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Andreia Ferreira, Juliana Benichio e Thalita Mascarelo –  Sol, mar, céu azul e belas praias. A Terceira Ponte e a Pedra da Cebola. A representação de Vitória, capital do Espírito Santo, no Instagram é em sua maioria composta por esses temas de imagem. As páginas da rede que publicam essa imagem da capital capixaba reproduzem o discurso imagético de que a cidade se resume a suas belezas naturais, e remetem a ideia de cartões postais.

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Instagram da Prefeitura Municipal de Vitória (@vitoriaonline).

Além disso, em abril deste ano, teve início uma campanha lançada pelo Governo do Estado por meio da Secretaria de Turismo (Setur) e da Secretaria de Desenvolvimento (Sedes), que incentiva o capixaba a compartilhar imagens das belezas naturais e monumentos do Espírito Santo com o uso da hashtag #amores. O objetivo é divulgar o estado atraindo não somente turistas, como também investidores.

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Fonte.

A professora doutora Rosane Zanotti, juntamente com seus alunos do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes),  realizou uma pesquisa sobre a representação da cidade de Vitória na rede social Instagram e como esta, estava se diferenciando das imagens institucionais presentes nos cartões postais da cidade. Rosane contou que o que motivou o interesse pela pesquisa do tema foi “a relação intima que a fotografia tem com as cidades, somada ao crescente acesso tanto à informação visual quanto à produção – e distribuição – de conteúdo pelos sujeitos nas redes sociais online. A partir desse cenário, buscamos compreender como a cidade de Vitória era exposta no Instagram.”

Para a professora, a representação das paisagens serve para confirmar o discurso oficial que é feito sobre a cidade. “Os tradicionais cartões postais e as imagens institucionais – utilizadas especialmente na divulgação turística – são responsáveis por reforçar o senso comum e por ‘vender’ a cidade a partir do que vale a pena ser visto, isto é, não se ocupam de construir uma outra narrativa sobre aquele espaço urbano. A repetição desse tema e dos ângulos sobre ele reforçam apenas um ponto de vista sobre a cidade, um modo de vê-la, o oficial.”

Rosane também reforça outras narrativas de Vitória, que, em sua opinião, são importantes devido aos possíveis usos da cidade. As fotografias postadas, que ela considera óbvias, acabavam por apresentar uma “cidade cenário”, onde as pessoas -quando aparecem – são apenas figurantes. “Sinto falta da interação das pessoas com os espaços, dos usos efetivos desses espaços sendo retratados nas imagens da cidade, da tradicional fotografia de rua.”

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Centro de Vitória. Fonte: Instagram @vix.outrosolhares

 

Outra pesquisa que aborda as diferenças da tradicional representação de Vitória no Instagram é a de Ana Clara Magnago Bianchi, publicitária e atualmente estudante do mestrado em Comunicação e Territorialidades na UFES, que fez um perfil na rede social para retratar a cidade de Vitória: “O projeto experimental @vix.outrosolhares, da disciplina Fotografia, dispositivos móveis e cidade, propõe um novo olhar para o meio que nos cerca. Descobrindo novos ângulos e nuances da cidade de Vitória o projeto nos permite questionar a política do olhar e visibilidade ao qual estamos inseridos e ajudamos a reproduzir a cada clique”.

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A publicitária tem como objeto de pesquisa os discursos imagéticos que produzimos sobre a cidade de Vitória e busca também trazer outros olhares à capital. “Esse meu estudo me permite perceber que existe um modo muito incisivo de falar, por meio das imagens, sobre a cidade de Vitória. E esta fala parte de um lugar literalmente específico. Essas imagens todas também deixam de dizer outras tantas coisas porque as compreendo sendo produzidas dentro de um jogo de poder em que o discurso que dá voz a Y silencia X. Ou em outras palavras, a cidade ilha, ou cidade turística (produzida por não-turistas inclusive) não permite que enxerguemos outros aspectos da cidade e outras formas de experimentá-la”, comenta. 

Ana Clara problematiza a visibilidade da cidade apenas como um local lembrado por suas praias e belezas naturais e utiliza do perfil no Instagram como uma oportunidade para proporcionar aos usuários da rede uma outra forma de se ver Vitória. “No Instagram temos o poder de criar e perpetuar nossas impressões sobre o mundo, sobre nosso cotidiano, e por que insistimos em produzir ou reproduzir essa única imagem de Vitória? É quase sempre a Vitória ‘ilha’ que surge nas imagens que pude levantar sobre a cidade. Será que todos se relacionam com a cidade da mesma forma, a ponte de existir um discurso imagético da cidade tão forte que silencia todos os outros? Me atrevo a dizer que não. Penso que esse é o grande desafio com as redes sociais. Somos, além de usuários, produtores de conteúdo e temos o poder de “mudar as regras do jogo”.

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Do perfil @vix.outrosolhares: “”Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara” #outrosolhares #mostreacidade#fotograficidade”

A questão que se traz à tona, portanto é: por que insistimos em postar em nossas próprias redes sociais “mais do mesmo” e não trazemos um novo olhar, o nosso olhar sobre a cidade de Vitória? As redes sociais têm o potencial de receberem as multiplicidades de olhares de cada um, no entanto, ainda reproduzimos irremediavelmente o mesmo. O Instagram @vix.outrosolhares demonstra que outras visões de Vitória também são a realidade que nos cerca e, muitas vezes, muito mais presentes no nosso dia a dia e podem assim como as paisagens que vemos constantemente de Vitória fazer parte do nosso olhar sobre a cidade.

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“As cidades, como os sonhos, são construídas por desejos e medos…” #mostreacidade #outrosolhares #fotograficidade

 

 

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