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Thamara Machado e Júlia Pavin - “Mas ela estava bêbada” , “Com certeza usava roupa curta!”, “ O que foi fazer no baile funk?!”, “Tava pedindo” são frases rotineiras destinadas às mulheres que sofrem algum tipo de violência. O predomínio desses discursos de caráter culpabilizante da vítima acontece muitas vezes via redes sociais, em que, além de condenadas, as mulheres são expostas e rechaçadas. O caso mais recente foi o de uma jovem na comunidade do Barão em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. A garota, que no ato estava inconsciente, sofreu um estupro coletivo por vários homens, entre eles, um rapaz com quem se relacionava. Como se não bastasse a violência física a que foi submetida, a carioca ainda teve um vídeo divulgado em que os agressores explicitaram o estupro. Infelizmente, casos de violência contra a mulher, seja ela física e sobretudo simbólica, são habituais. Tais práticas, apenas reforçam e disseminam a cultura de ódio em relação ao gênero feminino e seu corpo que é entendido nessa lógica como de propriedade pública.


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As ocorrências de exposição de corpos e vidas de mulheres no espaço online, estão crescendo significativamente no país. Um levantamento da ONG Safernet revelou que houve um aumento de 120% em relação aos anos de 2013 e 2014 no número de denúncias de vídeos de caráter íntimo na internet. A pesquisa ainda apontou para um dado alarmante: das denúncias, 81% tinham mulheres como vítimas. Ou seja, se trata de uma violência de gênero.

Duas mulheres aceitaram dar seus depoimentos ao Universo Ufes contanto sobre o vazamento de vídeos íntimos nos quais tiveram suas imagens expostas . Paula e Lúcia – nomes fictícios – passaram pelo mesmo sentimento de culpabilização e raiva após a violência simbólica e psicológica que sofreram. “A maioria das vezes é filmado sem o consentimento da mulher e ainda divulgado, é de desestabilizar qualquer uma. Lembro que no dia que vi o vídeo, bati o carro”, lembra Paula.

Ela, que na época, sentia muita vergonha do acontecido contou que muitas pessoas comentaram que ela estava “pedindo” o abuso, já que no momento da gravação do vídeo estava bêbada. “É totalmente imbecil, primeiro porque eu estava inconsciente e não podia consentir com aquilo. Segundo, porque as pessoas ficam bêbadas a ponto de não se lembrarem sim!”, conta Paula, que relatou ainda outros discursos de ódio que pretendiam legitimar o que aconteceu com ela. Mas foi em uma dessas, que Paula percebeu que a cultura de ódio em relação a mulher nada mais é do que uma das facetas do machismo. “Procuram centenas de justificativas para o estupro, para o revenge porn (fotos e/ou vídeos íntimos divulgados na internet sem consentimento e geralmente motivados por vingança do parceiro), para a discriminação contra as mulheres. O sistema serve aos homens”.

Em comum, Paula e Lúcia, repudiam o compartilhamento desse tipo de vídeos nas redes. “Eu não vou abrir os vídeos, não vou compactuar com esse tipo de coisa, é um comportamento horrível, tanto divulgar quanto assistir. O cara que filmou agiu como se o meu corpo fosse disponível pra ele falar e filmar”, afirma Lúcia. Ela, teve um vídeo viralizado pelo whatsapp e se sentiu culpada pelo o que havia acontecido. Para tentar se blindar da chuva de postagens no seu perfil nas redes sociais, ela teve que, como ela mesmo conta, se “isolar do mundo”.

No turbilhão que se tornou sua vida após a divulgação do vídeo, Lúcia contou que tinha muito medo de sofrer alguma retaliação pública. “Quando viraliza (o vídeo), naquele momento, você é o assunto, você tá no ônibus e tem medo de alguém te reconhecer”. Em meio a isso tudo, ela diz que a salvação para tudo o que passava foi no movimento feminista. “Eu não sofri tanto quanto uma outra garota que não conhece o feminismo e não sabe que pode exercer sua liberdade sexual tranquilamente”.

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Ambas histórias, igualmente impulsionadas pelas redes, trazem à tona a real condição da sociedade brasileira: patriarcal, misógina, machista e violenta perante às mulheres. E a base para a propagação dessa ideologia e cultura do ódio foi, em todos esses casos, protagonizada pela internet. Entretanto, o espaço online é dual. Ao mesmo tempo que rechaça e apedreja, também afaga. É por meio de grupos em redes sociais que as mulheres se sentem confortáveis para trocarem experiências ou apenas desabafar sobre violências a que foram submetidas. De modo que, agora, não se configura apenas como um ambiente de reforço à cultura de ódio, mas sim de luta feminina. E foi nas redes que, após o caso da jovem estuprada coletivamente, surgiu o movimento “Por Todas Elas” com manifestações em várias capitais e cidades brasileiras contra a cultura do estupro enraizada em nossa sociedade.

Pela liberdade
Na última semana uma série de atos ganharam força nas grandes capitais do país. Entre as principais bandeiras defendidas estavam o fim da cultura do estupro e também da objetificação dos corpos femininos. “O corpo é nosso, é nossa escolha, é pela vida das mulheres, legaliza!”, foi um dos coros entoados por centenas de mulheres no Ato por Todas, na quinta-feira, 02 de junho, em Vitória-ES.

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Juntas, elas caminharam da Universidade Espírito Santo até a Assembleia Legislativa erguendo suas bandeiras contra o estupro, machismo e misoginia enraizados na nossa cultura e reafirmados pela atual conjuntura política do Brasil.

O último caso de estupro coletivo que ocorreu na periferia do Rio de Janeiro, veio acompanhado de uma série de retaliações direcionadas a vítima nas redes, culpabilizando-a. Fato que gerou uma indignação coletiva dos movimentos feministas, – que já estavam em ebulição em decorrência das recentes mudanças e retrocessos políticos do atual presidente Michel Temer -, e levou mulheres de todas as classes e etnias a protestarem em favor da liberdade feminina.

Elas fizeram ecoar em uma das principais avenidas da cidade, no horário de maior movimento, palavras de ordem contra o machismo, patriarcado, em favor da legalização do aborto e contra a objetificação dos corpos femininos. “Nem recatada e nem do lar, a mulherada ta na rua pra lutar!”, bradaram juntas.

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Em momento marcante do ato, as mulheres fizeram uma homenagem a Araceli Cabrera Crespo, menina de 8 anos que foi drogada, estuprada e morta por membros de famílias influentes da Grande Vitória, no dia 18 de maio de 1973. Em memória a ela o dia foi instituído como Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.

Tuanne Almeida, assistente social e integrante do Movimento RUA comentou sobre o estupro e culpabilização da vítima, principais reivindicações do ato, “É o que a gente tem que enfrentar todos os dias, infelizmente. Na última reunião algumas contaram casos de estupro e falaram sobre se sentirem culpadas. O tempo todo é uma lógica que a gente tem que romper que não é só a mídia que reforça, mas devido a nossa construção enquanto mulher a gente acaba contribuindo também”, concluiu ela.

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