante as políticas públicas e a engrenagens do sistema”, desabafa um dos moradores da maloca.

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Mesmo assim eles são cuidadosos com a segurança do grupo. Normalmente durante a noite duas pessoas ficam acordadas para que em qualquer situação de perigo possa alarmar o restante do grupo para se protegerem. Outra situação recorrente é que quando ocorrem roubos na região, o primeiro local que tanto os moradores quanto os policiais vão atrás é da maloca. Segundo Paulista, muita gente vem roubar naquela região porque fica próximo do terminal rodoviário, o que atrai muita gente para atacar os passageiros.

Leni Santos, que mora na maloca há dois anos, relata que raramente ocorrem furtos entre eles, pois desde que se organizaram coletivamente há um respeito pelos pertences do colega. “Já aconteceu de sumir algumas coisas, mas atualmente é raro. De vez em quando que some uma blusa, uma bermuda, mas é tranquilo”.

Leni mora nas ruas com o marido desde dezembro de 2012. Eles viviam de aluguel, mas estavam desempregados e a renda vinha somente de bicos de ambas as partes. Depois da recessão econômica nacional não conseguiram mais arranjar qualquer trabalho, estavam devendo 3 meses de aluguel e não conseguiram mais pagar. Saíram de casa, deixaram todos os móveis como quitação da dívida e estão vivendo há dois anos na rua. Questionada pela vulnerabilidade de violência que está sujeita, pelo simples fato de ser mulher, ela disse que nunca passou por qualquer situação de abuso ou agressão e disse que todos a respeitam.

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“Se você não tem emprego e não consome você não faz parte da sociedade, fica à margem, é o próprio marginalizado. Mas na verdade o morador de rua é o anarquista de um sistema globalizado. Nós temos autonomia em pleno século XXI em que tudo se organiza em redes, coligações e blocos. Quando você passa a viver fora disso se transforma em um número, mas encontra um jeito próprio de viver”, bem nos falou Paulista.

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